sexta-feira, 24 de junho de 2016

Alexandre Avancini :
‘Um Moisés incorruptível dá esperança ao Brasil’
Por Leo Dias
 Do pai, ele herdou o sobrenome forte. E também o talento. Diretor geral da Record, Alexandre Avancini é responsável por boa parte do sucesso de ‘Os Dez Mandamentos’.
 Foi ele quem sugeriu à emissora uma novela bíblica. Também foi ele quem botou a mão na massa e deu a cara para bater na sequência em que Moisés (Guilherme Winter) abria o Mar Vermelho na primeira fase da novela. 
Hoje, a coluna dá voz a esse grande diretor, que comanda com mãos de ferro a segunda fase da novela e ainda vai estar à frente de ‘Terra Prometida’, que estreia dia 5 na Record.


 A que você credita o sucesso de ‘Os Dez Mandamentos’?
 Há vários fatores. Na primeira temporada, a escolha da história. E também tem o timing da trama: um Moisés incorruptível dá esperança ao Brasil, que está mergulhado em corrupção. A morte da Joquebede causou uma grande comoção na internet. 

Essa reação do público já era esperada?
 Ah, sim! Era uma das personagens mais queridas da trama. Sou fã de carteirinha da Denise Del Vecchio. Nós já temos uma parceria de três ou quatro trabalhos seguidos. É uma atriz de primeiríssima linha e o personagem, também forte, bem construído por ela. 

 Na primeira parte da novela, tinha uma expectativa muito grande quanto à abertura do Mar Vermelho. Qual vai ser o ponto alto desta segunda fase?
 Acho que essa reta final da novela toda está sendo de ponto alto, porque já começa com a rebelião de Corá, que é uma cena marcante. Daí para a frente são vários eventos culminando com a morte de Moisés e a disputa entre Deus e o Diabo. Essas cenas ainda vão ser feitas e envolve um número enorme de pessoas. Tem um arcanjo que vem disputar o corpo de Moisés. Até o último momento vão ter vários eventos na novela. 

 E como é que vai ser essa cena do diabo contra o arcanjo? 
A gente tem um desenho em storyboard, porque é uma cena muito importante para a Record. A gente segue muito a orientação da empresa para a conceituação dessa cena. Vai ser feita aqui no Rio. Vamos começar a trabalhar esta semana nessa cena porque vai ser bem complexa. 

 Existia um medo de que a abertura do Mar Vermelho não agradasse o público? 
Na realidade havia essa preocupação de entregar para o público uma grande sequência… Porque não é só o Mar Vermelho se abrir… Tem um exército egípcio, as colunas de fogo, tem a abertura e o fechamento do mar. Foi uma sequência muito grande e essa preocupação de ter uma sequência à altura da obra fez com que a gente finalizasse toda a computação gráfica lá fora. Foi uma equipe para a África agora para fazer ‘Terra Prometida’, cuja direção também é sua. 

Você é conhecido por estar presente sempre nessas cenas estratégicas. Por que, dessa vez, você não foi?
 Porque a carga de eventos aqui no Brasil ficou maior do que a viagem. Estou aqui gravando a rebelião de Corá, a queda da muralha… Porque o primeiro capítulo começa com o início da queda da muralha, que também demanda muita computação gráfica. Estava tudo certo para eu ir, mas resolvi ficar porque eu estou vivendo um momento de grande evolução. Você faz ‘Os Dez Mandamentos’, faz filme, vai fazer ‘Terra Prometida’, é casado com a atriz Nanda Ziegler. 

Como é o seu dia a dia?
 É bem puxado. Mas se fosse um trabalho completamente novo, seria mais complicado. Por ser uma continuação, com personagens até que passam de uma novela para a outra, fica mais fácil. Além disso, é uma equipe tão coesa que faz com que eu consiga tocar os dois projetos com segurança. 

 E tudo bem emendar um trabalho no outro? Você não tira férias? 
Então… Depois desses trabalhos, eu vou tirar férias. Quando me chamaram para fazer a ‘Terra Prometida’, não tinha a segunda fase de ‘Os Dez Mandamentos’, então eu ia tirar férias. Mas aí surgiu a novela e estou sem férias desde o fim de ‘Vidas em Jogo’, de 2011. 

 Quantas horas você trabalha por dia? 
No mínimo 12 horas. Às vezes, 15, 20, 22 horas… Depende. Já cansei de virar noite no estúdio até de manhã cedo e pegar externa no dia seguinte. Faz parte. Nada vai ao ar sem eu olhar. O capítulo que vai ser exibido à noite, eu assisto duas vezes: uma sem finalização de cor ou computação gráfica; e depois o capítulo finalizado. Seu pai, o diretor Walter Avancini, foi um grande mestre e é muito difícil um filho repetir o sucesso do pai. 

