quarta-feira, 4 de maio de 2016

Alcione:
 'Nunca fui escrava da moda'
A Marrom, que ama brilhos e maquiagem, tem Testino, Gaultier e Naomi a seus pés 

 Por Jaqueline Costa
Brilhos, franjas, acessórios vistosos, enormes unhas postiças, esmaltes cintilantes, maquiagem carregada. 
“Sou recatada e do lar”, brinca a cantora Alcione ao chegar para a entrevista. Não é mesmo. Ela gosta é de um exagero, de uma gargalhada bem alta, de um sorriso largo. 
A presença forte, a voz, o olhar (às vezes, duro; outras, maternal) e, é claro, o seu estilo muito próprio de se vestir e de se enfeitar fizeram dela um ícone cada vez mais incensado pelo povo da moda. 
E que povo, viu? De peso. Primeiro, foi o estilista francês Jean Paul Gaultier, lá pelos idos de 2011. 
Depois a Marrom posou para Mario Testino ao lado de Kate Moss. Naomi Campbell também é fã confessa. 
De beijar a mão e tudo. — Isso começou quando o Caetano me apresentou ao Almodóvar. Depois disso, esses gringos ficam querendo me conhecer.
 Uma vez, estava saindo de um hotel e o Axl Rose mandou três pessoas atrás de mim para pedir que tirasse uma foto com ele — conta. 
 Foi em 2014, quando o Guns N’Roses fez uma turnê pelo Brasil. Axl compartilhou a imagem em seu perfil no Twitter e elogiou:
 “Com a maravilhosa Alcione Nazareth”. Já Naomi posou com a cantora para a edição de maio da edição brasileira da revista “Vogue”. 
O ensaio, que tem mais 11 famosas, celebra mulheres negras do Brasil. Racismo? Ela disse que já foi, sim, alvo. 
Mas nunca se sentiu uma vítima. Quase tacou um cinzeiro na cabeça de um homem que estava hospedado no mesmo hotel em que ela: 
 — Ele olhou para mim e disse: “Chegou o navio negreiro”. Isso foi há mais de 30 anos. Durante um tempo, as pessoas avançaram, mas hoje acho que estão regredindo. 
 Estilo próprio conquista fãs pelo mundo Não teve jeito. Assim que começaram as conversas para Alcione posar para este ensaio publicado pelo ELA, a sua assessora de imprensa, Eulália Figueiredo, avisou: 
“Alcione adora o caderno, mas só vai fazer as fotos se puder usar suas roupas”. A Marrom é autêntica até o último fio de cabelo. 
Fotos de seus vestidos foram enviadas para o nosso coordenador de moda, Gilberto Júnior, que aprovou os looks. 
A partir daí, tudo fluiu. Aos 68 anos, Alcione dificilmente é vista andando sozinha por aí. É quase sempre seguida por uma verdadeira comitiva.
 Chegou ao Hotel Hilton Barra, onde as fotos foram feitas, acompanhada por seis pessoas: maquiador, cabeleireira, assessora de imprensa, dois produtores de moda, além da irmã Solange, que também é sua empresária.
 O produtor Socal, que trabalha para a cantora há mais de 40 anos, sabe de olhos fechados os gostos da diva. 
É ele, junto com o afilhado maranhense Narão, quem seleciona as peças vestidas pela cantora — muitos caftãs, vestidos soltos e decotados. 
Ela adora as roupas da Alessa e da paulista Silvia Bevilaqua. Alcione, que gosta de mostrar o colo, diz que nas lojas não encontra nada do seu tamanho.
 —Nunca fui escrava da moda. Dá para perceber que não sou uma mulher basiquinha, né? Tenho oito tons no cabelo. Sempre gostei de me enfeitar. 
Não saio de casa sem anel, porque parece que estou nua. 
 Batom não pode ser discretinho. Alcione diz que gosta mesmo é de ficar “boca de sandália”, que é como ela chama o batonzão, bocão, vermelhão.
 As unhas postiças extravagantes são uma de suas marcas registradas. Ela conta que chega a ficar duas horas com as mãos entregues à manicure.
 Gosta tanto do assunto que acaba de lançar a sua própria linha de esmaltes, em parceria com a Desirè Cosméticos.
 São 25 cores, cada uma com o nome de uma música da Marrom. Arrumadíssima até dentro de casa? 
Nada disso. No conforto do lar, ela diz que gosta de roupinhas no estilo “Mamãe, estou na merda”. Fala e cai na gargalhada. 
 Três maridos, muitos amigos e uma família gigante Alcione já foi casada três vezes — o primeiro marido foi um francês que ela nunca mais viu; o segundo foi um italiano com quem viveu por 13 anos; e o terceiro foi Chiquinho da Mangueira, presidente da escola de samba verde-rosa.
 Eles passaram três anos juntos, mas, depois da separação, a amizade ficou. — Nunca fui muito caçadora. 
Eles é que me achavam e queriam casar comigo — diz a Marrom, que adora organizar um bom jantar. Sozinha ela não fica nunca. 
Além da família enorme (é a quarta de nove irmãos, sendo a mais velha das mulheres), a Marrom sabe muito bem fazer amigos fiéis. 
É próxima de Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e Arlindo Cruz. Mas quando fica brava, sai de baixo.
 — A pessoa olha pra mim e sabe que não vai dizer o que pensa. Tenho cara de tambor que amanhece. E eu também só digo o que penso para quem merece — diz a Marrom. 
 Sobre saúde, tirando uma torção no joelho que a faz caminhar bem devagar, Alcione está bem. Mas ela lembra que já passou por maus bocados. 
Quase ficou sem cantar por conta de um tumor nas cordas vocais. — Fui operada pelo Doutor Fritz, uma entidade espiritual ligada ao Kardecismo.
 A cantora diz que não teve filhos porque optou pela carreira, já que tinha que viajar pelo país e pelo mundo afora o tempo inteiro.
 —Fiquei grávida uma vez e perdi. Não insisti porque sempre tive medo de deixar um bebê para outras pessoas cuidarem. 
Criança é igual leite. Se você olha para o lado, ferve! Mas sou mãe dos filhos do Zeca Pagodinho, do Martinho da Vila, do Arlindo Cruz.
 Do palco da Mangueira ao baile de gala Mangueirense de corpo e alma, Alcione já fez o estilista francês Jean Paul Gaultier dançar com a rainha de bateria da escola, tocar tamborim e até colocar na cabeça o cocar do Cacique de Ramos.
 Ele voltou para a França encantado com a sua energia. A cantora também já foi a grande atração de um festão oferecido ao fotógrafo peruano Mario Testino, no Copacabana Palace. 
Os dois cantaram juntos no palco. Filha de um maestro da banda da Polícia Militar do Maranhão com uma lavadeira e passadeira de mão cheia, Alcione veio para o Rio em 1968, depois de se formar como professora primária. 
Trabalhou na cantina do Ministério da Fazenda e foi balconista de loja de discos. Com seu vozeirão, o sucesso não tardou. 
Nos últimos dias, a Marrom tem ensaiado sem parar. No sábado que vem, dia 7, estreia, no Metropolitan, o seu novo projeto: “Alcione Boleros”.
 Depois, sai em turnê pelo Brasil.

FONTE/OGLOBO

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