terça-feira, 12 de abril de 2016

Lilia Cabral diz que melhores papéis vieram depois dos 50 Atriz interpreta cafetina em ‘Liberdade, liberdade’, novela das 23h da Globo
 Por Zean Bravo
Sentada na sala de sua casa, no Jardim Botânico, Lilia Cabral explica que não gosta de tirar férias longas. 
Fica aflita quando passa muito tempo sem trabalhar. 
Depois de ser vista como a vilã Maria Marta, em “Império”, encerrada em março do ano passado, ela volta ao ar nesta segunda-feira como Virgínia, a dona de um bordel em “Liberdade, liberdade”, novo folhetim da faixa das 23h da Globo.
 Entre as duas novelas, encenou, no ano passado, a última temporada de “Maria do Caritó”, peça que vai transformar em filme. 
E já está reservada para a próxima trama de Gloria Perez para o horário das 21h, que acabou adiada para 2017:
 — Não estava esperando outro convite por causa da novela da Gloria, mas, como o trabalho ficou para depois, este agora veio em boa hora. 
 Aos 58 anos de idade e 37 de carreira, Lilia tornou-se uma atriz requisitada. 
Mas admite que as melhores oportunidades no vídeo vieram há pouco, já na casa dos 50. 
Na última década, emendou personagens de maior relevância e repercussão nas novelas “Páginas da vida” (2006), “A favorita” (2008), “Viver a vida” (2009) e “Fina estampa” (2011). 
Nesta última, viveu a batalhadora Griselda, a Pereirão, sua primeira protagonista. 
Há 32 anos na Globo, a atriz diz ter dado duro até se firmar de fato.
 — Passei por muitas novelas. “Vale tudo” (1988), “Tieta” (1989), “Pedra sobre pedra” (1992)...
 Foram trabalhos significativos para as pessoas me conhecerem. 
Mas cada vez que acabava, era como se tivesse que começar tudo de novo.
 Não era questão de ser pouco, mas aquilo não me realizava como atriz. 
 À época, a realização vinha dos trabalhos no teatro. 
Caso do espetáculo “Solteira, casada, viúva, divorciada”, pelo qual ganhou o Prêmio Shell, em 1993. 
 — Por dez anos fui uma espécie de ticket-restaurante, sabe? 
Alimenta, mas não paga uma grande refeição. 
Pensava: “Quanto tempo falta? O que preciso ter para mostrar que não faço só comédia?”. 

