quinta-feira, 20 de agosto de 2015

 Regina Casé:
“Meu filho Roque é minha plástica”
Apresentadora fala das mudanças que seu filho lhe trouxe e atribui a ele o fato de ter chegado aos 61 anos sem necessidade de cirurgias estéticas

Por Carolina Farias
Na cobertura e na laje. Regina Casé se esbalda nesses dois ambientes, como diz a música de Arlindo Cruz que abre o Esquenta!, programa das tardes de domingo na TV Globo. 
“Adoro lugar que tem mistura”, diz a apresentadora de 61 anos, mãe de Benedita, de 25, e que há dois anos, junto com o marido, o diretor Estevão Ciavatta, de 47, adotou Roque ainda bebê.
 “É demais uma mulher de 59 anos virar uma mãezinha jovem”, declara Regina, que no início do ano recebeu um troféu especial do Sundance Festival – premiação americana de cinema dedicada a produções independentes –, pela sua atuação como uma empregada doméstica em Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. 
“No filme estou muito diferente. Parece que tenho 1,50 metro, sem pescoço, mas não caricata”, conta ela, que confessa ter medo de plástica, mas não da idade, já que para sua felicidade aparenta ser mais jovem.
 “Sou quase um mico-leão-dourado. Vou a uma festa com quatro gerações abaixo de mim e todas as mulheres já fizeram plástica, menos eu”, compara a apresentadora, aos risos.
Esquenta!
“Quando estreamos, era para durar três meses. Mas curtiram tanto que a TV Globo já propôs de, no primeiro ano, continuarmos direto. No início era estranho vir para um estúdio, pois trabalhamos a vida inteira na rua, somos do lado de fora, da viagem, como
no Brasil Legal (1995/1997) e na Central da Periferia (2006). Aos poucos fomos aprendendo. São 26 anos trabalhando juntos, eu e minha equipe.”

Mistura
“O funk, o samba e o pagode não vêm da academia nem dos grandes salões. Vêm das periferias das grandes cidades. Mas o Esquenta! tem de tudo. Traz a Orquestra Sinfônica Brasileira, o Caetano Veloso, a Bethânia, que não vai a programa nenhum mas já esteve com a gente. Levamos sociólogos, políticos de todos os partidos, patricinhas. Há um número grande de negros, de gente pobre, que mora na periferia. As pessoas não estão acostumadas a ver tanta gente que normalmente não aparece na TV dançando, cantando, se expressando.” 

Pejorativo
“Quando conheço alguém não penso quanto ganha, onde mora, qual a cor da pele. Se tivermos coisas em comum, vou querer saber aonde é o pagode que essa pessoa vai. Gosto de gente que sabe se divertir. Quando eu era pequena diziam: ‘Não vou à praia sábado e domingo, porque tem muita mistura’. Era pejorativo. Adoro lugar que tem mistura. Isso não significa que eu só goste de ir à favela. Gosto de lugares chiquérrimos. Fui criada em uma família de classe média baixa e, quando vou a um lugar bacana, fico tão impressionada quanto alguém da favela.”

Críticas
“Essa temporada é sobre a força que vem do interior do Brasil. Para chegar ao nível dos sertanejos, mudamos o cenário. Postei uma foto em uma rede social: ‘Gostaram do cenário novo?’. Um comentário dizia: ‘Gourmetizaram o Esquenta!’. Chorei de rir, adorei. Crítica com humor é ótima, além daquela que chama atenção para algo negligenciado.”

Premiação
“O festival não tinha prêmio para atriz. Basicamente são prêmios de roteiro e direção. Criaram a categoria tamanho foi o impacto de nossa atuação (ela dividiu o prêmio com Camila Márdila, do mesmo longa). No filme estou bem diferente. Parece que tenho 1,50 metro, sem pescoço, mas não caricata. Para uma atriz é um elogio, mas como mulher eu deveria ganhar outro prêmio pela coragem de me despir de tanta coisa. Era um uniforme de empregada tamanho 48, várias camisetas por baixo, a cara derrubada, suada, o cabelo estranho. Mas valeu a pena.”
Casamento
“Para você se lembrar por que está com aquela pessoa, o casamento tem que ser sempre reinventado. Já achei que minha união com o Estevão só era possível porque trabalhávamos juntos na TV Globo e no Pé de Quê (programa do canal Futura), mas teve uma hora em que nos afastamos, porque ele foi para a HBO. Pensei: ‘Será que vai dar certo?’. Mas inventamos um outro jeito. Se a gente mantiver tudo igualzinho ao primeiro ano, se dá mal.”

Adoção
“Quando me casei, tinha 43 anos. Cheguei a engravidar, mas não conseguimos ter filhos. Ele era louco para ser pai e eu tinha vontade de adotar independentemente de ter a Benedita (de seu casamento com artista plástico Luiz Zerbini), mas tudo parecia impossível. Foram várias tentativas, tanto de gravidez quanto de adoção. Outras pessoas na nossa idade, com o tanto que a gente viaja e trabalha, diriam: ‘Não dá, vamos pensar em ser avós’. Mas tivemos coragem. Ninguém é mãe aos 59 anos!”

Plásticas
“Nunca tive coragem de fazer plástica, tenho medo. Sou quase um mico-leão-dourado. Vou a uma festa com quatro gerações abaixo de mim e todas as mulheres já fizeram plástica, menos eu. Meu filho Roque é minha plástica. É demais uma mulher de 59 anos virar uma mãezinha jovem. Na sala dele, na escolinha, há mães de coleguinhas que estudaram com minha filha.”

Tempo
“Envelhecer é parar de se exigir, de se impor limites e achar que não pode mais. Tenho medo de adoecer, mas não de envelhecer, porque minha vida está tão mais legal! O trabalho, a qualidade de amor, a relação com as pessoas... De tudo eu gosto mais.”

Desigualdade
“Minha filha está namorando há sete anos o (fotógrafo) João Pedro, de 24 anos, que é negro. Sempre tive muitos amigos negros e, claro, percebia situações de preconceito. João mora com a gente e me preparou a percepção para o Roque. Na escola e nos aniversários todos são brancos. Lembro a cada dez segundos como a sociedade é injusta, não deu oportunidade nem política, nem econômica, nem de educação para que todos fossem iguais. Isso me preocupa.”

FONTE/QUEM

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