sexta-feira, 30 de setembro de 2016

 Luci Pereira:
 "Mulher nordestina enfrenta o mundo” 
 Sucesso como a índia ceci de Velho Chico, a atriz paraibana relembra a infância humilde em Campina Grande, revela seu lado sensitivo, semelhante ao de sua personagem, e diz que não sente falta de um companheiro 

Por Filipe Isensee
 Disposta desde cedo a se tornar atriz, Luci Pereira, ainda garota, se enfeitava como as mulheres das fotonovelas já pensando nas belezas da profissão. 
Naquela época, morava em um bairro pobre de Campina Grande (PB) e era apaixonada também pelos folhetins televisivos. 
Seus pais, no entanto, não tinham condições de comprar uma TV. 
Para não perder os capítulos, ela aceitava varrer e lavar a louça na única casa de sua rua em que havia um aparelho. 
A vontade de menina se tornou realidade e, aos 13 anos, começou a atuar no teatro. 
“Acho que se nasce para cada função”, filosofa a paraibana, que hoje, aos 57 anos, recebe muitos elogios por sua índia Ceci, de Velho Chico, e se sente realizada ao lado dos filhos, Priscila, de 30, e Polyan, de 27, e do neto, Gabriel, de 5.
 “Estou bem melhor comigo mesma”, avalia. 
Durante a conversa com QUEM, nos Estúdios Globo, Luci revela que, assim como sua personagem, tem um lado sensitivo bastante apurado: 
“O que eu tenho mesmo é uma fé muito grande, acredito na vida após a morte e que existe alguém acima de tudo”.
  Ceci é uma personagem sensível, com espiritualidade forte, mas que carrega um sofrimento. Há pontos de encontro entre vocês? 
 Quem me conhece sabe que vejo e ouço coisas. Alguém sopra no meu ouvido e depois de uma semana aquilo acontece. Certa vez, falei para o meu filho não sair de carro, mas ele saiu e bateu. Senti que ia acontecer alguma coisa, me deu uma vontade de chorar que eu não sabia de onde vinha! Ele não sofreu nada, mas o carro ficou tão amassado que foi rebocado. Entro numa casa, olho, sinto e digo: “Não vou ficar muito tempo aqui”. E não fico. 

 É um sexto sentido? 
É como se fosse. Tenho isso desde pequena. Já fui da igreja evangélica e participei do kardecismo. Mas o que eu tenho mesmo é uma fé muito grande, acredito na vida após a morte e que existe alguém acima de tudo. A vida é impressionante e preciosa. É um mistério. Faço teatro desde os 13 anos, você imagina quantas mulheres eu já fiz... Será que já não fui essas pessoas em outras vidas? Sempre fui muito curiosa (risos). 

 Foi a curiosidade que a levou a ser atriz? 
 Acho que se nasce para cada função. Venho de uma família humilde, sem artistas, e a gente nem tinha TV. Eu vestia roupa de gente grande e pintava o rosto com coisas que encontrava no mato. Minha família colhia produtos na roça e trocava por revistas. Eu via as fotonovelas e queria ser como aquelas atrizes. Gostava de participar dos dramas que eram feitos na igreja. Minha primeira paixão foi Regina Duarte. Na rua onde eu morava, só tinha uma casa com TV, mas eu só podia assistir depois de lavar os pratos ou varrer a casa. Depois, a dona da casa ligava a TV: “Pronto, você pode assistir, mas não é para ficar conversando” (risos). Quando eu voltava para a minha casa, queria ser a Regina. 

 Já contou isso para a Regina? 
 Sim. O João (Gomez, filho da Regina) contracenava comigo em Amazônia, de Galvez a Chico Mendes (2007) e sabia dessa história. Um dia, de surpresa, ele levou a mãe ao estúdio! Foi uma emoção tão grande... É privilegiada a pessoa que tem chance de ser ator. Por incrível que pareça, meus bisavós (Severina e Virgulino), que não tinham estudo, tiveram cabeça para aceitar como eu era. Em nenhum momento me impediram de nada. Muito pelo contrário. 

