quarta-feira, 22 de junho de 2016

Padre Fábio de Melo sobre assédio de admiradores: 
"Existe muita fixação"
 Em rara exceção, padre aceitou conceder entrevista para QUEM, na qual fala de tudo - até dos pecados da gula e da ira 

Por Valmir Moratelli
 Oito assessores chegam com o padre Fábio de Melo a esta entrevista. Ele nunca sai sozinho. De cinto Hermès e camisa com corte bem ajustado ao corpo, o religioso não gosta de fotos.
 “Parece que me arrancam a alma”, explica, enquanto se senta em uma sala de cinema vazia, no Rio, local marcado para o encontro com QUEM. 
 Sucesso nas redes sociais (1,4 milhão de seguidores no Instagram, 2,13 milhões no Twitter e mais de 2 milhões no Snapchat), autor de 13 livros e intérprete de 19 CDs, Fábio é um fenômeno de repercussão. Ele fala fulltime na web.
 “Acredito que assim me aproximo mais das pessoas”, diz. Caçula de oito filhos de pai pedreiro e mãe lavadeira, vindo de Formiga (MG), o clérigo conta que sempre sofreu influências musicais. “Cresci com o rádio ligado.
 Minha mãe lavava roupa no rio. Era tradição o canto das lavadeiras”, recorda ele, que no recém-lançado DVD Deus no Esconderijo do Verso, gravado no Theatro Municipal do Rio, canta canções populares e chega até a sambar. Apesar do séquito sempre a tiracolo e das vantagens trazidas pela fama, o padre frisa: “Não tem glamour na minha vida pessoal”. 
 O seu trabalho parece uma evolução dos padres carismáticos dos anos 2000, que faziam “show-missas” na TV. O senhor sabe como poucos utilizar a web para falar com os jovens. De que forma seguidores das redes sociais se refletem em fiéis para a Igreja Católica? 
Olha, acredito que a mídia social me permite estabelecer vínculos inusitados. Tenho a oportunidade de falar com pessoas que nem sempre parariam para me ouvir como padre, é uma chance de falar com os diferentes. Por isso o formato que escolhi me comunicar nas minhas mídias é o mais leve. Acredito que assim me aproximo mais das pessoas.

 E acha que consegue alcançar seus objetivos? 
 Percebo resultado positivo dessa proximidade, sim. Engraçado, hoje encontrei uma senhora e ela falou: “Desculpe, mas parece que eu o conheço, que sou sua amiga”. Isso é interessante! Noto que já existe uma cumplicidade, uma parceria estabelecida, que foi proporcionada pelas mídias sociais. 

 Quando surgiu o apelido “irmãs francisquinhas”, com o qual senhor se refere a suas seguidoras? 
Brinco que elas são as delegadas francisquinhas, que fazem questão de fiscalizar minha vida. É uma brincadeira. Não me importo! 

 O senhor entende que esse assédio é parte natural da exposição gerada pelo trabalho como cantor ou isso o chateia de alguma forma? 
Olha, quando a curiosidade extrapola o que acho justo, aí coloco limites. O assédio é virtual, uma brincadeira, levo de boa. Não me incomoda. O que prezo é que, no trato pessoal, haja respeito. 

 Que cuidados precisa ter no dia a dia? Recentemente houve o caso de um homem que tentou matar Ana Hickmann... 
Tenho um agravante! O meu não é rede social, é presencial. Já experimentei e experimento algumas pessoas que estão em todos os meus shows, fazem questão de ficar nos mesmos hotéis, já tive que procurar a polícia. Representa um risco iminente, tenho que tomar providência. Existe muita fixação. E sou padre, não posso ficar blindado. Separar os loucos fanáticos das pessoas bem intencionadas, que querem apenas um encontro com o padre Fábio, é muito difícil.

 Como é essa fixação? 
Há de tudo! Tem pessoas que ficam acampadas na porta da minha casa, que querem comprar a casa ao lado... Particularmente não tenho medo, as pessoas que ficam comigo têm mais medo do que eu. Tenho uma regra de vida: só deixo cair no meu quintal a chuva boa. Se é uma chuva ácida, para que vou conviver? Tenho respeito muito grande por mim. O autorrespeito é essencial para ser quem eu sou. Se permito o desrespeito, eu corroboro. Uma frase sua dita em um vídeo repercutiu muito na internet: “Se passar um morcego voando, já cato e sangro no dente de tanta fome que tô”.

