terça-feira, 11 de agosto de 2015

Cininha de Paula, diretora de ‘Pé na Cova’:
‘O suburbano por si só é feliz’
Por Leo Dias
Pouca gente sabe, mas Cininha de Paula, diretora de ‘Pé na Cova’, é formada em Medicina. Por amor à arte, ela trocou o hospital pelos estúdios de TV. 
Apesar de sua baixa estatura, 1,50 m, ela conta que tem fama de brava na Globo por sua voz grave, mas garante que é querida por todos. 
Apaixonada por seu ofício, ela define o sucesso do seriado que estreia em setembro. “O nosso Brasil hoje é ‘Pé na Cova’”, diz.
‘Pé na Cova’ tem uma abordagem menos fantasiosa sobre a vida humana. 
No início parece que o telespectador não entendeu muito bem o tipo de humor, mas depois caiu nas graças do público. 
O que te levou a pegar essa direção e o que espera da próxima temporada em setembro?
Primeiro partiu de um convite do Miguel Falabella e sempre que tem algo novo diferente pra conceituar, é bastante desafiador pra mim. 
Peguei o projeto desde o embrião, desde o que passa na cabeça do Miguel e entendi como ele queria estruturar isso tudo. 
Trouxe um formato e uma visão nova do humor. Acho interessante. Não é só um programa de humor, é uma crônica do cotidiano brasileiro. 
Ele é muito do que o Miguel escrevia no jornal sobre o subúrbio e suas vantagens e desvantagens.Ele trás uma visão crítica, sem ser partidária, do Brasil.

Com a patrulha do politicamente correto, surgiram muitas críticas?
Muito pelo contrário. Tudo o que foi criticado, que havia um certo medo da TV Globo de colocar no ar e causar espanto, foi o que mais agradou. Nunca tivemos que modificar nada nem abrir mão de nada. Muito pelo contrário. A gente não só teve uma aceitação de mídia de imediata, como aceitação do público, que vislumbrou que não estávamos falando somente da morte e sim da miséria humana. E miséria humana é o que nos acompanha, o que temos medo a todo instante. Desempregados, como viveremos? Nossos filhos? nossos netos? Essa visão da própria estrutura do país, do microcosmos do Irajá, fez com que houvesse um agrado grande. ‘Pé na Cova’ é um programa família. Não é uma família normal, mas é uma família que a gente tem hoje em dia. Amor que a família sobrepõe a tudo, sem criticar.

O sucesso se deve ao amor que a família, mesmo fora dos padrões, tem?
Gente que se gosta, que ama e se cuida. Se salva. Não é sobre a família em si, são os vizinhos e quem está junto. Representa um pedaço do Brasil como um todo. Não é só um subúrbio carioca. É uma realidade brasileira, um nordeste ou qualquer lugar que tenha pobreza, dificuldade, desemprego. E o Irajá representa isso. O nosso Brasil hoje é ‘Pé na Cova’. O suburbano por si só ele é feliz. Ele aceita o convívio com todas as dificuldades que o subúrbio tem, até da própria violência. Minha mãe dizia que Miguel Falabella tinha capacidade de vislumbrar o futuro. Quando ele fez ‘Toma lá Dá Cá’ fez um codomínio na Barra invadido pela favela. E já vimos isso acontecer. Não que os pobres iriam descer para destruir os dos ricos, não, eles vão descer pois não têm onde ficar e como viver. Mas tudo isso é feito de uma maneira bem humorada.

Se o suburbano é feliz, então dinheiro não trás felicidade?
Não acho que é isso. A nossa realidade é tão dura, que se a gente não encontrar a felicidade dentro dela, a gente morre. É uma forma que encontramos de buscar um universo capaz de sobreviver ali.

