terça-feira, 28 de junho de 2016

Ana Maria Braga relembra situação de assédio: 
"Quebrei o braço"
 Em depoimento inédito, uma das mais respeitadas apresentadoras da TV brasileira faz um desabafo que serve como alerta às mulheres que sofrem em silêncio e não denunciam assédio 

Por Valmir Moratelli 
 No momento em que se discutem leis mais rigorosas para quem comete qualquer tipo de violência sexual contra mulheres, uma das apresentadoras de maior credibilidade no país revela que já foi vítima de assédio moral e sexual.
 Ana Maria Braga conta com exclusividade a QUEM de que forma lidou com as investidas de um homem com quem trabalhava na extinta TV Tupi, de 1977 a 1980. 
“Quando comecei lá (aos 28 anos), sofri preconceito. Naquela época, a maioria das mulheres que trabalhava em TV era considerada presa fácil”, relata.
 Em um dos episódios, ao fugir do agressor, caiu da escada e quebrou um braço. 
 Ana Maria Braga abre sua cobertura no Rio e admite ser mandona nos relacionamentos.
 O assunto ganha contornos ainda mais fortes desde que, nas últimas semanas, ruas e redes sociais foram tomadas por campanhas que exigem medidas para coibir a violência contra a mulher.
 Os manifestos foram motivados pelo estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos no final de maio, no Rio de Janeiro.
“Sempre acham que a culpa é da agredida. É difícil quebrar a cadeia do machismo burro e absoluto”, analisa Ana, em sua sala atrás dos estúdios do Mais Você, programa que apresenta há 17 anos, nos Estúdios Globo, no Rio.
 Com a mesma sinceridade com a qual, em dezembro, revelou que se recuperara de um câncer no pulmão direito, a apresentadora agora faz esse desabafo como alerta a tantas mulheres que se calam diante da violência masculina.
“Aprendi com a vida que o meu passado é composto da escolha que faço todo dia na hora em que acordo”, diz.
 EMPODERAMENTO
 “A sensação que tenho é que a palavra ‘empoderamento’ assusta muito aquela mulher lá do interior do país que não sabe o que é isso. Há uma exclusão. Em muitos lugares, as mulheres ainda são submissas, nunca trabalharam fora e, por incrível que pareça, são em grande número. Esse sistema paternalista que existia na época do meu pai, por exemplo, ainda não foi rompido.”

 PRECONCEITO
“Quando comecei lá na TV Tupi (em 1977, aos 28 anos), sofri preconceito, sim. Era uma TV totalmente diferente desta com os executivos de hoje. Naquela época, a maioria das mulheres que trabalhava em TV era considerada presa fácil. Era um meio mais liberto do que a sociedade normal, por haver artistas, cantores... Para você galgar algumas posições dentro da hierarquia do lugar onde se trabalhava... Eu recebi muitas propostas, tipo: ‘Te dou tal coisa se você me der tal coisa’. Não foi diferente à regra.”

 ASSÉDIOS
 “Sofri assédio moral e sexual em várias situações. Aconteceram situações de partir para o pessoal mesmo, para o físico, e outras só de sugestão. Tipo, no fim de uma reunião: ‘Vamos jantar?’. E você tem a proposta de ser uma estrela, a Hebe Camargo da vida! Isso já existia. E não foi só meio de TV. Porque já trabalhei em grandes empresas também.”
 CHORO
 “Tenho uma desilusão muito grande que tem relação com um trabalho. Nessa ocasião pedi para apresentar um projeto de um produto que eu queria. Aí falaram: ‘Escreve o projeto e tal...’. Escrevi toda a ideia, explicando que programa era aquele. Tive um trabalho danado para descrever as ideias que queria colocar em prática e aí, quando fui entregar, ele não olhou o que eu tinha escrito e fez a proposta (pausa)... ‘Isso aqui está aprovado’. Sem ler! Enfim... Me pediu algo em troca. Aí você chora bastante sozinha, e tem duas opções: ou atende a isso e vira amante do infeliz, o que não vai ter um caminhar muito bom, porque aquilo acaba; ou realmente briga para achar um caminho de verdade.”

 FUGA
 “Para você ter uma ideia, eu saí correndo, porque o cara tentou me agarrar... Eu saí correndo! Estava no 12º andar e havia duas entradas. Ele tinha trancado a porta de entrada da secretária e eu não tinha percebido... Quando bati lá e não consegui, não tinha chave, fui para uma outra sala – que eu não sabia, mas era uma copa que dava em outra porta e, desabalada, rolei escada abaixo do 12º, do 8º para o 7º... Caí de pernada, quebrei o braço e fui bater na porta do Severino, que já morreu e era diretor comercial da TV Tupi. Quebrei o braço.” 
CONSEQUÊNCIAS
 “Eu corri e continuei empregada. Obviamente não com o projeto que eu tinha levado... O sujeito era dono da casa, não tinha o que fazer. A criatura nunca mais falou comigo. Sabe que encontrei esse infeliz tempos depois num rodeio em São Paulo? Depois de muitos anos, eu tinha saído da televisão, era executiva em uma editora, e dei de frente com ele. E quem não deve não teme. Eu fui para cumprimentá-lo e ele saiu... O que se ganha na vida? O poder de se olhar o outro (ela faz o gesto dos pés à cabeça). Ele não mudou nada. Era um cafajeste e não mudou coisa nenhuma.” 

