terça-feira, 28 de julho de 2015

Rogéria comemora repercussão de Úrsula Andressa em ‘Babilônia’:
 ‘As pessoas me param na rua’
Com o tempo, o delicado sol feminino iluminou o que se vê: o cabelo cuidado, as unhas feitas, a cabeça erguida.
 A vida em cor-de-rosa, antes confinada ao silêncio, revela-se hoje plena e vigorosa. Como num eclipse permanente, Jorge Demétrio, Astolfo e Luiz saíram de cena para Nany People, Rogéria e Jane Di Castro — respectivamente, três das artistas mais populares da comunidade LGBT — ganharem espaço. 
A biologia masculina se moldou ao desejo da alma. São, enfim e por fim, mulheres.
— Não tenho problema com meu sexo. Sou casada com um homem hétero e sou tratada como mulher. É assim que gosto. 
Ele sempre me assumiu e não me proibiu de nada. Também não poderia. Sou ariana, não gosto de ficar presa — sustenta Jane, que oficializou a união com Otavio Bonfim em 2014, num casamento comunitário, após 47 anos de uma vida a dois.
Essas mulheres transformadoras experimentam uma fase profissional excitante. Estão na ativa e se distanciam cada vez mais do passado de angústias vãs e de preconceitos cortantes. 
“Lembra que quando eu comecei não tinha siglas”, diz Rogéria, a Úrsula Andressa de “Babilônia”. “Sou de uma geração que viu a aids ser descoberta e chamada de peste gay”, recorda Nany. 
Sem saber o que fazer com um menino diferente dos demais, os pais da futura repórter de Hebe Camargo consultaram psiquiatras. 
Ela tinha 10 anos. Aos 50, comemora avanços, mas é implacável ao analisar a reação à legalização do casamento gay nos Estados Unidos, conquista que polarizou debates e comemorações nas redes sociais no mês passado.
— Foi uma hipocrisia, modinha de Facebook. A gente aprovou esse negócio desde 2011 e ninguém falou nada. 
Aí eu sou obrigada a ver um monte de neguinho colocar aquela telinha de TV colorida dos anos 70. 
Vi pessoas completamente homofóbicas, que não aceitam o filho ou o sobrinho veado que têm em casa, bancando as modernas e sendo aplaudidas — critica Nany, ratificando seu desprezo pela rede criada por Mark Zuckerberg: 
— Acho o Facebook a grande desgraça da humanidade. As pessoas se acham Deus. A morte do Cristiano Araújo, por exemplo... 
Morreu muito jovem, foi uma tragédia. Mas e o tanto de gente que já morreu em acidentes na estrada? Vi casal em lua de mel, jovens que acabaram de se formar. 
Aí, neguinho quer fazer uma louvação para o sujeito e eu sou obrigada a ouvir: “Ai, eu adorava a dupla Cristiano e Araújo”. Um bando de galinha d'angola. Uma dá um grito, a outra grita atrás.
Vi pessoas completamente homofóbicas, que não aceitam o filho ou o sobrinho veado que têm em casa, bancando as modernas e sendo aplaudidas
Após concluir sua participação em “#PartiuShopping” — humorístico com Tom Cavalcante que foi ao ar no Multishow —, ela se dedica ao lançamento da biografia “Ser mulher não é para qualquer um” e aos ensaios da peça “Caros ouvintes”, com estreia prevista para agosto em São Paulo, na qual interpreta uma personagem “homofóbica, católica apostólica praticante e que fala um português arcaico”.
— Quem é de extrema direita vai se incomodar. Uma trans no papel? Faço o pessoal do outro lado da ponte que me acusa — endossa.
Embora ostente um curriculo farto, com boas perspectivas de trabalhos no horizonte, Nany considera a representação das minorias na TV ainda irrisória — nesse sentido, vale destacar o sucesso de “Transparent”, elogiada série americana sobre um pai transgênero, atual queridinha dos críticos nos Estados Unidos. 
Ao responder sobre o que almeja sendo uma transexual brasileira, ela diz estar satisfeita com o que tem, mas logo vislumbra algo inédito a ser cobiçado: um papel numa novela de Aguinaldo Silva:
— Eu adoro ele. Tiraria a maquiagem, a peruca, tudo numa ótima. Não faria uma personagem que o Aílton Graça fez divinamente, que era trans e homem (a Xana de “Império”). Não, faria uma mulher. Não nadaria contra aquilo que construí e formatei. Não vou. Mas é o que me falta: uma novela do Aguinaldo Silva.
