sábado, 15 de agosto de 2015

Leilane Neubarth:
“O que um jornalista tem de mais precioso é a credibilidade”
Por Leandro Lel Lima
Dona de um estilo único e com uma presença marcante no vídeo, Leilane Neubarth comemora 36 anos de carreira. 
Apresentou o “Jornal da Globo” nos anos finais da Ditadura; durante sete anos esteve à frente do “Bom Dia Brasil”; fez reportagens especiais para o “Globo Repórter” e “Fantástico”, como o tratamento recebido por crianças e adolescentes, principais vítimas do acidente em Chernobyl, na Ucrânia. 
Em 2009, participou e conquistou a 3ª colocação no Rali Dakar realizado no deserto do Saara, na África. Atualmente, comanda o jornal “Edição das 18h” pelo canal GloboNews.
 Com uma carreira trilhada exclusivamente na frente das câmeras, Leilane se destaca como uma das principais âncoras do telejornalismo que teve que aprender tudo na prática sem ter o direito de errar devido às questões técnicas da época. Coleciona passagens pelo Grupo Globo e a extinta TV Manchete.
Em entrevista exclusiva ao RD1, Leilane relembra os momentos mais marcantes da sua carreira, coberturas especiais, curiosidades sobre seu estilo à frente do “Jornal da Globo” – por imposição da direção da Globo as jornalistas tinham que alisar os cabelos, mas com Leilane foi diferente, ela pôde assumir os cachos e comandar o jornal – , as mudanças que o jornalismo enfrenta com a chegada das redes sociais e do sucesso que o “Edição das 18h” tem conquistado junto ao público e crítica.
 “Outro dia atingimos a incrível marca de estar em terceiro lugar entre todos os programas dos 280 canais de TV por assinatura”, ressalta a profissional, que não pensa em deixar o jornalismo e migrar para o entretenimento.
São 36 anos de carreira, sendo um ano na Manchete e os demais na TV Globo/Globo News. A sua história é marcada pela inquietação? Outra palavra também ajuda a definir a sua história?
Tenho o privilégio de pertencer à uma geração que se formou em televisão. Comecei a trabalhar ainda na faculdade e costumava ouvir que um “bom jornalista” deveria, necessariamente, começar no jornal impresso. Demorei a perceber que isso era dito exatamente por quem trilhou esse caminho. Meu pai era jornalista, e claro, também começou pelo impresso. Naquela época, a televisão costumava ser vista como um jornalismo menor, porque se escreve menos. Até que um professor me mostrou que existe arte em escrever pouco, de forma sucinta. São linguagens diferentes – jornal e TV – e eu queria trabalhar e passar a notícia para muitas pessoas. Naquela época, muitos não tinham geladeira, mas tinham TV. E muitos eram analfabetos. Logo, acreditei que a melhor maneira de levar a informação aos brasileiros seria pelo jornalismo de televisão, que exige clareza, simplicidade e concisão. A inquietação e a responsabilidade de levar essa informação da melhor maneira possível marcaram minha vida profissional desde o início, e são minha verdadeira motivação até hoje.

Em algum momento se sentiu culpada por ter que se dividir entre o trabalho e a maternidade? Afinal, os anos 70/80 foram fundamentais para mudanças no comportamento da mulher como a inserção no mercado de trabalho. O jornalismo contava, em sua maioria, com homens…
Como a maioria das mulheres da minha geração, passei a vida me culpando por essa divisão. Me senti muitas vezes “devendo” ao trabalho ou “devendo” à família. Para minha sorte, casei com um jornalista que me ajudou muito. E hoje quando vejo meu filho mais velho trabalhando, cuidando com todo amor do filho dele e da família, e meu outro filho, recém-casado, que é vídeo maker, e também cuida da mulher e da casa, me pergunto: “onde foi que eu acertei?” (risos). Dar amor é mais importante que se preocupar em quantas horas você ficou com seus filhos. Procuro fazer tudo da forma mais verdadeira e acredito que essa é a melhor maneira de viver.

Em algum momento precisou se impor, por ser mulher, principalmente nas reportagens que fazia pelo Brasil e pelo mundo?
Acho que não. Já encontrei o caminho aberto pelas tantas jornalistas que vieram antes de mim. Agora, não sejamos hipócritas: um pouco de machismo existe até hoje e é preciso estar sempre de olhos e coração abertos para responder a eles com bom humor, doçura e firmeza.

O jornalismo tem passado por mudanças profundas desde a formação dos novos profissionais, desvalorização da profissão, enxugamento de muitas redações, mas a procura em prestar serviço à sociedade cresce cada vez mais. Que conselhos daria a um jornalista recém-formado?
Antes de mais nada é preciso entender que a estrela é sempre a notícia. Mas é importante fazer de tudo, aprender tudo e só depois escolher o que você prefere. Ler é fundamental! Ler, ler, ler… E quando acabar, ler mais alguma coisa.

