sexta-feira, 17 de junho de 2016

Mauro Mendonça sobre Rosamaria Murtinho: 
"À primeira vista, deu um clique"
 De volta à TV como Inácio de Êta Mundo Bom!, um dos mais experientes atores do País explica por que fez inimizades no início da carreira, fala de seu interesse por astrologia e exalta seu casamento de 56 anos com Rosamaria Murtinho 

Por Carla Neves
Mauro Mendonça encontrou na astrologia a explicação para sua personalidade impulsiva. 
“Sou ariano com ascendente em touro e lua em libra”, justifica o ator, de 85 anos, que está de volta à TV, após quatro anos, como o banqueiro sovina Inácio Xavier de Êta Mundo Bom!, trama das 6 da TV Globo. 
Casado há 56 anos com a atriz Rosamaria Murtinho, de 80, ele diz que está bem mais racional hoje do que no passado, quando fez muitas inimizades por falar e agir sem pensar.
 “Certa vez um colega me disse que quando eu estava chegando numa roda, já diziam: ‘Lá vem o Mauro Mendonça’. 
Eu era impulsivo e agressivo. Quando me mudei para o Rio, me reeduquei. Deu trabalho, mas consegui”, celebra o mineiro, da cidade de Ubá. 
 Há mais de cinco décadas na TV e no teatro, Mauro relembra saborosas histórias do início da carreira. Como o dia em que conheceu a mulher.
 “Uma atriz do espetáculo, ex-colega, torceu o pé. Tiveram que arranjar uma substituta. Quando boto o olho nela, é a Rosamaria! E faz ‘tóin’. 
Ela também disse que fez ‘tóin’. Foi recíproco. À primeira vista, deu um clique”, afirma, aos risos. E as coxias do teatro, conta, ferviam! 
 Ser o caçula de sete filhos ajudou o senhor a ter mais liberdade para seguir a carreira artística? 
 Um autor inglês, psicólogo, de quem não me recordo o nome, dizia que os caçulas e filhos únicos viram artistas porque são o centro das atenções. É uma forma de continuar chamando atenção na vida adulta. Acho que tem a ver. Já fiz uma pesquisa e vi que a maior parte dos artistas brasileiros era ou é caçula. 

 Mas como surgiu seu interesse pela carreira? Nunca pensou em fazer alguma outra coisa? 
 Não. Foi através da minha paixão pela (atriz americana) Shirley Temple (1928-2014). Ela era uma garotinha fofa, bonitinha, que usava um cabelinho cacheadinho. Era uma graça! Todos os atores que contracenavam com ela sumiam. Só ela aparecia. E a criançada era apaixonada por ela, inclusive eu (risos). Depois ela virou embaixatriz dos Estados Unidos e não continuou a carreira. Aliás, pouquíssimos garotos e garotas prodígios continuam com a mesma profissão na vida adulta. 

 Quando o senhor começou a atuar? 
 Eu fazia muita imitação e sempre inventava brincadeiras, era criativo. Aos 15 anos, em 1946, a casa da minha família em Ubá, Minas Gerais, foi vendida e viemos morar no Rio. Só em 1951, quando eu tinha terminado o clássico e estava me preparando para o vestibular de Direito, vi que não queria ser advogado. Queria ser ator. Entrei para a escola do Serviço Nacional de Teatro e, em 1955, já estava no elenco do Teatro Brasileiro de Comédia. 

 Como seus pais reagiram a sua escolha? 
 Ah, minha família rejeitou a ideia! Naquela época sujeito artista era boêmio, malandro ou veado. Não era gay nem homossexual, não; era veado – palavra da pesada. 

 Mal sabia ele que seu sonho era encontrar uma Shirley Temple... 
 Verdade! Tinha o sonho mesmo de encontrar uma Shirley Temple da vida. Encontrei a Rosamaria (risos)! Mas ela não era uma Shirley Temple. Ela já era a (americana) Rita Hayworth, a (inglesa) Olivia de Havilland, atrizes do cinema da época. 