Amada nas ruas
Para Rogéria, o universo da teledramaturgia não é novidade, mas ainda parece surpreendê-la. “Está sendo uma coisa muito hollywoodiana”, admira-se. 
Ela demorou a aparecer na trama de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, mas, quando finalmente surgiu, foi com pompa e purpurina. 
Nas ruas do Leme, bairro onde mora, diz comprovar diariamente o sucesso do papel — uma transexual que era oficial do exército —, matéria-prima de uma fina ironia.
 Afinal, já nos capítulos iniciais, o público rejeitou o beijo entre Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg).
— Não posso entrar nesses detalhes, porque esse pessoal que não gostou do casal lésbico me ama. Como explicar isso? 
Não sei. Lembra de “Lado a lado” (2012)? Fiz mãe e avô na novela. Chorei de felicidade. Agora, estou defendendo o LGBT. Que maravilha! — comemora ela, aos 72 anos: — É uma loucura o que acontece comigo. 
As pessoas me param na rua. Outro dia, uma senhora disse: “Você não é mais a travesti da família brasileira, você é a artista da família brasileira”. Consigo juntar católicos, evangélicos, muçulmanos e judeus. O povo me aceita, ou não viveria mais neste país.
A participação na novela das nove fez com que Rogéria, atenta ao registro minucioso do HD, redobrasse os cuidados com a beleza. 
No dia desta conversa — feita no início da noite, por telefone —, a diva havia começado sua rotina às 5h30m, ainda que o motorista da Globo só fosse buscá-la três horas depois.
 Tudo para estar maquiada e com o cabelo arrumado ao chegar no Projac. “Parece que vou ao Festival de Cannes. É um delírio global, fantástico”, exagera.
— Estou cansada, com muito texto para decorar, mas muito feliz. A minha vida de mulher está muito intensa. 
Tenho que pintar a raiz do cabelo toda semana. A unha, que sempre foi bem manicurada, tem que ser mais ainda... 
Lembro sempre o que mamãe dizia: “Meu filho, você vai se vestir de mulher 24 horas por dia. Nós mulheres somos mais asseadas”. 
Isso está vindo muito forte em mim. Cada pipi que faço agora é um tal de lava tudo. Antigamente, era só dar uma sacudida e guardar. Como mulher que sou, tenho que ter a atenção de uma — enfatiza.
O sentimento de orgulho por ser mulher é o mesmo compartilhado por Jane, eleita síndica do prédio onde vive em Copacabana pelo oitavo ano.
 “Já tentei sair, mas não deixam. Isso é respeito”, sintetiza. A trajetória da artista, uma das fundadoras da Parada Gay do Rio, é contada no espetáculo “Passando batom”, dirigido por Ney Latorraca e já encenado com sucesso na década de 80 — a montagem fica em cartaz na Sala Municipal Baden Powell até dia 2 de agosto, com ingresso a R$ 40. 
O intuito é justamente promover o reencontro com seu antigo público e apresentá-la às novas gerações. Em última instância, é uma ode à beleza da autenticidade. Mais do que nunca, ela está mais próxima daquilo que sonhou para si.
— Briguei para ser quem eu sou. Hoje as pessoas falam em bullying. Na minha época era porrada mesmo. 
Bati e apanhei muito. Bastava alguém me chamar de veado. Por incrível que pareça, era um tempo mais ameno, a gente podia sair de madrugada, não tinham mortes com tiro na cabeça. 
Fui pioneira e ativista sem saber — diz Jane, criada em Oswaldo Cruz, com pai militar e mãe evangélica: — Conheço a Bíblia, por isso sou contra pastores que usam o livro para dizer que somos seres do mal.
A atriz e cantora não se sentia vocacionada para exercer o papel de mãe. “Criança requer responsabilidade”, lembra. 
O mesmo aconteceu com suas colegas. No caso de Nany People, a decisão fez com que ela se separasse do homem com quem ficou casada por oito anos. “Ele queria ser pai”, conta ela, aliviada também por não ter feito a cirurgia de mudança de sexo.
— Mamãe implorou para eu não fazer. Minha vida teria tomado outro rumo se tivesse optado por isso. Sou uma pessoa que faz muita coisa ao mesmo tempo. 