Como analisa as mudanças que a profissão enfrenta?
Fico encantada em ver como a profissão vem mudando. Comecei na ditadura. Qualquer informação já era um privilégio. Hoje são tantas mídias, tantas plataformas, tanta liberdade, tantas tecnologias… É tão bom ver o país assim. A única coisa que não mudou é a responsabilidade na informação, passar uma informação a alguém é um ato de muita responsabilidade.

É preciso ser “multiplataforma” para “sobreviver” na área?
 Sim, cada vez mais. E quanto mais você estiver aberto, pronto a experimentar, conhecer e testar novas mídias, melhor.

Tem vontade de migrar para o entretenimento também?
Não, sou um “bicho jornalístico”. Adoro a notícia, gosto exatamente do que faço.

Quando você iniciou a carreira não podia se dar ao “privilégio de errar”, devido a questões técnicas da época, e hoje um erro bobo e comum toma grandes proporções por causa das redes sociais. Também é possível aprender com o erro?
Comecei a trabalhar com filme, então não podia errar. Saía com 100 pés de filme e tinha que voltar com a matéria pronta. Quando veio o VT e podíamos voltar a fita e gravar de novo, eu já estava viciada e treinada a fazer de primeira. Adoro o ao vivo. Errou, corrige. Acho mais espontâneo. Só não pode errar na informação. O que um jornalista tem de mais precioso é a credibilidade. Se perder isso, aí sim fica muito difícil seguir em frente.

Como é a sua relação com as redes sociais e críticas?
 Tenho Twitter para uso exclusivamente profissional, para falar sobre o ‘Edição das 18h’ da GloboNews. Lido bem com as críticas, mas não aceito grosseria. Gosto de responder a quem se comunica comigo, seja para criticar ou elogiar, mas bloqueio sem remorso os mal educados. É muito importante saber diferenciar uma pessoa que está opinando ou criticando daqueles que se escondem em perfis falsos, sem nome ou foto, com o único intuito de agredir. Esse tipo de atitude ou covardia não me atinge.

A internet facilitou a apuração dos fatos, mas qual o maior risco de não se buscar outras fontes?
A internet é como uma sereia, de voz linda, cantando em nossos ouvidos. Uma ferramenta tentadora, importante, fácil de usar, mas perigosa. Precisa confiar desconfiando. Verificar, checar as informações e não acreditar em tudo. No ‘Edição das 18h’ da GloboNews eu e minha equipe não colocamos nada no ar sem verificar com duas ou três fontes, pelo menos.

Reportagem ou cobertura mais marcante?
Sem dúvida foi o Rally Paris-Dakar. Até hoje as pessoas me param na rua e comentam. Vou ser para sempre, ou sabe lá por quanto tempo, a única brasileira a ter competido no Rally mais perigoso do planeta, até porque ele nem acontece mais na África. (risos)

Qual notícia gostaria de dar?
Adoraria poder noticiar que o Brasil se orgulha da educação que dá aos seus cidadãos. Em todos os níveis. Que temos, enfim, um povo educado, consciente dos seus direitos e deveres, que respeita regras, leis e que nos respeitamos uns aos outros, com nossas diferenças. Estou convencida que a educação é a base de tudo.

Em 1991, você foi a Cuba cobrir a chegada, o tratamento e a despedida das vítimas, em sua maioria crianças e adolescentes, do acidente de Chernobyl – que aconteceu na Ucrânia em 1986 -, conta pra gente como a Leilane mãe e mulher lidou com tanta dor e sofrimento?
Que bom você ter lembrado dessa matéria. Entre as milhares que eu fiz, essa é, sem dúvida, uma das minhas preferidas. Lembro com clareza até hoje a emoção de ter convivido com aquelas pessoas. Crianças doentes, mães sofridas, médicos dedicados, enfermeiras amorosas… A alegria de meninos e meninas que só conheciam o frio da Ucrânia em contato com o calor e as cores de Cuba, a troca de emoções, mais do que sofrimento, era tudo de uma profunda delicadeza. Muito amoroso.

A edição primorosa do material também ficou por sua conta?
Essa matéria foi feita para o ‘Fantástico’ e o editor era o meu amigo e excepcional jornalista Geneton Moraes Netto. Além de ser um dos profissionais que eu mais admiro, Geneton é um homem profundamente sensível. Foi um prazer editar com ele. E o resultado está lá, nos arquivos: além de informativa, uma matéria realmente muito emocionante.

Quando revê a reportagem o que passa pela sua cabeça?
 Não costumo ficar revendo o que eu fiz, mas quando acontece de uma reportagem antiga cair nas minhas mãos ou voltar a ser exibida é muito bom. Sempre achei que uma das melhores coisas de ser jornalista é participar da história (do país ou do mundo) que está sendo escrita e que vai ser contada no futuro.

Em algum momento o seu lado “mais humano” interferiu nas reportagens?
Não vejo como é possível esse lado não interferir numa reportagem ou mesmo na apresentação de um jornal. Eu sou um ser humano. Sinto, sofro, vibro, me revolto, me emociono… É claro que isso permeia o meu trabalho.

