sábado, 16 de abril de 2016

 Flávio Migliaccio diz que se tornou ateu após assédio de sacerdotes:
 “Fiquei traumatizado" 
 No ar como Josias de Êta Mundo Bom!, o ator faz um balanço de seus 81 anos, recorda as dificuldades financeiras da juventude e revela que abandonou a religião católica depois de ser assediado por padres no seminário.

Por Elizabeth Antunes 
 Com uma camiseta com a estampa da série Shazan, Xerife & Cia., exibida na década de 70, na TV Globo, Flávio Migliaccio, de 81 anos, diz se lembrar com saudade de seu personagem, Xerife, um tremendo sucesso. 
Mas esse não é o único papel que o ator carrega no peito. 
No ar como o Josias de Êta Mundo Bom!, ele é apaixonado por todos os tipos que interpreta, desde a época do Teatro de Arena, nos anos 50, em São Paulo. 
“Tem ator que odeia ser marcado por um papel, porque acha que isso o desmoraliza, mas comigo não.
 Quero ser desmoralizado e ficar com aquele personagem para o resto da vida”, conta. 
 Criado numa família humilde de 16 irmãos, na capital paulista, Flávio se emociona ao pensar que, ainda garoto, queria ser padre.
 E revela: foi expulso do seminário por não aceitar o assédio de sacerdotes. 
“Fiquei traumatizado.” Outra passagem tocante de sua vida, que o leva às lágrimas durante a entrevista, é recordar o período em que precisou trabalhar como engraxate para pôr comida em casa. 
Casado há 60 anos com Yvonne, de 80, com quem tem Marcello, de 53, hoje sua felicidade é repousar em seu sítio, no interior fluminense.
 “Não sou ganancioso”, diz o feliz avô de Marina, de 20. 
  Tapas & Beijos acabou em setembro, depois de quatro anos no ar, e Êta Mundo Bom! já estreou em janeiro. Não pensou em descansar um pouco?
  Não ia conseguir ficar parado! Se não me chamassem para essa novela, ia procurar alguma coisa para fazer imediatamente. Quando veio o convite, fiquei deslumbrado. E não importa o papel. Qualquer coisa eu faço. Trabalhei na novela O Casarão (1976) fazendo figuração. Mas a história era tão bonita que ficava feliz só de estar no elenco. Nunca me importei com o papel. E não estou dizendo que o Josias é um papel pequeno. Para você ter uma ideia, fiz uma árvore em um quadro de Viva o Gordo (humorístico da década de 80). Durante um ano inteiro, fui uma árvore (risos). E estava muito feliz em ser uma árvore!

 Seu primeiro papel foi de um morto, não? 
 Sim, fiz um morto! Era época do Teatro de Arena, no anos 50. O engraçado foi que o diretor fez um teste comigo de uma hora. Voltei para casa contente. No dia seguinte, soube que faria um morto (ele cai na gargalhada). 

E o pior de tudo é que tinha muita pulga no teatro, imagina? 
Eu tinha que me concentrar, não podia nem respirar, a plateia ali perto e pulga pelo palco! 

 Você está usando uma camisa com estampa de Shazan, Xerife & Cia. Xerife foi o personagem mais importante da sua vida? 
 O seriado ficou três anos no ar, mas parece que foi muito mais, parece que foram uns dez de tanto sucesso que fez. Tem ator que odeia ser marcado por um papel, porque acha que isso o desmoraliza, dá a impressão de que ele só saber fazer aquilo, mas comigo não. Quero ser desmoralizado e ficar com aquele personagem para o resto da vida. Sempre gostei do Carlitos, do Charles Chaplin; o Mr. Bean, do Rowan Atkinson... Queria um só também para o resto da vida. 
 Você estudou em colégio de padres, e diz que é ateu... 
 Eu me tornei ateu. Houve um momento em que deixei de acreditar em Deus. Quando estava estudando para ser padre, aconteceu algo que me fez desacreditar nos padres e na religião. No início, o fato de me tornar um sacerdote era uma vontade dos meus pais. Mas depois comecei a ter um amor tão grande pela religião que quis ser padre. Só que fui perdendo o encanto e acabei expulso do seminário. Senti tanto, chorei tanto quando fui expulso, porque queria ficar lá. 

