segunda-feira, 25 de abril de 2016

 Paulo Rocha sobre viver no Brasil:
 "Me sinto mais nativo"
 No ar como Dino de Totalmente Demais, o ator português Paulo Rocha, que mora no Rio há cinco anos, se declara para sua mulher e diz estar revoltado com a situação política do país.

Por carla neves 
 No Brasil há cinco anos, desde que se mudou para o Rio de Janeiro para integrar o elenco de Fina Estampa, da TV Globo, o ator português Paulo Rocha, de 38, se indigna ao falar sobre a situação política e econômica do país. 
“O povo brasileiro tem uma vida muito dura! 
A gente sofre muito. O que acontece todos os dias nas nossas favelas é inaceitável. 
Não há como ficar indiferente a isso se quero pertencer a este lugar”, lamenta o intérprete do truculento Dino, de Totalmente Demais.
 Há quatro anos casado com a psicóloga carioca Juliana Pereira, de 31, ele vê na mulher sua base emocional no Brasil. 
“A Juliana está em primeiro lugar na minha vida. 
Neste momento, minha família é ela.
 Apesar de a gente não ter oficializado essa relação para os trâmites legais, já me sinto casado”, diz o ator, que abandonou completamente o sotaque de Portugal. 
“Às vezes, me escuto e vejo as diferenças, o processo evolutivo do sotaque. 
Hoje me sinto mais ‘nativo’”, completa Paulo, fazendo um balanço dessa adaptação à vida nos trópicos, durante o bate-papo com QUEM. 
Você interpreta um homem truculento e machista em Totalmente Demais. Como é sua relação com as mulheres? 
Não consigo conceber o mundo sem a mulher. Seria muito chato e teríamos uma vida bem menos feliz. Procuro ter um enorme respeito por elas. Consigo concebê-las iguais aos homens em todos os sentidos. Mais importante do que o diferencial de gêneros é a atenção que devemos ter com o outro. Nosso espaço no mundo é muito legal, mas existem outras pessoas, sejam homens, mulheres, crianças, enfim, outros seres que são igualmente importantes. Hoje em dia já não se aceita mais que existam diferenças entre homens e mulheres.

 Você está falando português como os brasileiros. É difícil se adaptar a essa nova forma de se comunicar? 
 Foi um conjunto de fatores que convergiram para que isso acontecesse. Viver aqui facilita o aprendizado da língua. Resolvi tentar falar, desde que durmo até a hora que acordo, em português do Brasil. Achei que isso aceleraria meu processo e faria com que eu não ficasse preso apenas ao que estudei em casa. Isso me ajuda também a estar mais familiarizado com as expressões do dia a dia do brasileiro. 

Essa vontade de se adequar ao português falado no Brasil partiu de você? 
Essa foi a parte pela qual me considero responsável. Depois a TV Globo também me lançou esse desafio. Não faria o menor sentido ficar no Brasil tanto tempo aguardando por personagens portugueses. Seria perda de tempo para mim e de dinheiro para a emissora. A ideia surgiu quando terminei Fina Estampa, em 2011, e ia emendar Guerra dos Sexos, em 2012. Lembro que de brincadeira falei: “Em três meses estou falando português do Brasil”. Às vezes, me escuto e vejo as diferenças, o processo evolutivo do sotaque. Hoje me sinto mais nativo. 

 E como tem sido a experiência de morar no Brasil? 
Acredito que obviamente nossa pátria é nossa língua. Através da língua a gente se torna nativo. Minha vivência no Brasil me fez crescer bastante. Não sei se isso convergiu com minha idade também. Com o tempo amadureci. Quando cheguei ao Brasil estava com 33 anos, agora estou com 38.

