sábado, 15 de agosto de 2015

Emicida exalta a cultura negra em disco com mensagem acessível e extremamente relevante
Por Luciana Rabassallo
No mês de março, Emicida embarcou em uma aventura africana para desbravar as quebradas de Angola e Cabo Verde. 
O intuito era fazer o caminho contrário ao percorrido pelos escravos trazidos à força ao Brasil Colônia.
 O resultado pode ser ouvido nas 14 faixas de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, segundo disco de estúdio do rapper paulistano, que chega às plataformas digitais.
Emicida expõe a luta de classes e o preconceito racial no impactante clipe de “Boa Esperança”.
Graças à Black Messiah, de D’Angelo, e a To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, 2015 será lembrado como o ano em que a política negra e a música negra ressurgiram para se unir ao pop mainstream. 
No Brasil, os Racionais MC's divulgaram Cores & Valores no finalzinho de 2014, registro que discute com profundidade o peso que a posição social, o sobrenome, o dinheiro e a cor da pele têm nas estruturas sociais do país. 
Agora é a vez de Emicida retratar o preconceito racial velado e cruel, típico do Brasil, além de exaltar a cultura negra em um registro totalmente dedicado ao tema.
Você ainda não entendeu a mensagem de Cores & Valores? A detenção de Mano Brown é o exemplo perfeito.
Durante a presença na África, o músico colheu experiências sonoras que transformou em faixas como “Mufete”, gravada no estúdio angolano Letras e Sons. 
Os versos citam Rangel, Viana, Golfo e Cazenga, locais por onde passou, e a melodia é ritmada pelo baixo marcante de Mayó Bass.
 Em “Casa”, o Emicida tenta fazer com que os negros tirados à revelia da terra na qual nasceram se sintam à vontade no local em que vivem – seja no Jardim Fontalis, bairro da zona norte de São Paulo onde ele cresceu, seja em Kilamba Kiaxi, periferia de Luanda. 
Um coro infantil formado pelos alunos da escola Penta Grana contrasta com os beats mais pesados do disco.
Como Kendrick Lamar conseguiu superar momentos sombrios e inseguranças para se tornar o nome mais elogiado do hip-hop.
O triste interlúdio “Sodade”, no qual a líder das Batucadeiras do Terreiro dos Órgãos, Neusa Semedo, lamenta a saudade de casa em crioulo cabo-verdiano, segunda língua mais falada no país, é floreado pela percussão que reproduz o som da água do mar batendo no casco de um navio. 
O single “Boa Esperança”, por sua vez, debate o racismo velado e a intolerância religiosa no Brasil através de rimas como “Favela ainda é senzala, jão/ Bomba-relógio prestes a estourar”. 
Os beats fortes e diretos do produtor Nave casam perfeitamente com o tom desafiador da faixa.
"Eu sou de esquerda na política e no candomblé", afirma o rapper Thaíde.
O formato narrado da elogiada parceria com a atriz e poetisa Elisa Lucinda, que permeou O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), disco de estreia de Emicida, se repete em “Trabalhadores do Brasil”, desta vez com texto e voz do pernambucano Marcelino Freire. 
Ainda há outras duas pontes de ligação com o já citado registro. Estela, filha de Emicida, é novamente lembrada em “Amora”, enquanto dona Jacira, mãe do rapper, que anteriormente contou os detalhes sobre a morte do marido, agora descreve o nascimento de Leandro Roque de Oliveira na emocionante “Mãe”.
Cultura de Rua elege as 15 grandes canções do hip-hop em 2014.
Também há espaço para canções que se aproximam do pop, como “Baiana”, uma balada que tem participação de Caetano Veloso, “Madagascar”, que traz um romance embalado pelo céu azul e pelo mar verde do país insular, e “Passarinhos”, uma parceria com Vanessa da Mata.
Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa é, sobretudo, um disco pop, mas, nem por isso, abandona a mais importante premissa do hip-hop: contestação. O registro traz, embalados em uma roupagem sonora de fácil digestão, temas pouco discutidos no Brasil – como, por exemplo, a escravidão e o ranço que esse período tenebroso deixou nas relações sociais do país. 
O racismo velado que assola a população a população negra, os preconceitos enfrentados pelos praticantes de religiões afro-brasileiras e as dificuldades enfrentadas diariamente pelos trabalhadores brasileiros.
A turnê do disco terá início nos dias 21, 22 e 23 de agosto, com shows no SESC Pinheiros, em São Paulo. Informações sobre participações especiais, preços e vendas de ingressos serão divulgadas em breve.

FONTE/ROLLINGSTONE

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