 Por que foi expulso? 
(Faz uma longa pausa). A verdade é que fui assediado por padres. E, quando isso começou a acontecer, descartei a ideia do seminário. Eles queriam fazer uma coisa que eu não queria, então fui expulso. Eles nos assediavam no confessionário, em qualquer lugar. Era terrível. Uma vez tive que tirar a mão do diretor do colégio do seminário de cima da minha perna! Na hora eu falei: “Isso não!”. Eu só tinha 14 anos e saí de lá muito triste e traumatizado. 

 E o que aconteceu depois? 
 Quando saí de lá, fiquei muito perdido. Ficava me perguntando: “Cadê Deus? Onde Ele está?”. Fiquei procurando por Ele. Um dia, andando perto da igreja de Tucuruvi (bairro de São Paulo), ouvi umas vozes. Era um grupo do teatrinho da igreja. Entrei, sentei e comecei a assistir à apresentação. Gostei tanto do que vi que fui falar com o ator principal, disse que era capaz de fazer aquilo. Foi engraçado, porque ele disse: “Faz pelo amor de Deus que não aguento mais”. A partir desse dia, fiquei no lugar dele. 

 Já tinha pensado em ser ator?
 Meu pai tocava violino na bandinha do cinema, porque antigamente os filmes eram mudos. E minha mãe gostava de brincar de teatrinho com a gente. A profissão dele era barbeiro. Ele tinha um salão pequeno na cidade. Uma vez decidiu que eu teria de seguir a profissão dele. Só que não deu certo. 

 O que houve? 
 Um dia ele falou para mim: “Olha, amanhã você vai começar a trabalhar de barbeiro comigo”. E pronto. No dia seguinte, cheguei ao salão e tinha uma fila de mendigos na porta! Meu pai tinha catado todos os mendi gos do bairro para eu aprender a cortar o cabelo e fazer a barba deles. Eram minhas cobaias (risos). Não cortei ninguém, mas desisti da profissão por causa disso, era um cheiro terrível (dos mendigos), e eu era menino. Foi antes de ir para o colégio de padres, eu devia ter uns 12 anos. Na verdade, todo mundo em casa tinha que trabalhar, era muita boca para comer.

 Seus pais tiveram 17 filhos. Como foi sua infância? 
Meu pai tinha muita dificuldade de dar comida para essa filharada toda. A gente não tinha dinheiro para comer, comia banana... A gente ia se virando. Não teve isso de “vai ser doutor”, era “vai trabalhar para ganhar um dinheirinho”. E custei para ganhar esse dinheiro. Por isso, fiz um pouco de tudo. Fui pedreiro, eletricista, marceneiro, mecânico, balconista. Houve uma época em que ficava na porta daquelas lojas próximas à Estação da Luz (em São Paulo), chamando a freguesia. Também fui engraxate. 

Eu vou me emocionar agora, você não vai se importar, vai? 
(silêncio) Não, imagina... 
 Meu pai fez uma caixa de engraxate para mim. Tudo pronto, botei a caixa nas costas e fui a um lugar onde os engraxates costumavam ficar. Só que, quando cheguei lá, fiquei apavorado! Os outros meninos olharam para mim de um jeito... Na hora pensei: “Vão me pegar, me bater, vai ser horrível, porque sou mais um concorrente”. Quando já ia para casa, cheio de medo, veio um cara: “Garoto, engraxa meu sapato aí”. Gelei! Mas comecei a fazer o trabalho. E o que aconteceu? Quando olhei à minha volta, um garoto me fazia um sinal, avisando que estava fazendo algo errado, colocando tinta antes da graxa (emocionado, ele faz outra longa pausa). Nessa hora, reparei que ele estava me ajudando (ele chora). Foi aí que descobri a solidariedade. 

 Como você está de vida? De que forma lida com seu dinheiro? 
 Não sou ganancioso, o dinheiro não me faz feliz. O que me faz feliz é escrever. E gosto de fazer charges também. Sempre vou ao meu sítio, em Rio Bonito (a 50 quilômetros do Rio). Lá tem muito verde, água, peixe, mico... É um lugar tranquilo para escrever.

FONTE/QUEM

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