As minhas amigas que operaram perderam aquela voltagem do 220 e ficaram no 110. Aquela locomotiva se foi. 
É uma coisa que constatei. A rotação muda, né? A gente está falando de uma coisa que para mim já passou. 
A partir do momento que me formatei no meu trabalho e consegui sobreviver dele como trans, apaziguei isso no coração — ressalta
Ainda que tenha transformado a trajetória num livro aberto de mais de 200 páginas — resultado de inúmeras conversas com o jornalista Flávio Queiroz que, juntas, duraram mais de 20 horas —, ela é consciente que a sexualidade em certas profissões é um tabu mais sinuoso. 
Por isso preserva os nomes dos jogadores de futebol (dois do Corinthians e um do Palmeiras) com quem namorou.
— Nenhum deles me levou para a cama como trans ou gay, mas, sim, como mulher. 
Não tinham o perfil de quem pega travesti na rua para se sentir comido por uma mulher. 
Nossas relações eram tão calcadas no sentimento que, muitas vezes, eles saiam do jogo, vinham para casa e a gente nem transava. Não era aquela coisa de chicotinho de couro. 
Outro dia, chegou um cara de um time e me abordou no aeroporto. Ele estava indo jogar fora, em outra cidade. 
Chegou numa segunda-feira e foi direto para minha casa. Ou seja: eu continuo batendo um bolão — brinca.
Para além da imagem de devoradora de homens e do humor escrachado, símbolos da persona cristalizada na TV, Nany diz experimentar uma vida mais amena na intimidade.
— Sou uma pessoa muito tranquila, que ajudou a criar quatro sobrinhos. Sou muito presente na vida do meus irmãos e dos meus amigos. 
Sou muito mais caseira do que as pessoas imaginam. Eu, por exemplo, gosto de cozinhar quando estou
apaixonada.

Como faz tempo que isso não acontece, tenho comido muito em fast food (risos). Eu sou boa na cozinha, sim. 
E eu sempre namorei garotão. Acontece. Se Madonna pegou Jesus, eu vou com os querubins — avisa ela, atualmente solteira, mas não sozinha: 
— Você descobre aos 50 que sexo é química, e amor é matemática. E às vezes você não quer fazer conta. Não estou casada com ninguém, mas não deixei de transar. Eu estou dando muito bem.
A iniciativa de narrar episódios da sua história a conduziu naturalmente a lugares e sensações acessados somente com o auxílio generoso da memória. 
Passagens em Serrania e em Poços de Caldas. A briga decisiva com o pai — o soco na cara dado por ele durante um jantar para fazer o filho “falar como homem” — e os carinhos infinitos com a mãe, cuja morte sentiu firme nos braços, renderam choros e aprendizados. 
Com a mãe aprendeu: “As pessoas fazem com a gente aquilo que a gente deixa — até quando a gente deixa”. 
Talvez por isso, afirme tirar proveito da espuma dos dias, meses, anos, décadas. O tempo está longe de ser uma faca atravessada na garganta. 
Ao contrário: “O tempo sempre foi conivente comigo”, repete ela.
— Meus amigos entraram em crise, estão tomando até Rivotril. Eu tomo na bunda, mas não tomo um troço desses (risos). 
Não entrei na paranoia de pensar em morte. Eu sou adepta ao estilo Suzana Vieira, sou muito fã dela. Sempre fui famosa. Desde criança, minha fama corria solta (risos). Eu ralo minha periquita na rodovia da vida até hoje. 
Nunca tive marido rico para me sustentar. Então, se não fizer os meus shows, meu condomínio não fica em dia. 
Trabalho no que eu gosto. Essa é minha festa. Mesmo. Procuro tirar riso de tudo. Eu fui comprar meu primeiro carro com 36 anos de idade.
 O tempo foi muito generoso comigo e eu fui me adequando a ele também. Virei trans com 37. Antes, era drag: montada, ficava como a Branca de Neve. Desmontada, era o Dunga — diverte-se.
Nany — a mulher que engoliu Jorge Demétrio Cunha Santos, como fora registrado, sendo seu avesso — ensina:
— Todo mundo leva pedrada e tem motivo para rir e para chorar. Mas o sol não vai deixar de nascer por causa disso. O máximo que vai acontecer é você perder alguns amanheceres.

FONTE/EXTRA

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