Em 1983, você assumiu a bancada do “Jornal da Globo” e contava com a participação de Jô Soares e do cartunista Chico Caruso. Como era trabalhar ao lado de grandes profissionais em uma época em que a censura caminhava para o fim?
Sempre me senti muito honrada por ter tido a oportunidade de começar a trabalhar, conviver e aprender tanto com pessoas que eu admirava. Cresci profissionalmente vendo grandes profissionais ao meu lado. E agradeço profundamente à vida por essas oportunidades.

 O seu estilo sempre foi muito marcante no vídeo. Em depoimento ao site Memória Globo, você relembrou o fato de não ter que fazer mais escova quando ainda estava no “Jornal da Globo” – era uma exigência da direção da emissora alisar os cabelos – e passou a “assumir” os cachos. Já em outro depoimento, fala da responsabilidade e da dedicação de uma jornalista ao apresentar um telejornal - sobre o “Bom Dia Brasil”. A cobrança por parte do público e crítica visando a beleza é valida, ou a cobrança vem da Leilane mesmo?
Nunca me enquadrei num padrão tradicional de beleza. Sei perfeitamente que não trabalho em rádio e que a imagem é parte do meu trabalho. Respeito isso, mas não sou escrava de uma busca insana pela beleza. Tenho orgulho de estar envelhecendo no vídeo.

Gosta de moda a ponto de seguir as tendências, ou procura o seu próprio estilo?
 Acompanho o que os grandes estilistas criam e propõem, mas se acho que não combina comigo, não há possibilidade de eu vir a usar. Se vou a uma loja e a vendedora diz: “isso está super na moda, vendendo muito” é justamente o que eu não quero. Felizmente o grupo de figurinistas da Globo, especialmente a Ana Lúcia Quintaes, me conhece muito bem, sabe do que eu gosto, o que me favorece, e respeita isso.

Ao encerrar o ‘Bom dia Brasil’ você falava: “Aproveite bem o seu dia!”, e, agora no ‘Edição das 18h’, há momentos de pura informalidade, de conversa com o assinante. A proximidade com o público também é outra marca registrada, seja pelo sorriso, pelo olhar…
Só consigo fazer coisas em que acredito. Gosto de me jogar de cabeça, sem rede de proteção. Acredito que, como dizem os índios, a câmara capta um pouco a alma da gente. Como não sou atriz e não sei interpretar, procuro ser o mais verdadeira, o mais fiel possível aos meus sentimentos. No ‘Bom Dia Brasil’ desejava de verdade que todos aproveitassem bem o dia. Eu acordava às 4 da manhã (e foi assim por 7 anos) e acreditava que era fundamental aproveitar bem o dia. Aliás, acredito até hoje.

 O Edição das 18h fala de arte, previsão do tempo e economia com uma linguagem própria, sendo uma das atrações de maior audiência da TV paga. Como avalia o sucesso do jornal?
Outro dia atingimos a incrível marca de estar em terceiro lugar entre todos os programas dos 280 canais de TV por assinatura. Isso é um orgulho imenso. Tenho uma equipe linda, guerreira, dedicada, que fecha comigo. E diretores que me apoiam e me estimulam. Quando fui chamada para a GloboNews, me disseram que eu deveria fazer um jornal em que eu me sentisse à vontade, que tivesse a minha cara. Isso foi em outubro de 2009. A linguagem solta despretensiosa, intimista, sem desrespeitar a língua portuguesa ou cair na vulgaridade, que para mim também sempre foi fundamental, vem sendo cada vez mais a opção adotada por vários jornais. Por tudo isso tenho uma alegria imensa com meu trabalho. É uma exaustão fazer um jornal ao vivo de segunda a sexta, que tem de uma hora e meia a duas horas de duração, mas eu amo. Televisão é equipe e a minha é sensacional!

Como avalia a sua passagem pela TV Manchete?
Aprendi muito na Manchete, sobretudo o que acredito ser importante no jornalismo de televisão.

Passar pelos principais telejornais da Globo como apresentadora e repórter, migrar para a Manchete, voltar para a Globo, e depois de alguns anos ter um público específico na Globo News, faz de você uma profissional diferenciada do mercado?
Todos os profissionais são diferenciados. Cada um tem seu jeito, seu estilo, e tem público para todos os gostos. Acho que nos dias de hoje, em que você tem tantas opções de telejornais, o que faz a diferença é como cada um conta aquela história. Porque as notícias são as mesmas, mas cada um vai contar do seu modo. Eu procuro contar do meu jeito, falo do meu jeito, respiro do meu jeito, olho do meu jeito. As pessoas costumam se referir ao ‘Edição das 18h’ como “o jornal da Leilane” (risos). É claro que sem a equipe competente que eu tenho e uma emissora que me oferece todo o respaldo de tecnologia, correspondentes, comentaristas etc., eu não faria nada… Mas tem um pouquinho do meu DNA e muito do meu sangue ali, todos os dias. Pode ter certeza!

FONTE/RD1

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