 TRAUMA
 “Você tem que saber quem você quer ser quando crescer. É preciso saber para onde quer ir e ter força para dizer ‘não’ ao fácil. A gente vê um monte de meninas jovens que vêm do interior, que fazem USP e de repente chegam a São Paulo... A vida é muito difícil para as pessoas que não têm família abastada e acabam morando em pensionato para estudar. Às vezes, as facilidades são apresentadas por colegas. ‘Em vez de você ficar aí que nem doida que não consegue comprar sapato ou comer direito, por que não faz faculdade de manhã e sai comigo de noite?’ Isso existe!”

 MACHISMO
 “Sempre acham que a culpa é da agredida, um monte de gente pensa assim. Tive uma discussão nesse final de semana com uma pessoa, um típico macho alfa, por causa desse caso (do estupro coletivo de uma jovem no Rio). Ele falou: ‘Mas também, né, ela vive lá na favela...’. Eu falei: ‘Aqui, não! Você não vai falar um negócio desses. Ela pode ser mulher da vida, puta, pode ser o que for! Mas nada permite que alguém faça sexo sem o consentimento dela. Isso é estupro!’. Aí a figura engoliu seco, mas não pense que concordou com o que eu disse. Ele continua pensando do jeito dele... É por isso que há esse comportamento desses moleques aí fora, deviam ter pais assim. É reflexo de uma educação errada. O filho dessa pessoa que mencionei agora vai ser igual. O pai transfere a energia. Quando está com o moleque e sai na rua, fala: ‘Olha aquela gostosa lá!’. É difícil quebrar a cadeia do machismo burro e absoluto.”

IGUALDADE
“Há também aquela mulher que foi conseguindo mais consciência, ao lado da família e do marido. Porque a vida está cada vez mais difícil para os homens também. A mulher percebeu que o homem não é tão poderoso assim quando, por exemplo, não admite suas fraquezas com relação às adversidades que a economia brasileira atravessa.”

 SALÁRIO
“Por muitos anos as mulheres precisaram provar três vezes mais que eram capazes para poder ganhar um salário 20% menor. Hoje, ainda brigamos em algumas áreas para conseguir um salário igual.”

 APRENDIZADO COM A VIDA
 “Aprendi que se vive um dia de cada vez e que eu é quem escolho como vai ser meu dia, todo dia! E o meu passado é composto da escolha que faço todo dia na hora em que acordo.” 

APRENDIZADO COM OS FILHOS
“Aprendi que não sou mãe (de Mariana e Pedro, do casamento com o economista Eduardo de Carvalho), que nunca fui mãe na vida depois que vi minha filha ser mãe. A maior lição de mãe que recebi da vida foi da minha filha. E digo para o meu filho que ele tem pelo menos 80 anos a mais que eu. Sou uma criança ao lado dele. Aprendo com ele todo dia: ele é de uma placidez, uma calma diante da vida, uma pessoa que só tem bem. Ele tem uma aura diferente.” 

 APRENDIZADO COM OS NETOS 
“Hoje em dia me exercito com meus netos (Joana, de 4 anos; Bento, de 3; e Maria, de 10 meses), fazendo ginástica correndo atrás deles (risos)! É o milagre da renovação da vida. Percebo que tenho de estar bem de saúde para poder ter neto! Esse negócio de ter neto não é fácil (risos), tenho que estar bem! Não pode não pegar três sacos de arroz de 5 quilos... Tenho que estar ativa.”

 AMOR
“O meu namorado americano (o piloto Bill) falou: ‘Olha, você precisa fazer um exame porque fuma demais.’ E aí fiz check-up. Ele queria ter certeza de que podia investir em mim, que eu não ia morrer tão cedo (risos)! ‘Vai que estou perdendo tempo com essa moça?’ (Foi quando ela descobriu um câncer em estágio inicial no pulmão direito e logo operou, em 2015). Ele mora em Seattle, nos Estados Unidos. Ah! Tem skype todo dia. A gente compensa. De vez em quando, fujo para Nova York, aí fica na metade do caminho. Ele vem para cá sempre. É namoro virtual.”

 TELEVISÃO
 “O grande segredo de se fazer televisão hoje é falar a verdade. O Brasil é muito carente de informação. E falo de coisas do dia a dia. É um país com alto índice de analfabetismo. O que faço é prestação de serviço, de informação e curiosidade. Acho que, graças à alegria de fazer o que gosto, o programa se mantém atual.”

FONTE/QUEM

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