 Você foi criada por seus bisavós. Por quê? 
 Minha mãe tinha 15 anos quando eu nasci e me deixou na porta da minha bisavó. Meu pai continuou em Campina Grande. A partir daí foi uma sequência de tragédias. Meu pai foi encontrado morto dentro de casa. Minha mãe viajou para o Rio muito nova e teve cinco filhos com um homem mais velho que depois a matou. Mas eu não sabia de nada disso. Pensava que meus bisavós eram meus pais de verdade. Me criaram de forma muito humana, mas humilde, me ensinando o que é certo. . 

Você perdoou a seus pais? 
 Não tenho a quem perdoar porque não julgo ninguém. O que eu achava estranho era que, em dia de reunião na escola, via os pais de meus colegas mais jovens. Eu pensava: “Minha mãe é tão velha”. Imagine, ela começou a me criar com 55 anos. Um dia, um primo me contou a verdade e fui perguntar: “É por isso que você é velha, né?”. Ela começou a chorar e me disse tudo. A gente vê tantos pais criando os filhos com sacrifício e sem abandoná-los que eu me perguntava por que fizeram isso. Não é fácil parar para pensar, mas não tive essa paranoia de cair em depressão.  
Com essa trajetória, como foi ser mãe?  
Eu mato e morro pelos meus filhos. Até hoje, são como se fossem bebês. São filhos de pais diferentes, mas os dois nunca me deram nada. Fiz de tudo para sustentá-los sozinha. Só não roubei, mas, se fosse para dar de comer, roubaria. Depois que me separei do pai do meu filho, nunca mais tive ninguém. Prefiro criá-los só. Mulher nordestina enfrenta o mundo.

 Numa cena de Velho Chico, Ceci contou a Beatriz (Dira Paes), sua filha, sobre o passado de violência. Esse sofrimento se conecta com sua história. Como atriz, foi difícil reviver isso? 
Sofri muito com meu primeiro marido. Quando li a cena, disse para a Dira: “Isso é minha vida”. Precisei me controlar, porque estava passando por aquilo de novo. Apanhei e não conseguia fazer nada. Eu aceitava, não conseguia revidar. Quem era eu contra um homem? Ou você vai agredir de uma forma que tire a vida da pessoa ou se esconde, que foi o que eu fiz. Me escondi de vergonha da família, dos amigos e de mim mesma. 

 O que lhe causou mais sofrimento?
Perdi três filhos, os três com esse mesmo marido, por causa da violência. Você perdoa e tem pena. Só. Não tem como você chegar e dizer: “Ah, melhore seu comportamento”. Ele não vai melhorar, não vai acontecer. 

 Como você conseguiu sair dessa relação? 
 O teatro. Eu voltei a fazer teatro com tudo. Aos poucos, minha vida foi seguindo, busquei ser feliz de novo. Voltei a fazer o que eu deixei de viver. Até ele entender que eu não queria mais o relacionamento. 

 E hoje, sente falta de um companheiro? 
 Não, imagina. Eu chego em casa e encontro um neto por quem eu morro de paixão. Tenho também uma oficina onde faço minhas bolsas com temas nordestinos. Entro naquela oficina e me esqueço do mundo. Sou muito bem resolvida. Já apareceu pedido de casamento, mas não quero. Ninguém manda mais em mim! Saio quando quero, visto o que quero, durmo a hora que quero. Estou bem melhor comigo mesma. Vou ter carência de quê? 

 Está curtindo o sucesso de sua personagem em Velho Chico? 
Estou amando! A Ceci tem muita luz, é uma mulher que tem uma sabedoria enorme, vinda da tribo, da família, da natureza. Ela se criou no convívio dessa aldeia. Imagine o leque de riqueza. Ela vai ajudando todo mundo. Acho que a Ceci não me foi dada à toa. Tem muitas coincidências, até mesmo na minha vida pessoal. Eu sou muito como a Ceci. Gosto de ajudar as pessoas também. E além disso, ela é uma mulher forte e guerreira e lutou muito pelos filhos – como eu.

FONTE/QUEM

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