quarta-feira, 27 de abril de 2016

 Perto dos 50 anos, Matheus Nachtergaele brinca:
 "Continuo sendo jovial, mas com cacoetes ótimos de velho" 
O ator encena peça com poemas de sua falecida mãe e, perto de completar 50 anos, diz que hoje é mais feliz acordando cedo e nadando todos os dias 

 Por Lígia Andrade
Granatieri Matheus Nachtergaele, 48 anos, senta-se para conversar com a CONTIGO! cantarolando o clássico Meu Caro Amigo, de Chico Buarque: 
“Também, sem um cigarro, ninguém segura esse rojão...” Logo ele se preocupa e deixa claro que não quer propagandear o hábito de fumar.
 “Faz mal à saúde, mas também não acho bonito o cerco fechado em relação ao tabagismo. 
As drogas ilícitas são as que fomentam um poder paralelo sem precedentes”, explica. 
E depois emenda: “É um fato: se você usar o ‘baseadinho’ mais inofensivo do mundo, acaba colaborando com o poder paralelo e com a violência.
 Nossa saída tem de ser com os lícitos, que aí cada um paga os seus impostos e vai escolhendo sua liberdade de usar ou não algo sabendo o que te causa”. 
O ator e diretor é assim: franco, direto e prega a liberdade acima de tudo. 
 Egresso do Teatro Vertigem, calçou sua carreira, tanto no teatro quanto no cinema e na TV, com personagens inesquecíveis e viscerais, como o João Grilo de O Auto da Compadecida (1999). 
Atualmente, homenageia a mãe, a poetisa Maria Cecília, falecida em 1968, ao recitar seus textos em Processo de Conscerto do Desejo, em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo. 
Cecília se suicidou quando ele tinha apenas 3 meses de vida. 
“Nunca me senti tão exposto como agora”, avalia Nachtergaele, que também vai estrear como apresentador na série Grandes Cenas, do canal Curta!. 
Com a proximidade dos 50 anos, o ator deixou para trás antigos hábitos, como a boemia. 
E, apesar de continuar sendo jovial, está com “cacoetes ótimos de velho”. 
Confira... Matheus e a cadela Luna. O ator tem mais de dez cães em sua casa
 ESFORÇO FÍSICO
 “Não sou sedentário, mas não sou esportista. Gosto de fazer exercícios para o teatro. Caminho muito em Minas Gerais (ele tem casa em Tiradentes) com os cachorros e nado na piscina da minha casa uma vez por dia.” 

 MATURAÇÃO TARDIA 
“Fui um adolescente tão fácil... Fiquei danado depois, mais velho, com 20 e poucos anos. Tenho um pouco de medo de quem nunca ‘desbunda’ – eles ficam eternos caretas. Minha maturação foi tardia. Não dei cabelo branco para o meu pai, aliás, a gente faz cabelo branco tarde (risos). Estou com quase 50 e ainda é bem pouquinho. Eu era mais introspectivo, gostava de livro, flor, cachorro, desenho, conversar com adultos... Muito rápido me interessei por filmes na TV, os clássicos. Fui me tornando ator nesse aparente autismo que estava vivendo.” 

 TABU NA FAMÍLIA
 “Tinha 16 anos quando soube a exata maneira como minha mãe morreu. Foi quando conheci os poemas. Ela se suicidou e isso é um tabu nas famílias, infelizmente. Apesar de tudo, é uma das formas de morrer. Antes, achava que ela tinha morrido no parto. Quem a representou foi Carmem. Meu pai, Jean Pierre, se casou com ela quando eu tinha 1 ano e meio.” 
 VÁRIAS MÃES 
“A Carmem me deu três irmãos — somos uma escadinha. Não tive uma interrupção brutal da vida familiar. Ela sempre fez questão de que eu soubesse que tinha uma mãe que estava no céu e se chamava Cecília. Antes, meu pai viveu o luto e eu vivi com minha avó, Denise. Tive bastante mães.” 

 COMPREENSÃO 
“Em alguns momentos, aceito, de maneira plena, calma; em outros, acho tudo muito triste. Mas sempre aprendo a cada dia, em todos os meus trabalhos, por isso sou ator: aprendo a liberdade de cada um. E meu ofício é mostrar a liberdade para as pessoas, através dos meus personagens.” 

 EM CENA 
“Fico conhecendo a minha mãe a cada dia, um pouco mais e, principalmente, me conhecendo mais ao fazer isso. É mais pessoal do que se eu tivesse escrito de próprio punho. Nunca me senti tão exposto como agora, mas de uma maneira saudável, gostosa. Às vezes, me perguntam como aguento... É a minha vida, são as falas da minha mãe. É revelador, uma cerimônia sem deuses, como é o bom teatro.” O ator tem uma intensa preparação no teatro antes de entrar em cena em Processo de Conscerto do Desejo 

BICHO SOLTO
 “Minha vida é composta por amigos; os amores eventuais, às vezes mais longos, às vezes não; e a família. Não sou um bicho totalmente solto no mundo, apesar de gostar de uma certa maneira da liberdade da solteirice. Não por causa da boemia, não estou mais boêmio, e não é a idade que bateu — estou menos resistente às farras —, fiz uma vida em que o trabalho é o protagonista. São 12 cachorros e duas casas (risos).”

 SAUDADES DA BOEMIA 
“Farreei bastante, não tenho nostalgia. Demorei para farrear, mas farreei. Nem sinto saudade. Eu me sinto mais feliz acordando cedo, voltando a fazer teatro, com projetos de cinema. Estou levando uma vida mais saudável.” 

 TIPO FÍSICO 
“Tenho um tipo físico interessante para ator, posso passar por 35 anos. Herdei o corpo miúdo da mamãe.” 

 CASAMENTO 
“Já fiz e desfiz. Quando penso em filhos, desisto, porque chega algum filme, um projeto na Amazônia... Minha vida é mais essa: nômade mesmo.” 

 SOLTEIRO PRENDADO 
“Sei cozinhar, mas não muito, vario na simplicidade da condição de homem solteiro. Sempre tem uma salada, salada de frutas e o resto, invento. Tenho tido desejo por sorvete e até abusado. Tudo bem, vou lá na peça e queimo.”

 CRISE 
“Os 40 foram tão duros que a chegada dos 50 é um alívio. Foi uma loucura! Mudou muita coisa, reavaliei tudo, cometi erros graves, como se fosse um moço, o que não era mais. Senti no meu corpo a idade e não gostei. Ninguém gosta, é o prenúncio de que aquilo realmente vai acontecer (risos). A aceitação de chegar perto dos 50 é uma delícia. Continuo sendo jovial, mas com cacoetes ótimos de velho.” 

 TRAJETÓRIA
 “Tenho muito orgulho de quase todos os trabalhos que fiz. Sempre escolhi projetos em que alguma coisa nova pudesse ser explorada. As pessoas perguntam: ‘Cadê você?’ Não dá para fazer tudo, não é a minha. Tive duas sondagens bacanas na TV, mas já estava comprometido com cinema (recentemente ele fez Big Jato, de Cláudio Assis, Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, e Zama, de Lucrecia Martel). Admiro demais esses cineastas, me deram muita alegria.”

FONTE/CONTIGO

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