quarta-feira, 18 de maio de 2016

 Ricardo Pereira: 
"Levo muito a sério meu papel de marido e de pai" 
Por Raquel Pinheiro 
 Depois de vários papéis tentando camuflar o sotaque, o lisboeta Ricardo Pereira, enfim, pode soltar seu jeito de falar como o capitão português Tolentino de Liberdade, Liberdade. 
Mesmo com tanto tempo por aqui – já são 13 anos – , Ricardo deixa transparecer um suave sotaque lusitano, mas usa gírias típicas do Rio, onde mora. 
Sua conversa é pontuada com “maneiro” e “cara”, por exemplo. 
Apesar das dificuldades da vida em outro país, ele se diz adaptado e reforça o amor pela terra que escolheu para formar sua família.
 “A história que eu já tenho com o Brasil será para a vida”, garante o ator, de 36 anos. 
 Casado com a marchand portuguesa Francisca, de 32, ele é pai de Vicente, de 4, e Francisca, a Boo, de 2, ambos brasileiros. 
No segundo semestre, fará em Lisboa a peça Ai, Meu Deus!, com Irene Ravache. 
Por enquanto, seu foco é nas maldades do militar da trama das 11 da TV Globo. 
“Ah, ele tem de ser punido, cara!”, sugere Ricardo, ansioso com as transformações pelas quais o vilão deve passar ao se envolver com o homossexual André (Caio Blat).
 O que o português Ricardo aprendeu sobre o Brasil de Liberdade, Liberdade? 
O que me surpreendeu, realmente, foi aquela precariedade do país, o abuso de explorar os recursos ao máximo, recordar esse período tenso e completamente desumano da escravatura. É bom fazer novela de época e na das 11, na qual a temática é sempre abordada com mais profundidade, há a chance de fazer algo mais arrojado e próximo da realidade, além de ser mais atrevido, porque o horário permite. 

 Esse arrojo também passa pela relação entre Tolentino e André (Caio Blat)? 
Não sei se haverá cenas fortes. Sou um ator e isso nunca é nem poderá ser uma questão. Tolentino é um militar rude e duro, que encontra um camarada com quem partilha sua vida, se abre, fala, brinca e, de repente, existe alguma coisa a mais, contra a qual ele vai lutar. Naquela época, isso era forca. 

 Aos 36 anos, você já fez 21 novelas, quase 30 filmes e outras tantas peças. É workaholic? 
Tenho muita sede de aprendizagem e medo de que algumas pessoas com quem quero trabalhar desapareçam. Fiz os últimos filmes dos cineastas Raúl Ruiz e Andrzej Zulawski, já falecidos. Se pinta um desses convites, como falar não? Sou workaholic, só que mais que um workaholic: levo a sério meu trabalho, sou pago para isso. Essa disciplina me caracteriza como pessoa, mas não deixei de viver nenhuma fase da minha vida. Fiz tudo que tinha direito quando jovem: festas, namoros, me diverti muito. Bati com a cabeça na parede muitas vezes. Meu pai dizia: “Liberdade com responsabilidade”. 
Como dá conta de tudo? 
Sou extremamente organizado, sei o que farei até o final de 2017. Se a pessoa for bem estruturada, é possível ter uma carreira com desafios, viver e ter tempo para a família. Mas é preciso disciplina. Hoje, por exemplo, fui dormir às 4h da manhã, depois de gravar, e às 8h já estava correndo. Dá vontade de ficar na cama? Dá, claro, mas aí eu não teria levado meu filho na escola, não teria corrido com minha mulher... Não é sacrifício, vale o dobro do que ficar na cama. O mesmo vale para os desafios profissionais. 

 Na prática, como é viver entre dois países?
 Quando pintam trabalhos bons lá, eu vou e mato a saudade da família. Mas moro no Rio, minha carreira é aqui, é onde meu filho vai à escola. Vim em 2003 e fui me encantando. Aqui tem ainda o fato de estar trabalhando na segunda maior televisão do mundo. A dimensão da TV Globo é incomparável.

 É muito difícil criar os filhos sem o resto da família por perto? 
 Você conta um com o outro, e é uma coisa boa enquanto casal. Pode se zangar um minuto, mas no seguinte precisa dela, e ela de você. Não me lembro de estar zangado com minha mulher. Não posso, não dá. Se há um problema, resolvemos a dois, com calma, de forma adulta. Casar é isso. Levo muito a sério meu papel de marido e de pai. Ter nossas famílias portuguesas por perto seria importante, porque as crianças aprendem de todo lado. Mas hoje não é possível. Viver fora do país é para durões. Eu fui bem acolhido em tudo aqui. Qualquer coisa que eu grite, tem gente em quem posso confiar. Ter uma pessoa ao meu lado, superparceira, tornou mais fácil ainda. 

Como encontram tempo para vocês? 
Ser pai e ser mãe é a melhor coisa. Vicente e Francisca são duas figuras que levam a gente aos melhores lugares de experiências do mundo. Mas tem que preservar a vida do casal. A gente dá umas escapadelas românticas. É bom manter a chama do amor, essa vida a dois. 
 Há algo com que você não se acostumou no Brasil? 
Eu me adaptei superbem a tudo. Já vivi em outros países e aprendi que nunca se chega a um lugar querendo trazer os costumes da vida. Não tem que lutar, tem que se enturmar. Nunca tive resistência a nada. Não faço da dificuldade da vida um problema.

 Ser ator era um sonho? 
 Nunca sonhei em ser ator. Comecei a trabalhar como modelo aos 14 anos e, em determinado momento, entendi que para fazer melhor publicidade eu tinha que ter mais interpretação e fui estudar. Era algo muito à frente do que eu precisava para ser o cara do comercial, mas me encontrei. Não pensei que fosse dar errado ou se se iria falhar ou não. 

Mesmo em um mercado pequeno e competitivo como Portugal? 
 Na minha carreira nunca olho para o lado, nem para cima, nem para baixo. Não olho para o sucesso nem para o insucesso das outras pessoas. Eu olho para mim, me preocupo em fazer o melhor. Essa era minha preocupação quando quis me tornar ator, não se ia dar certo. As coisas começaram a se solidificar, mas (com ênfase) nunca me deslumbrei. Porque estrelas estão no céu. Sempre contei que sou mais um, que não cheguei a lugar nenhum e que tenho de continuar nessa luta. Todo dia quero melhorar para agradar a quem confia em mim. Não vou esquecer nunca a aposta que fizeram ao me trazer, ao me dar todas as condições de crescer e ter uma família aqui. A história que eu já tenho com o Brasil será para a vida. 

 Com dois filhos nascidos aqui, como vê o momento atual do país? 
 Eu me preocupo como se fosse um brasileiro. Chega de esquema, de mentira! O Brasil é um país rico de matérias-primas, jovem, tem tudo para ser uma grande potência mundial. O que quero, não apenas como pai e cidadão, mas como um cara que se preocupa de verdade, é que se encontre uma estabilidade que leve o país para o lugar que ele tem de seguir.
FONTE/QUEM

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