Você diria que seu talento é genético? 
Pra mim, ele foi o maior diretor dos últimos tempos. Eu cheguei a trabalhar com ele. Meu pai era impressionante! Um gênio! E eu não sou um gênio… Sou um diretor esforçado. Acho que nunca teve e nem nunca vai ter um diretor como ele. Se meu pai fosse para o cinema, ele certamente ganharia o Oscar, porque ele era genial. Aprendi muito com ele. 

 Mas teve comparação no início da sua carreira? Você sofreu preconceito por ser filho de quem é? 
Não, pelo contrário! Assim que chegamos em um set estava o Tarcísio Meira, que eu conhecia desde criança; a Regina Duarte, que o meu pai foi padrinho de casamento… Eu já fazia parte dessa patota. Eles olhavam para mim morrendo de rir e diziam: “Eu conheci você bebezinho, eu peguei você no colo”. 

 Por que você deixou a Globo e foi para a Record, já que você estava trabalhando com pessoas que você já conhecia? 
A Record foi uma porta de mais liberdade, eu tinha uma função na Globo, que era ser diretor geral. Quando eu vim para a Record, na verdade a função que eu tenho aqui é o que equivale na Globo ao diretor de núcleo. Na Globo, eu tinha um diretor acima de mim, me coordenando. Aqui, eu me tornei esse diretor, apesar de a nomenclatura não ser a mesma: aqui a gente assina como diretor geral. Estou tocando dois projetos agora, mas já cheguei a tocar três ao mesmo tempo. Quem sugeriu a Record fazer uma novela bíblica fui eu, e eles embarcaram na ideia. Eu tenho muita liberdade aqui dentro da emissora. 

 Você acha que estava engessado na Globo? É isso? 
Naquela fase da minha carreira, sim, porque não tinha nenhuma liberdade e não tinha a gestão absoluta criativa do processo como diretor. Eu vim para a Record correndo atrás de mais status e promoção. 

 Agora como é que você lida com o ego dos atores? 
Quando o ego está muito alto, eu falo: “Olha o ego!” O ator, com a consciência de que isso está acontecendo, rapidamente se acerta. 

 Mas aí você fala na frente de todo mundo, no meio da gravação? 
Não, tudo o que eu falo com eles, falo no cantinho… Marco uma reunião… Não falo na frente de ninguém. 

Tem algum ator com quem você não trabalhe? 
Não, nenhum. 

 O diretor pode dar pitaco na escalação dos atores, não é?
 Dizer “eu não gosto de trabalhar com aquele”? Não gostar não vale, porque é uma questão irrelevante. O importante é a questão artística. 

 Você é casado com uma atriz que estava na primeira parte de ‘Os Dez Mandamentos’. Sentiu algum preconceito com isso?
 Não, porque ela já era atriz antes de se casar comigo. Nanda é uma boa atriz, e eu trabalho muito em cima de testes para a novela. Moisés (Guilherme Winter) fez teste, Ramsés (Sérgio Marone) foi de teste, e ela também foi escalada por teste. 

 Você começou a dirigir em 1994. Como você vê a evolução na teledramaturgia brasileira?
 Eu acho que ela é lenta se comparar à dramaturgia mundial. A gente é defasado nos formatos, principalmente em telenovelas. A Record inova sempre. Quando a gente fez a novela bíblica, foi uma inovação. Acho que o Brasil ficou engessado em cima do formato da Globo durante muito anos, onde a dinâmica demorava para acontecer. Isso está mudando, mas muito lentamente. A qualidade técnica mudou mais rápido do que a qualidade de dinâmica de texto. 

 Você é a favor de casal gay na novela? 
Acho que se a dramaturgia pedir, sim. 

 Você acha que a Record um dia vai colocar um casal gay na novela?
 Não sei.

 Há uma preocupação com a concorrência? 
Não, eu faço o meu. Minhas referências são os filmes americanos e europeus. Faço o meu trabalho com calma e feliz. Não fico muito preocupado, não. 

 Você não tem aquele aparelho de medição do Ibope de minuto a minuto na sua casa? 
Tenho, claro! 

 Mas você olha? 
Claro, olho, mas isso também é uma avaliação do próprio projeto, o que funciona, o que não funciona com o público, entendeu? 

 Alguma atriz já se ofereceu para fazer o famoso teste do sofá em troca de um papel?
 Não, nunca! Eu sou paulista. Sou muito sério. Não dou espaço para esse tipo de aproximação. Não saio do set.

 Com o avanço do Netflix, você acha que as novelas tendem a cair em desuso? Você acha que a série pode dominar o mercado? 
Não sei. O mercado está mudando. Talvez… O mercado no Brasil é mais lento. Lá fora já está mudando bastante. Aqui no Brasil ainda vai demorar um pouquinho.

FONTE/ODIA

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