sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Arlete Salles ao abrir o coração:
“Há um vazio na minha alma”
Aos 73 anos, a atriz está fechando um ciclo de perdas familiares e problemas de saúde e diz que não descarta um novo amor

Por Raquel Pinheiro
Bem-humorada, Arlete Salles avisa: não gosta de ser chamada de “senhora”. 
Com o sorriso largo que é sua marca registrada, ainda brinca que é melhor “não citar a idade de ninguém”, para logo lembrar que fez aniversário no mês passado.
 Aos 73 anos e com dois filhos, o ator Alexandre Barbalho, de 55, e o cineasta Gilberto Salles, de 44, do casamento com o ator Lúcio Mauro, de 88, ela vive a reacionária e homofóbica Consuelo de Babilônia e se sente indignada com a intolerância atual: 
“O que faz uma pessoa achar que tem o direito de interferir na vida do outro?”. 
Arlete se curou de um câncer de mama diagnosticado em 2014 e não quer mais falar sobre isso.
 A doença veio meses após a morte da mãe, Severina. A atriz perdeu ainda seus dois cachorros desde então. 
“Há um vazio na minha alma”, confessa a QUEM em sua casa, na Gávea, no Rio. A fé ajudou-a a enfrentar as dificuldades. 
“A vida me deve um certo afago”, afirma. Voltaria a namorar? “Com um velhinho fique certa de que não será. 
Eu faria só uma concessão, mas ele já está casado: Fernando Henrique Cardoso”, diz, às gargalhadas.
 Como é dar vida a uma mulher preconceituosa?
Para uma intérprete, ela é um material maravilhoso. Consuelo tem o papel importante de trazer a discussão sobre homofobia, intolerância, hipocrisia religiosa. O que faz uma pessoa achar que tem o direito de interferir na vida do outro? Como um adulto apedreja uma criança porque ela está saindo com a roupinha de sua religião? Não sei se isso é resultado da internet... Antigamente essa loucura ficava restrita às casas.

Participa de redes sociais?
Não. Recebo e-mail, respondo e é isso. Acho ridícula a selfie, palavra que não faz parte do nosso idioma. É tão cretino a pessoa ficar com o próprio celular na mão rindo para ela mesma e se fotografando na rede social! Com amigos ainda passa, mas a pessoa sozinha...

 Está feliz com Babilônia?
Gostei da novela desde o começo. Mas nosso trabalho é para o público, que gosta ou não. Acho natural haver críticas. Sempre existiram mudanças em tramas e, dependendo dos grupos de discussão, personagens podem ser mudados.

Consuelo é vaidosíssima. E a senhora?
Não me maquio fora da TV e me visto com discrição. Agora, sou higiênica: estou sempre perfumada, tomo alguns banhos durante o dia e gosto de ter o meu cabelo bem retocado. Só fico confortável se estiver absolutamente limpinha (risos).

 E como se cuida?
Dizem que mulher não fica velha, fica cara. Faço exercícios porque água parada apodrece. Já fiz muita dieta, mas não mais. Como pequenas porções, nada radical, adoro café da manhã. Toda vez que fiz dieta, tive respostas imediatas, inclusive depois dos filhos, porque fui mãe muito jovem.

Foi difícil?
 Tive a sorte de dar certo, eles são ótimas pessoas. Mas ser mãe dos 16 para os 17 anos não é o ideal. O maior compromisso que você assume na vida é a maternidade, e nessa idade você está descobrindo a vida. Mas não lamento nada. É a minha história e isso foi vivido com sustos e surpresas, mas chegamos aqui e chegamos bem.

  Ser mãe nova atrapalhou a carreira?
Não, mas eu comecei cedo e isso impôs grandes sacrifícios à minha vida com meus filhos. Ficava fora muitas horas, tive que viajar com espetáculo, me sentia culpada, chorava. Passei por todas essas agruras.

 Mudaria algo?
Não mudaria nada. Só sinto falta de não ter muito um espírito empreendedor, de produzir. Não tenho essa combinação do talento para o ofício e para o administrativo. É o que lamento quando olho para trás. Teria mais autonomia e não ficaria dependendo de ninguém.
 A senhora é uma mulher transgressora?
Nunca me senti assim, mas vivi histórias que podem ter surpreendido e chocado as pessoas. A esta altura da vida, não tenho resistência para ver o meu nome mal colocado. Mas, quando eu era mais nova, se algo me fazia feliz, eu ia em frente, o que pode ter gerado críticas. Nesse sentido, sim, fui transgressora. Ou corajosa para viver...

  Você tem fé?
Admiro muito o budismo, li cabala, já frequentei candomblé e umbanda, mas meu encontro religioso é na Igreja Católica. A fé ajuda a enfrentar os desafios. Eu não conseguiria resistir às dificuldades se não tivesse fé. E minha vida passou por uma grande mudança, né?

De que forma?
Meu núcleo familiar acabou, aquele que convivia comigo, que era minha mãe e meus cachorros. Sou filha única, estou órfã. Esse ciclo da minha vida se fechou (emocionada). Estou enlutada. Há um vazio na minha alma. Mas o trabalho tem me ajudado e o carinho do público vem recompondo meu coração. Vou ficar bem. Estou disposta para a vida. Como diz uma amiga: “Adelante, Arlete”.

De onde vem essa força?
Você supera e vence os seus desafios. Nesses dois anos, eles foram presentes na minha vida com uma frequência cruel. Mas já passaram e um novo ciclo deve vir cheio de possibilidades. A vida me deve um certo afago.

Um novo amor?
Um novo amor é sempre lindo. Só não me imagino casada e morando junto. Será que eu teria paciência? Se eu não gostar do beijo na boca, não adianta vir cheio de vantagem (gargalhadas).

 A senhora já namorou homens novos...
 Bem mais novos. Geralmente, quando os homens estão bem mais velhos, gostam das mais jovens. Então, as mulheres de meia-idade ficam sem opção. Aparece alguém bem mais jovem, cheio de carinho, querendo namorar, e você não quer por causa do documento de identidade da pessoa? Eu não me incomodo com isso! Com um velhinho fique certa de que não será.  Eu faria só uma concessão, mas ele já está casado: Fernando Henrique Cardoso (gargalhadas). Que fique claro: não estou preocupada com isso. Mas a vida é um hóspede inesperado. Se ela me fizer uma bonita surpresa nesse campo, por que não?

FONTE/QUEM

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