Tem muitos projetos? Desafios?
Não sou macaca velha. O aprendizado faz com que a gente se renove. Tenho o sonho de fazer um longa metragem,muita vontade de dirigir um grande musical e na TV tudo que o Miguel escreve é desafiador, gostaria de continuar sendo a parceira dele, se ele ainda me quiser.

Sobrinha de Chico Anysio e pai médico. Você acabou se formando em medicina. Conte essa história?
Meu pai era médico, talvez houve uma influência natural. Ele era muito capaz, um grande inovador dentro do trabalho dele. Era dono da clínica Sorocaba e cresci vendo a medicina e as dificuldades todas. Meu pai sempre acreditou no jovem, ele nunca parou no tempo. Tinha uma admiração enorme por ele, fui fazer por livre espontânea vontade. Sou formada pela Unirio. Deixei a medicina por livre espontânea vontade aos 27 anos.

E quando decidiu seguir os passos da outra parte da família?
Quando eu tinha 11 anos. Fazia tablado com 13, fiz vestibular de medicina depois e continuei fazendo teatro. Só fui parar quando eu vi que não dava mais. Me formei jovem. Entrei na faculdade com 16 pra 17 anos e fui alfabetizada muito cedo. Como eu já lia com 4 anos em casa, minha mãe pediu para a freira do colégio pra eu ser alfabetizada. Aos 23 anos já era médica, aos 27 engravidei da Maria Antônia. Sempre gostei da medicina. Eu já era uma atriz conhecida e tinha que escolher, trabalhar no pronto atendimento e ao mesmo tempo atuar, não tinha como. Aí eu abandonei a medicina. Ela foi me abandonando, mas na verdade eu nunca a abandonei. Guardo meu CRM e posso dar qualquer tipo de receita, me informo e procuro me atualizar.

Se arrepende?
Quando a minha irmã saiu da Clínica Sorocaba e vendeu a parte dela para abrir uma clínica psiquiátrica Clif de dependência química, no fundo no fundo fiquei com arrependimento de não ter pelo menos segurado a onda na parte administrativa da Sorocaba. Meu pai gostava muito e tinha muito prazer.

Você teria uma vida melhor como médica?
Não sei. O meu ritmo de trabalho na arte é tão doloroso, desgastante e estressante como na medicina. Apenas não estou lidando diretamente com a vida e morte.

Seu temperamento forte faz de você mais crítica e decidida ou enxerga mais como uma característica que deva ser controlada?
Todo temperamento deve ser controlado. Tanto o fragilidade quanto a fortaleza excessiva. A gente tem que aprender a viver em sociedade, não importa a profissão que tem. Não importa se é diretor, se é submissa, todo temperamento tem que ser administrado. No meu temperamento forte a maior exigência é comigo mesma. Como diretora procuro ser a mais delicada possível com o elenco, tanto que eles normalmente gostam de mim, apesar do meu espírito de liderança. Às vezes as pessoas confundem um pouco. Se eu dou um grito num sete as vezes é pra silenciar, fornecer para o ator e para a equipe técnica mais conforto. Do mesmo jeito que cobro muito, cuido muito, defendo muito. Como uma mãe que tem um lado afável e que cobra.Sou a mãe e o pai, resumindo.

Recebemos muitas denúncias de pessoas reclamando de maus tratos de diretores com elenco. Por que isso acontece?
É uma profissão difícil, mas tem vários motivos que levam um diretor perder a paciência. Existe o ator desinteressado, o ator que não faz o dever de casa dele e isso torna a coisa mais difícil. Também existe o diretor inseguro, que coloca na agressividade a insegurança dele. Acho que devo ter sido muito mais insegura antigamente do que hoje em dia. Tenho fama de braba. Tenho voz grave, falo alto. Uma vez a Isabelle Drumond perguntou pra mim: ‘Por que você fala tão alto?’. Ela era criança, estava no ‘Sítio do Picapau Amarelo’ ainda. E eu respondi: “Porque tenho 1,50 metro e eu sou pequena, as pessoas todas estão acima de mim na altura e tenho que me fazer ouvir e entender. Acho que só você está abaixo de mim…. (risos). A maturidade dá a gente uma noção mais universalista, passa a compreender o ser humano com suas dificuldades. Segundo Chico Anysio “A idade só nos dá de bom o conhecimento e paciência”. O resto, a bunda cai o peito cai…