 MÃE DE MARCELO RUBENS PAIVA NO PALCO 
 Paulistana da Lapa, vinda de uma família conservadora que não apoiou sua decisão de se tornar atriz, Lilia estreou nas novelas em “Os imigrantes”, da Bandeirantes, em 1981. 
Foi para a Globo em 1984 atuar em “Corpo a corpo” após se destacar na peça “Feliz ano velho”, adaptada do livro de Marcelo Rubens Paiva.
 — Conheci Lilia no começo da carreira. 
Ela tinha uma veia cômica, mas se tornou uma atriz completa — aponta Marcelo Rubens Paiva.
 Os dois viraram amigos, e Lilia quer levar para o teatro a adaptação de outro livro dele, “Ainda estou aqui”, sobre a luta da mãe do autor contra o Alzheimer.
 — Lilia conviveu muito com a minha família.
 Assim como a minha mãe, ela é uma mulher meio debochada e dramática ao mesmo tempo — ressalta ele. 
 A volta ao teatro é planejada para o ano que vem. 
Agora, as atenções estão voltadas para “Liberdade, liberdade”.
 A personagem, ela diz, é diferente das que já fez.
 Para interpretar a mulher que promove encontros dos inconfidentes em seu bordel, no século XVIII, Lilia usará aplique nos cabelos e corseletes que por vezes a deixam quase sem ar.
 Escrita por Mario Teixeira, “Liberdade, liberdade” terá pouco mais de 60 capítulos. 
A trama é baseado no argumento de Marcia Prates, que foi livremente inspirado no livro “Joaquina, filha do Tiradentes”, de Maria José de Queiroz.
 A novela, dirigida por Vinicius Coimba, conta, de forma ficcional, a vida da filha de Tiradentes, Joaquina.
 A trama começa no período da Inconfidência Mineira. 
Virgínia é a mulher que ajuda Raposo (Dalton Vigh), seu amante, a fugir com Joaquina (Andreia Horta) do Brasil para Portugal, após a morte de Tiradentes.
 A jovem volta ao Brasil em 1808, já adulta, e se aproxima da cafetina. 
Apesar de ser sedutora, Virgínia não é tão glamourosa por conta das condições precárias da época. 
A sensualidade da cafetina será mais calcada na delicadeza dos gestos do que numa atitude erotizada: 
 — Se eu ficar preocupada em parecer bonita nas gravações, vou errar. 
Inventei uma garrafinha para a personagem carregar.
 Ela não vai ficar bêbada, mas será como se estivesse sempre bem. 
 No set, os atores ganham borrifadas de suor artificial feito com glicerina e uma maquiagem para deixar a pele com aspecto de suja.
 Lilia diz suar de verdade em cena: 
 — Tenho certeza que as pessoas vão falar: 
“Nooossa, como os atores estão suados, com a roupa é suja..”. 
Mas é assim mesmo. Não havia máquina de lavar. 
 A atriz se assume “uma fresca” e diz não gostar, por exemplo, quando precisa atravessar uma cachoeira de um lado para outro nas gravações. 
 — Só Deus sabe o quanto sofro quando meu vestido arrasta pela cidade cenográfica e leva tudo: o feno e as necessidades dos bichos.
 Ali, estou na merda, literalmente (risos). 
 Ela sofre, mas não reclama: — Na gravação da cachoeira o tempo foi fechando e pensei:
 “Se cair uma tromba d’água aqui não tem essa de protagonista, coadjuvante, câmera, vai todo mundo embora”. 
 A frescura não a impede de aceitar propostas profissionais mais inusitadas. 
Nem mesmo de apelar para o escracho. — Acham que sou recatada, uma atriz intocada, mas sou louca — garante ela, dizendo ter adorado se ver vestida de Globeleza para uma participação nesta última temporada do humorístico “Tá no ar”.
 — Foi um despudor. Estava quase um Grande Otelo ali, foi praticamente um Macunaíma. 

 CARREIRA SEM BOTOX OU PLÁSTICA 
‘Passei por muitas novelas. Mas cada vez que acabava uma, era como se tivesse que começar de novo.
 Amigo de Lilia desde a época de “Tieta”, o autor Ricardo Linhares lembra da fase em que ela temia ficar presa a papéis cômicos. 
E conta o “papo curioso” que os aproximou durante uma gravação da novela escrita por ele em parceria com Aguinaldo Silva e Ana Maria Moretzsohn. 
A conversa já demonstrava a preocupação da atriz em ter mais espaço no vídeo.
 — Estava visitando a cidade cenográfica onde Lilia gravava uma externa. 
Disse a ela que Amorzinho (personagem da atriz em “Tieta”) ia ganhar um cenário próprio. 
Até então, ela só gravava na igreja e na casa de Perpétua (vivida por Joana Fomm). 
Lilia vibrou ao saber que ia ter um cenário chamado Casa de Amorzinho, com sala, quarto, cozinha — conta o autor. 
 O autor e Lilia conversam com frequência sobre os mais variados temas:
 — Esses dias trocamos WhatsApp sobre indicação de dermatologista. 
Aliás, a pele da Lilia está ótima, né?.
 Perto dos 60 anos, ela diz diz nunca ter feito Botox ou plástica.
 Nem um clareamentozinho nos dentes. 
E, por isso, assume “ter se sentindo um ET” entre seus pares da TV algumas vezes. 
Sua maior vaidade e preocupação, diz, é se manter no patamar que conquistou: 
— Luto com unhas e dentes para me manter neste lugar que estou. 
Agora que agarrei os bons papéis, não solto mais.

FONTE/OGLOBO

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