 O que o faz se entregar ao pecado da gula, padre?
(risos) E olha que nem sou guloso, é mais a linguagem do exagero mesmo. Nesse dia eu estava com muita fome! Mas respondendo a sua pergunta: tem um sorvete que é produzido só em Belém, se chama Cairu, mistura de tapioca e açaí. É um veneno (risos)! Em outro vídeo, o senhor disse: “Tem gente que consegue ser efusiva às 6h da manhã. Não é fácil de lidar”.

 Pessoas eufóricas lhe causam ira? 
 Euforia antes das 10h é difícil de lidar! Mas esses desabafos que eu tenho, ah... Fazem parte da vida (risos).

Há um refinamento em seu trabalho, todo um aspecto intelectual por trás. Fale um pouco da realização desse novo DVD. 
Na verdade é mais do que um apanhado de músicas, é uma experiência teológica. É uma reflexão que tenho feito há muito tempo. Encontro na música um respaldo para aquilo em que acredito. Tenho muito medo do rótulo de padre cantor.

 Por quê? 
Porque sou muito mais do que isso. Primeiro porque me preparei muito para ser padre, estudei 16 anos, me empenhei, sou professor universitário e não quero usar a arte como escudo para me proteger. Uso a arte para me expor. 

 De onde vem a relação com a música?
Nasci em uma família musical, cresci com o rádio ligado. A família da minha mãe tem muito músico. Ela sempre falava de um tio maestro, um bom instrumentista de sopro. Meu pai era violeiro, trouxe cultura popular para casa. Minha mãe, até os 32 anos, quando nasci, lavava roupa no rio. Era tradição das mulheres o canto das lavadeiras. Trago a influência popular na minha musicalidade. 

 O senhor termina o DVD sambando ao som de “O que é, o que é”, de Gonzaguinha. Por que escolheu essa letra? 
Trabalhei no Carnaval durante quatro anos. Em Formiga, onde morava, meu cunhado era mestre de bateria. Eu ajudava na confecção dos carros alegóricos. Carnaval e samba estão na minha vida desde menino. Essa música é uma síntese de coisas boas que prego.

 Quando a celebridade que dá autógrafo, a que tira selfie com fã, entra em conflito com o padre? Existe isso? 
A palavra nem é tanto conflito, é um desconforto, porque preciso buscar esse eixo, colocar as engrenagens no lugar. Senão me perco no direito de ser quem sou. A arte é irrenunciável em mim, não tenho como negar a dimensão artística do meu trabalho, mas preciso o tempo todo reivindicar o direito de ser padre, de ser humano, de ser uma pessoa que se cansa, que perde a paciência, a disposição, justamente quando sou violentado no meu papel. Mas, geralmente, dá certo. Faço como Jesus: pego o barquinho e sumo. 

 É fácil sumir, mesmo com toda exposição?
É, é fácil, vivo num contexto de muita simplicidade, no qual as pessoas me protegem muito. A minha vizinhança me protege, isso é bom. Vivo com pessoas simples no meu dia a dia, não tem glamour na minha vida pessoal. Só tenho tratamento especial em eventos. 

 O que o senhor adoraria fazer e não consegue? 
Andar na rua (risos)! Ir à padaria, sem precisar ficar fazendo mil fotografias. Foto se tornou invasiva. O tempo todo querem tirar foto. Desde menino, nunca gostei de foto. Parece que me arranca a alma. E a experiência de todo mundo estar sempre com uma câmera facilita a relação “objetal”. Quando percebo que aquilo está apenas a serviço de “olha, preciso alimentar minha rede social e você está aqui, vou tirar foto”... Ah, tem pessoas que nem me cumprimentam!

 O senhor diz “não”? 
Não, não... Eu tiro, sou paciente. Só não perco o direito de refletir sobre isso. Mas veja, faço atividade física, então nas viagens, sempre dou um jeitinho de malhar. Uma vez percebi que uma senhora tirava foto de mim como se eu fosse uma praça! Me aproximei: “Minha senhora, tirar uma foto comigo é uma coisa. Mas ficar fotografando minha presença na academia como se fosse um direito, não! Eu não sou uma praça pública para a senhora fotografar. Isso é deselegante!”. Ela ficou assustada. O país enfrenta uma crise econômica e política. 

De que forma a religião pode colaborar? 
Imprimindo caráter nas pessoas. Se sou cristão, preciso ser honesto. Os valores fundamentais do cristianismo sempre facilitam a vida social.

FONTE/QUEM

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