Mas você tem muita disposição, certo?
Graças a Deus não sinto muita dor não. Talvez a juventude dos meus alunos que me dê disposição. Sou muito disposta, às vezes levo o povo a loucura. Eles dizem: “Ela não cansa não? “. Até marquei hoje um check-up. Na real, casa de ferreiro espeto é de pau, como me auto medico muito, acabo não indo, quando eu vou meus colegas acreditam que não estou la a toa. Mas eu não medico ninguém não. Fiz dois juramentos: o do ator e o do médico com propriedade.

E o projeto de voltar com a ‘Escolinha do Professor Raimundo’?
Isso é mole de segurar. É uma coisa tão conceituada e pronta que se fizer diferente estraga. É mais organizar do que dirigir, escolher elenco certo, escolher pessoas certas, figurino bonito, fazer uma bela homenagem e não tentar fazer um clone. Gravamos em outubro com estreia ainda esse ano.

Quando assiste a sua filha na TV ( a atriz Maria Maya), você é muito crítica ou é apenas mãe?
A Cininha mãe e a avó é outra história. Cobrei muito dos meus filhos, limites e organização é muito importante. A criança que não tem limites, não é amada. Então eles foram criados de uma maneira burguesa careta de organização, ensino. Tanto que todos são formados. Minha filha produz as peças dela, meu filho Enrico também faz efeitos visuais, um dos melhores produtores de efeitos da Globo. Isso tudo é resultado da educação que eu quis que fosse a melhor que eu poderia dar. Ficaram de castigo, apanharam quando necessário. Não fui de bater muito, mas apanharam quando necessário, ficaram de castigo quando necessário. Acho isso muito importante. Ao mesmo tempo sempre fui muito amorosa e afetuosa. Meus filhos moraram comigo a vida inteira, apesar de terem pais muito amorosos. O Alfredo médico, sensível e bom pai e o Wolf Maya a mesma coisa, sempre foi presente. Acarinhou meu filho como um pai. Sou profunda amiga dos meus ex-maridos, pais dos meus filhos. Eles são também a minha segurança.

É menos exigente com a Alice, sua neta filha do Enrico?
Alice tem 1 ano e 3 meses e ela foi uma luz que chegou de repente. O bom de ser avó é que a gente já é pai e mãe. Já foi, já acertou, já errou, já cometeu injustiças, coisas maravilhosas, então pra nós é muito mais simples. É mais leve, mas não deseduco não. Continuo sendo educadora. Existe limites na minha casa. A criança precisa de amor e está ligada ao limite, afago, afeto e coerência. Sempre fui uma criança que cuidei e criança, cresci junto com eles, apanhei junto com eles (da vida) era uma coisa meio que natural. Agora consigo enxergar as coisas com mais facilidade. A Alice trouxe a minha criança de volta.

O que faz nos momentos de folga?
Estou com a Alice, meus filhos e meus amigos. Não sou festeira, gosto de receber em casa.

Está namorando?
Não. Vou dizer uma coisa pra você, um homem para me entender tem que entender o meu amor pelo meu trabalho e minha família. Às vezes não é tão fácil, o homem é criança, quer atenção, tem DDA (Transtorno de Déficit de Atenção) e é natural que queira, eu entendo. Mas eu normalmente vivo pra família, trabalho e meus amigos. Gosto de gente, gosto de conviver. Claro que é bom ter companheiro pra estar contigo na velhice, sem que seja alguém pra me colocar no sol e me tirar do sol. Muito mais alguém pra dividir.

FONTE/ODIA

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