 O que mudou do Paulo de cinco anos atrás para o Paulo de hoje? 
Meu reconhecimento e meu entendimento do que é a dureza do povo brasileiro. Para mim seria muito mais fácil buscar me alienar. Moro no cartão-postal do Brasil, que é o Rio de Janeiro, e trabalho na TV Globo. Seria cômodo me manter assim. Mas não acho que isso seja a essência do que é ser brasileiro. O povo brasileiro tem uma vida dura! A gente sofre muito. O que aconteceu na tragédia de Mariana (MG) é inacreditável e inadmissível! O que acontece todos os dias nas nossas favelas é inaceitável. Não há como ficar indiferente a isso se quero pertencer a este lugar. 

 Você se sente brasileiro hoje? 
 Vivo o “calor” brasileiro, essa é minha realidade. Não posso ficar surdo para o que está acontecendo à minha volta. E o que está à minha volta não é só o Leblon. Tem uma porrada de coisas que não são mostradas como deveriam ser. O povo precisa ter melhores condições de vida no nosso país, tem que receber os serviços básicos. É inaceitável o que acontece na saúde brasileira. Não faz sentido que aconteça assim em um país como o nosso, que é pródigo em receber impostos. Nós somos muitos, somos um país continental. É mais doloroso ser brasileiro do que português. 

 Como era sua realidade em Portugal? 
Em Portugal temos consciência do nosso tamanho e tentamos de alguma forma trabalhar com o que temos. Portugal é um país incrível, que deu muitas coisas ao mundo e tem alguns nativos que são seres humanos maravilhosos, com ímpeto e capacidade de superação. Mas a gente não pode esquecer que Portugal é uma faixa de terra com 600 quilômetros de comprimento por 200 de largura. Temos todas as limitações que o próprio espaço implica. O Brasil não! O Brasil pode dizer que tem o pulmão do mundo. Tem refinarias de petróleo... Deve ser o único país com capacidade para ser autossuficiente e proporcionar uma vida digna a cada um dos seus habitantes. É pensando nesse sentido que eu digo que é mais difícil para mim conceber o ser brasileiro do que o ser português. 

 Quem é sua família no Brasil? 
 A Juliana, minha mulher, está em primeiro lugar na minha vida. Neste momento, minha família é ela. Apesar de a gente não ter oficializado essa relação para os trâmites legais, já me sinto casado. E ainda tem a família dela, obviamente, e um monte de amigos: a Lilia Cabral, o Eriberto Leão, o Malvino Salvador... Essas pessoas me fazem sentir que pertenço ao Brasil de alguma forma. Fui criado pela minha avó e, em Portugal, hoje só tenho meu pai (o cenógrafo, figurinista e pintor José Costa Reis). 

 Você e a Juliana já moram juntos há quanto tempo? 
 Desde Guerra dos Sexos, em 2012. Acho que sou um marido tolerável (risos).

 O que você faz nas horas vagas? 
 Vou com alguma frequência à UFF (Universidade Federal Fluminense). Tenho um amigo filósofo que dá aulas lá. Sempre que posso, vou encontrá-lo. Temos um grupo de estudo. Também faço aulas de canto. Achava que não conseguiria cantar, que minha voz era péssima e meu ouvido, ruim. Um dia, minha fonoaudióloga me falou: “Você tem uma voz bonita, por que não canta?”. Quis mostrar para mim mesmo que era capaz. Só temos uma vida e é importante percebermos que temos capacidade de mudarmos e sermos melhores. Foi isso que busquei. Há quase um ano estou fazendo aulas. 

Sempre foi obstinado? 
 Gosto de me cobrar. É mirando o impossível que conseguimos o máximo possível. Gosto, sobretudo, de ter a paz de espírito de saber que fiz tudo o que estava ao meu alcance para conseguir chegar ao melhor resultado. 

 E quando as situações fogem ao seu controle? 
 Estou aprendendo que não dá para controlar tudo. E, se conseguíssemos controlar tudo, ficaríamos infelizes. Iam nos roubar o imponderável. E o imponderável é que traz brilho à nossa vida.

FONTE/QUEM

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