sexta-feira, 29 de abril de 2016

 Antonio Fagundes: 
"Sento uma hora diariamente com quem vê 'Velho Chico'"
Por Valmir Moratelli 
 Eles são poderosos. Ainda que neguem tal nomenclatura, sabem da capacidade de agregar multidões em torno de seus trabalhos, em décadas de profissão. Christiane Torloni, de 59 anos, e Antonio Fagundes, de 66, se reencontram em Velho Chico, após um hiato de 22 anos – quando protagonizaram o remake de A Viagem (1994). 
Agora, ambos dão prosseguimento ao tórrido romance entre Iolanda e Afrânio, vivido na primeira fase da novela das 9 por Carol Castro e Rodrigo Santoro. 
Durante este ensaio fotográfico, eles trocam impressões:
 “Já estava com saudade de trabalhar com o Fafá (como ela se refere a Fagundes)”, diz ela; 
“É sempre uma delícia esse encontro com a Chris”, fala ele. 
 Em bate-papo com QUEM, Torloni e Fagundes refletem sobre a função que desempenham na sociedade, contam as polêmicas que já levantaram na carreira e comentam a vitalidade que os coloca entre os maiores atores da história da televisão brasileira.
 “Gosto dessa brincadeira de descansar de um veículo fazendo três personagens ao mesmo tempo”, conta Fagundes, avisando que pretende conciliar a novela com projetos de cinema e teatro. 
“É preciso uma boa conspiração, sem deixar a coisa perder a graça”, diz Torloni, sobre sua maneira de levar a vida. 
Ao término do ensaio, Fagundes avisa:
 “Preciso ir. Tenho uma mulher linda em casa me esperando”, afirma, orgulhoso da namorada, a atriz Alexandra Martins, de 37 anos. 
 Este ensaio remete a poder, que também é o mote de seus personagens em Velho Chico. Afinal, vocês são dois poderosos atores da TV brasileira... Qual é o poder de vocês?
 CHRISTIANE TORLONI: Eu não tenho poder nenhum. Sou apenas uma atriz, cidadã, que faz o dever de casa diariamente. 
ANTONIO FAGUNDES: Se a gente tivesse poder, muita coisa não estaria errada (risos). Tenho minha possibilidade de conversar com os outros. Sento uma hora diariamente com quem vê a novela, é uma troca de emoções com quem se envolve com a história. Possivelmente esse seja um poder. Ainda que não seja um poder tão modificador como o que a gente gostaria que fosse, não é? 
CT: Só temos poder quando se está junto. A única coisa que se faz sozinho é rezar. 

 Na visão de vocês, a fama traz poder?
AF: Não entro nessa, não. Quem entra nessa está atrás do falso poder. 
CT: Que poder? Não sei se o cara atrás de mim quer me assaltar ou tirar uma selfie. Tem o politicamente correto também. Se falo uma frase estranha, viro o mico do ano. O (diretor) Cacá Diegues fala muito da patrulha ideológica, que voltou de forma perigosíssima. As coisas precisam ser ditas, sim. Quando se é espontâneo, corre-se o risco de ter a cabeça num cesto. Como foi com o (bordão) “Hoje é dia de rock, bebê” (dito por ela durante uma entrevista para a TV em um camarote no Rock in Rio 2011). Que é isso? Dia de alegria... Podia ter virado algo pejorativo. A Amazônia está queimando e o povo fala disso? Então para mim hoje é dia de Velho Chico, bebê! 
 Velho Chico toca em uma série de temas importantes para a sociedade. Novela pode e deve educar? 
CT: Uma das bonitas propostas dessa novela é resgatar lendas emolduradas por imagens e poesias.
 AF: A telenovela brasileira na Venezuela é chamada de “telenovela de ruptura”, o que quer dizer novela de protesto. Isso porque abordamos problemas políticos, sociais, econômicos. Fala-se de reforma agrária, homossexualidade, luta de classes, dos excluídos... Isso não existe em nenhuma outra telenovela no mundo. 
CT: Velho Chico faz isso de maneira poética. Quando se faz um resgate cultural, já se está sendo educador. A trama começa mostrando a riqueza de peixes no rio. Passa-se o tempo e os peixes vão sumindo. Não é um técnico que aparece nas cenas para falar isso. É a poesia que vem assumindo a mensagem, entende? Primeiro vem ao coração, depois vai para a mente. É o caminho natural da arte. 
 Então assuntos polêmicos têm sua vez na teledramaturgia? 
AF: Olha, fiz Amor à Vida (2013). Falamos de homofobia em família, entre pai e filho. Tenho certeza de que o final dessa novela fez com que o sujeito que não é tão homofóbico conseguisse dar um abraço no filho. Falo isso porque amigos meus me ligaram para contar a repercussão daquele final impactante. Teve gente me agradecendo: “Obrigado, consegui falar com meu pai”; “Meu pai me ligou, a gente vai sair para almoçar amanhã”. Acho isso fabuloso! 
CT: Tive a oportunidade de contar a história de uma mulher que se relacionava com outra – isso em 1998. Foi um papel muito interessante em Torre de Babel. A pressão foi de tamanha ordem que a personagem foi explodida com o shopping. Naquele momento, a ideia nem era criar uma polêmica. Nessa novela que o Fagundes fez, Amor à Vida, o tempo passa e a mentalidade muda. Mas ainda assim chamo a atenção para a mentalidade da sociedade brasileira. É uma mentalidade ligada a uma coisa de mãe, mulher... O fenômeno masculino gay está conseguindo um avanço diferente do feminino. Ainda temos essa questão da mulher, da mãe, que mexe com valores arraigados na sociedade.
 AF: Mas se a gente consegue uma movimentação assim com esse problema, talvez consiga com outros. Qualquer discussão é válida. Sem esquecer que a base da novela é entretenimento, não pode ser chato. 

