segunda-feira, 25 de abril de 2016

Projota:
 ‘Eu sou a mistura de Djavan com Mano Brown’
 ‘Ela é um filme de ação com vários finais / Ela é política aplicada em conversas banais / Se ela tiver muito a fim, seja perspicaz / Ela nunca vai deixar claro, então entenda sinais’. 
Estes versos caíram nas graças do grande público. 
‘Ela Só Quer Paz’ é o mais novo hit de José Thiago, ou melhor: Projota. 
Sem exagero, a coluna afirma com todas as letras que ele é o melhor compositor jovem na atualidade. 
Por isso, a entrevista deste domingo é com ele. 

 Essa entrevista surgiu por causa da sua obra e do seu talento. Eu acho que a música jovem no Brasil sofre um momento de deficiência de grandes autores e grandes compositores. Venho de uma geração com Cazuza, Legião Urbana… Acho que você veio ocupar esse lugar. O que você acha da música brasileira atualmente? 
 Primeiro, quero agradecer os elogios. Penso que a mídia, as rádios e a televisão hoje em dia não têm dado espaço para esse tipo de linguagem. Quando eu era criança, ouvia Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso! Todas as músicas com letras muito complexas e cheias de ideologias. Agora estão botando isso à margem, né? 

 Então existe o produto, mas não é veiculado? 
 Tanto existe que no rap eu não sou sozinho. Veja o Emicida, que é um gigante! Criolo também quase não toca nas rádios. Não sei se não vende tanto quanto o Sorriso Maroto ou Ivete Sangalo. Eu tenho mais de cem músicas feitas por mim, com uma identidade muito própria. Quando o artista depende de outros compositores, essa identidade não fica tão clara e, às vezes, a fonte seca. Acredito que, quando você é muito grande como Ivete Sangalo ou Luan Santana, tem muita gente mandando músicas. Então, eles conseguem manter o nível. A gente acaba perdendo muitos artistas por causa disso. O rap é mais autoral. Minha linguagem é muito popular. Não é tão complexa quanto os Racionais, por exemplo.

 Agora eu estava ouvindo uma entrevista sua em que você falava que sofreu um certo preconceito entre os rappers por começar a falar de amor e por muitas vezes cantar com a Anitta, né?
 Sim, também. 

 Como foi essa passagem de um rapper mais social para um rapper que fala mais de amor? 
 É que, na real, não existiu essa passagem. Eu sempre fiz músicas falando de amor, desde antes de eu aparecer, de ter Orkut, eu já fazia raps de amor. Só que eu sempre fazia os outros também! No meu CD tem 16 faixas: quatro falam de amor e o resto, não. Mas as de amor vão para as novelas, viram clipes, vão para as rádios…

 E por que o preconceito no meio?
 Porque é um estilo musical que é muito conservador. Foram décadas praticamente batendo na mesma tecla, falando do social… No início, só se falava de periferia, de favela. Já fiz rap assim também. Eu comecei tentando imitar os Racionais, mas, conforme o tempo vai passando, você vai encontrando a sua identidade musical. 

Onde eles acham que você se corrompeu, Projota?
 Tem pessoas que falam que eu fugi da minha essência. Eu digo que elas não conhecem a minha essência! Eu cresci ouvindo Só pra Contrariar, Alexandre Pires, Raça Negra e até Julio Iglesias, que a minha mãe ouvia o dia todo. 

 E isso é você, né cara? Isso que formou você, né?
 Exatamente, Leo! Sou a mistura do Djavan com o Mano Brown, Eminen, Renato Russo e Chorão. 

 Você tinha preconceito contra a Anitta?
 Não vou dizer preconceito, mas esse tipo de música não fazia parte do meu círculo. A música dela não fazia parte da minha vida, não era algo que eu ouvia. Quando ela lançou o ‘Show das Poderosas’ eu falei: ‘Essa menina é boa mesmo!’. Ali, eu já comecei a ver com outros olhos. Ela foi me convencendo. E acho que ela fez isso com muita gente. O álbum ‘Bang’ veio para consolidar o trabalho dela. 

 Você se chama José Thiago Sabrino Pereira. De onde veio Projota? 
 Do José. Quando eu comecei a cantar, era JT, de José Thiago. Aí comecei a acessar a internet e vi que tinha muito JT. Aí eu virei o Jota profissional. Então virou Projota. Eu falo que eu sou tão popular que eu virei um José profissional. 

Ser popular é ruim? 
 Acredito que não! Sempre vi isso como uma qualidade do meu trabalho, como uma vantagem que eu tinha sobre os outros artistas. 

 Você fez faculdade de Educação Física?
 Comecei, mas larguei três anos depois. Eu sabia que a música era o meu caminho, mas estava buscando um porto seguro. Fiz a faculdade porque eu ganhei bolsa. Eu não tinha grana e acho que, se eu tivesse, investiria na música. 

Você foi balconista, secretário de uma escola e funcionário de uma estamparia. É isso? 
 Sim. 