 Como foi seu encontro com a Rosamaria? 
Antigamente o teatro era de terça a domingo. E lotava. Fui muito mal-acostumado. Isso significava fazer sucesso. Fui para São Paulo encenar uma peça chamada Rua São Luís, 27 - 8º Andar, do Abílio Pereira de Almeida. E uma atriz do espetáculo, ex-colega, torceu o pé. Olha a mãozinha do destino! Tiveram que arranjar uma substituta. Aí chega o Abílio com uma gata. Quando boto o olho nela, é a Rosamaria! E faz “tóin”. Ela também disse que fez “tóin” (risos). Foi recíproco. À primeira vista, deu um clique. Até o Raul Cortez disse: “O Mauro vai namorar essa garota”. E era um Deus nos acuda na coxia! Acho que não foi uma nem duas vezes que nós atrasamos a entrada (risos). A gente estava namorando lá atrás, enquanto o início do espetáculo era atrasado por culpa nossa. E lá se vão 56 anos juntos... 

Dizem que a Rosamaria tem gênio forte. É verdade? 
Ela é escorpião. Tem gênio forte e eu também. Mas como no período em que eu vivia em São Paulo fiz muita inimizade com os colegas, mudei. Certa vez, um colega me disse que quando eu estava chegando numa roda, já diziam: “Lá vem o Mauro Mendonça”. Eu era impulsivo e agressivo. Quando me mudei para o Rio, me reeduquei. Deu trabalho, mas consegui.

 O que fez para mudar? 
 Espiritualidade, terapia, cabeça e foco num objetivo saudável, que é conviver em paz numa peça, num elenco. Rosamaria e eu somos regidos por Marte. Meu ascendente é touro, com lua em libra. Está valendo o ascendente, que é mais racional. Porque o ariano é impulsivo. 

 O senhor se interessa por astrologia?
Gosto de brincar. Já tentei fazer astrologia. Mas tinha que estudar trigonometria. Então desisti. 

 Tem alguma crença? 
 Creio em Deus e em Jesus. Há muitos anos, andava com problema de taquicardia e, por sofrimento e necessidade, fui com um amigo a um centro espírita. Rosamaria também frequentava uma reunião que ela chamava de psicoterapia espiritual. Era algo primitivo: uma mesa, duas senhoras. Elas iam respondendo através do abecedário, como Allan Kardec. Certa vez, nessa reunião, uma vidente disse que havia uma pessoa parecida comigo, de branco, de óculos e dizendo que gostava dos netos. Não conheci meu pai. Mas ele estava lá. E me mandou uma mensagem: para eu ter cuidado com os lugares que frequentava. Era a época da revolução e nas reuniões da classe artística só se falava em política. Era a esquerda atuando. A Ruth Escobar fez uma peça do Zé Celso, Roda Viva, e o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) quebrou o teatro e muita gente foi parar no hospital. Meu pai tinha razão. 

 O senhor e a Rosamaria chegaram a se separar por oito anos... 
Demos um tempo. Ficamos separados em termos. Só de corpo. Porque as despesas continuaram iguais (risos). Além de ter só irmãos, o senhor teve três filhos homens. 

Como é viver em um universo tão masculino? 
 Sou realmente do Clube do Bolinha! Tenho três filhos (o produtor musical João Paulo, o ator Rodrigo Mendonça e o diretor da TV Globo Mauro Mendonça Filho) e não tive irmãs. Mas tenho quatro netas. São as compensações da vida. Nos bastidores da TV e no convívio diário, o senhor é conhecido hoje por ser um ator sempre otimista com o futuro. 

De onde vem toda essa força? 
 Olha, santo ninguém é! O Chico Xavier contou certa vez que ele estava viajando e o avião começou a trepidar. Ele fez um escândalo. De repente, viu uma entidade que falou: “Para com essa gritaria, pensa nos outros, nos seus companheiros. Você está colocando medo neles. Se morrer, morre com educação” (risos). Devemos ter consciência da morte. Porque uma coisa é certa: não só na biologia, como na botânica, tudo nasce, cresce, envelhece e falece. Ninguém escapa disso. Tenho um primo que me disse o seguinte quando meu primeiro irmão morreu: “Árvore que tem muitos galhos é assim, vai o primeiro galho e depois vão os outros”. Eu disse: “Vira essa boca para lá. Só sai morcego daí!” (ele gargalha).

FONTE/QUEM

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