Vocês já fizeram vários papéis juntos. É uma parceria de muito sucesso. Que momentos mais marcaram um ao outro?
 CT: Fagundes tem uma carreira tão longa quanto de sucesso. Tive oportunidade de vê-lo em cena em tanta coisa que, talvez, pouca gente da atual geração tenha noção. Destaco a peça Muro de Arrimo, no final dos anos 70. Fafá construía um muro durante o espetáculo (a peça mostra um trabalhador da construção civil narrando o dia da fatídica partida em que a Seleção Brasileira é eliminada pela Holanda na Copa do Mundo de 1974). Era algo incrível! A gente ainda não havia começado a trabalhar junto. Eu tinha ficado assombrada. E não é sempre que eu fico assombrada por alguém no teatro. Foi genial, um momento em que pensei: “Vou acompanhar esse ator” (risos). 
AF: A gente fez muita coisa junto, né? Fizemos novela do Gilberto Braga (Louco Amor, em 1983); fizemos um filme divertido, o BesameMucho (1987), do Francisco Ramalho Júnior; e A Viagem (1994), que era um amor maravilhoso. Todos foram muito bons. É com prazer que voltamos a trabalhar juntos. É uma dupla que dá muito certo! É gostoso demais trabalhar com você, Chris! 
CT: A Viagem foi um encontro nosso. Fizemos o Besame Mucho, nossa... Delicioso. Filmaço!
 AF: Escolher um só é reducionista demais (risos). Assim como Velho Chico é um encontro lindo. Um reencontro, aliás. 

 Passa geração e vocês continuam símbolos sexuais, mantendo a boa forma, o jeito de galã/femme fatale. Entram nesses rótulos?
 CT: Olha... Vou te falar uma coisa (ela faz uma pausa)... Eu seria mais feliz se não tivesse tanta gente me olhando o tempo todo. É muito chato imaginar que tenho de ir à praia de burca (risos). As pessoas realmente te despem com o olhar! Tem sempre alguém atrás de você! A patrulha a minha volta é um problema, sabe? O Brasil não é um país jovem há muito tempo. Por que continuar com essa patrulha em torno de medidas? 
AF: Eu nunca me vi como galã. Se você pegar entrevistas minhas de 40 anos atrás, vai ler a mesma declaração que sempre repito ao longo de décadas. Eu nunca fui o meu tipo de homem (risos). Eu nunca me olhei no espelho e falei: “Olha, que cara bonito!”. Mas sempre agradeci às pessoas que acharam isso. Que bom que alguém discorda de mim. 
CT: Não me arrependo da minha história. Posei nua, sim. Fui chamada de novo, recusei. Já estava eternizado. Mas, meu bem, as pessoas estão se aprisionando por rótulos que há 30 anos se impõem em uma sociedade de consumo. Se o tempo não passar, como é que vai ser? 
 Vocês têm filhos que também seguiram seus rumos e foram para a carreira artística. Lembram o dia em que eles viraram para vocês e falaram: “Pai/mãe, quero ser ator”? 
AF: Tenho três filhos mais velhos (Dinah Abujamra, Antonio Fagundes Neto e Diana Abujamra Fagundes, de seu casamento com a atriz Clarisse Abujamra) que não seguiram carreira artística. Só o Bruno (Fagundes, de sua ex-mulher Mara Carvalho) é quem desde pequeno queria seguir essa carreira. Aos 11 anos já queria fazer teatro. Ele sempre quis... Quando criança já me pedia para fazer teatro amador, experimental. “Tá bom, filhinho, vai fazer.” A filosofia lá em casa sempre foi: “Seja feliz com o que quer fazer”. 
CT: Eu só soube que o Leo (Leonardo Carvalho, de seu casamento com o diretor Dennis Carvalho) estava na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras, no Rio) quase um ano depois. Ele foi se testar para saber se queria mesmo ser ator. Porque não é algo como: “Ah, vou ser ator”. É um despertar diário, um compromisso que a gente precisa assumir todo dia, é como um sacerdócio. Daí ele nos chamou um dia, eu e o pai, para vermos a apresentação dele. E foi lindo. Há atores que têm um desabrochar mais velhos, né... Foi o caso dele. 

 Vocês costumam conciliar TV e teatro em ritmo alucinante. De onde vem tal vitalidade? 
AF: Sempre fiz teatro, novela e filme de madrugada... Gosto dessa brincadeira de descansar de um veículo fazendo três personagens ao mesmo tempo. Tenho dois ou três projetos caminhando para fazer com Velho Chico.
 CT: Meus pais fizeram 62 anos de casados no mês passado. Muito dessa resposta está nesse lugar. Eles me revelam um tesão pela vida. Nem todo mundo está preparado para viver junto. O segredo passa por muita coisa: não se drogar demais, não dormir de menos, não beber muito, não comer muito fast food. É preciso uma boa conspiração para a vida, sem deixar a coisa perder a graça. Fazer amor, namorar, trazer coisas boas. Não é ficar sete dias internada em uma clínica tomando rivotril e sendo triste. Aí prefiro beber um vinho tinto (risos)!
FONTE/QUEM

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