 Com quantos anos você começou a trabalhar? 
 Comecei a trabalhar com 14 anos num depósito de material de construção. Eu era balconista. Estudava de manhã e trabalhava à tarde. Depois, eu comecei a estagiar e fiz um curso de administração. Estagiei numa secretaria de escola e trabalhei alguns anos lá também. Quando fiz 21 anos, larguei o trabalho numa estamparia e comecei a fazer a faculdade e a música. A faculdade era de graça, então não tinha muito gasto em casa. Eu fazia bico. Já entreguei folheto… Ganhava pouco, mas era só para ajudar em casa. Meu pai segurou muito a barra para mim. 

 Sua vida foi simples, mas não foi dramática, né? 
 Quando eu era bem novinho era tranquilo… Aí eu perdi a minha mãe quando fiz 7 anos. Ela sofreu um derrame e eu vim morar com a minha avó. Isso que complicou a família. Meu pai perdeu o emprego e um monte de coisas aconteceram depois disso. Foram anos difíceis mesmo, mas graças a Deus nunca passei fome. Não tenho do que reclamar. Hoje, eu ganhei dinheiro, consegui muita coisa… Sou supertranquilo de saber que eu sobrevivi com muito menos do que isso, então, eu não almejo dinheiro.

 Você foi contratado pela Disney, né? 
A Disney faz uma varredura na vida de qualquer pessoa para contratar. Tem que ser uma pessoa com uma vida reta. 

De certa forma, isso é um orgulho para você? 
 O mundo do certinho foi algo natural na minha vida. Acho que essa retidão é mais no sentido de honestidade, de não perder a simplicidade, de ser sempre um cara honesto. Eu nunca fumei cigarro, nunca usei maconha. Nunca tive nem curiosidade de experimentar. É uma surpresa porque você imagina um rapper como um cara mais liberado, né? Um músico que não tenha usado droga é muito doido. Mas eu já falo esperando a reação de surpresa da pessoa. Realmente é surpreendente e eu sei que, para um jovem na sociedade de hoje, independentemente do que ele faça, já é uma surpresa. Eu nunca tive curiosidade nem vontade de usar. 

 Mas teve oportunidade? 
 Está aí o tempo todo. Eu tive oportunidade tanto para usar quanto para vender no lugar onde eu vivi. Não entrei para o crime por Deus e também por uma boa educação que eu tinha dentro de casa. 

 Te incomoda se alguém estiver ensaiando no estúdio com você e acender um cigarro de maconha?
 Não, mas eu me incomodo com o cigarro. O cheiro me incomoda muito. A maconha já não me incomoda tanto. Mas se eu estou no meu estúdio, se é a minha gravação, isso não rola. Se eu for convidado a participar de algum trabalho de alguém eu não posso mandar apagar… Mas no meu trabalho isso não acontece. Na minha banda os meninos são todos da igreja . 

 Você é contra a redução da maioridade penal? 
 Acho que ela tem que ser discutida. Agora simplesmente reduzir a maioridade penal eu sou totalmente contra. Nossa sociedade se coloca muito em regras fixas para aquele determinado caso que é muito amplo. Acho que cada caso é um caso. Mas há alguns reincidentes bravos… Aí acho que não dá! Não pode também ficar só passando a mão na cabeça. A fama traz muita coisa para a vida do artista. Entre elas… mulher. 

Como você lida com isso? 
 Sempre lidei tranquilo. Não sai nenhuma polêmica minha na rua e não tem nenhum motivo de polêmica envolvendo mulher também.

 Mas você pega? 
 Eu namorei durante um bom tempo na minha carreira. Quando terminei, há alguns anos, minha carreira estourou. Eu sempre fui muito cuidadoso com isso. Não fico me envolvendo com qualquer tipo de pessoa. Hoje em dia é loucura. Você vê gente se aproximar por causa da fama. Está tão doido que você vê meninas querendo pegar artistas só para ganhar mais seguidores no Instagram. Mas não é só mulher! Tem homem assim também.

 E é ridículo também as pessoas se considerarem mais importantes do que as outras por terem mais ou menos seguidores no Instagram , não acha?
 É! A gente está vivendo isso! Vivendo esse momento muito doido… É difícil de acreditar realmente que existam pessoas que se liguem nisso. 

 O que a gente não sabe sobre você, Projota?
 Deixa eu pensar… Gosto muito de videogame, sou viciado em séries… 

Você sabe disso? 
Já assisti a umas quarenta séries ou mais. 

 Como assim? 
 Agora eu estou assistindo ‘Demolidor’, mas já assisti ‘Prison Break’, ‘Lost’, ‘Walking Dead’, ‘Game of Trones’, ‘Dexter’ e por aí vai. 

 Você já pensou em atuar ou não?
 Ah, se vier algum convite, dependendo do que for, se for algo simples, eu topo, sim! Mas eu respeito muito as pessoas, as profissões… Acho que tem que ser muito delicado. Se aproveitar da fama e cair de paraquedas em algo que você não tem o dom, não é legal. Eu acho que tudo tem que ser feito com muita cautela. Um convite para fazer uma participação, quase como uma brincadeira, eu faria tranquilamente. Mas acho que tem que respeitar a profissão do outro.

FONTE/ODIA

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