sábado, 15 de outubro de 2016

 Prestes a morar sozinha, Bruna Marquezine fala sobre independência e exposição 
No papel de Lurdinha, em 2012, atriz questionou a fama e pensou em desistir 

 Por Talita Duvanel
Bruna Marquezine pega o celular, toda orgulhosa, para mostrar um vídeo no Youtube.
Nas imagens, uma menininha de 5 anos, rostinho redondo e cabelos anelados, fala sobre a saudade do pai, que “foi trabalhar em outra cidade”, e sobre a mãe, “que até reza pra ele voltar”.
 A história, que na verdade é um comercial da Polícia Militar de São Paulo sobre suicídio, no ano 2000, foi a primeira vez de Bruna com uma câmera. 
Desde então, já são 16 anos de contato quase diário com ela, a tal da câmera, que testemunhou a transformação da pequena Salete, de “Mulheres apaixonadas” (2003), em uma das mulheres mais desejadas e comentadas do país.
Essa mesma câmera pôde ver Bruna nua, na cama com o ator Daniel de Oliveira, na primeira cena de sexo de sua carreira, na série “Nada será como antes”, exibida toda terça na TV Globo.
As imagens ganharam a Internet e fizeram de Bruna trending topic da semana.
 A atriz e sua assessoria preferem não falar sobre o assunto porque, como ela mesmo disse nos bastidores desse ensaio, dias antes do vazamento, difícil mesmo é construir uma mulher como Beatriz.
 — As pessoas dão valor a isso (à sensualidade, às cenas de sexo e à relação homossexual que será vivida com a atriz Letícia Colin), mas eu prefiro olhar de outra maneira. 
É muito mais difícil fazer com que as pessoas acreditem em todas as histórias de amor em que ela se envolve — diz Bruna, frisando que esse é o momento mais desafiador de sua carreira.
 E não foi só no trabalho que Bruna aproveitou os 21 anos para sair da tal zona de conforto em que ela acredita ter estado. 
A jovem adulta está prestes a fechar as malas e sair da casa dos pais. Comprou um apartamento com seu próprio dinheiro e convenceu a mãe de que era hora de criar asas e voar ainda mais alto.
 — No início foi bem complicado, sou a primeira filha (Bruna tem uma irmã mais nova). Ela acha que posso sofrer, e tenho certeza que vou.
E é isso que quero: amadurecer e crescer. Não que ela não saiba se virar. A voz é doce, o rosto ainda é de uma adolescente (um parênteses para o poder da maquiagem, que consegue a transformar num mulherão), mas as opiniões são fortes e pouco afeitas a conselhos. 
Se você sugerir a Bruna que assuma logo a volta da relação com o jogador de futebol Neymar, uma das grandes especulações da imprensa de celebridades desde a final de futebol na Olimpíada, quando ele saiu de campo e foi abraçá-la na arquibancada, ela vai bater o pé.
 — Muita gente sempre me disse: “quanto mais você preservar, mais as pessoas vão querer saber”.
 Mentira. Enquanto vender, enquanto der clique, as pessoas vão querer sempre saber.
Mas por que eu vou ficar expondo minha vida para quem não conheço? Não tem só gente legal no mundo, não. 
As pessoas não desejam só o nosso bem. O que ninguém sabe caminha com mais tranquilidade — diz ela. 
O senso de preservação veio com o tempo. Talvez, há alguns anos, até teríamos sucesso quando perguntássemos se ela, afinal, voltou ou não com o jogador. Ou se confirma os boatos de que já passou por uma cirurgia plástica. 
 — Quando era mais nova, minha mãe até falava que eu não tinha que contar minha vida para todo mundo. Tenho necessidade de falar, mas fui aprendendo a me guardar um pouco mais.
 GLAMOUR X REALIDADE 
 Nascida em Duque de Caxias, em 1994, Bruna passou a maior parte da infância e da adolescência correndo da escola para o Projac, onde dividia a mesa do almoço e os camarins com gente do calibre de Tony Ramos, por exemplo.
No entendimento dela, tudo normal — até agora. — Não sinto que eu perdi nada (da infância e adolescência). Sinto, sim, que hoje eu perco algumas coisas. 
Não tenho a liberdade de fazer o que uma jovem de 21 anos faz sem me preocupar em ser um exemplo ou com o que vão dizer.
 Mas entendo que é uma consequência do meu trabalho. Prefiro viver coisas que me desagradem e continuar exercendo meu ofício a parar. 
 Nos tempos em que viveu Lurdinha, em “Salve Jorge” (2012), talvez as frases acima fossem diferentes.
 O primeiro personagem com contornos de mulher fez Bruna enxergar mais ônus do que bônus na profissão, e o amor à arte chegou a fraquejar.
 — Comecei a questionar um pouco meu trabalho. Estava indignada com algumas consequências dele. Ali o público começou a me ver como mulher, e a mídia, também. Foi um choque muito grande. 
Até aquele momento, as pessoas não tinham interesse na minha vida pessoal, não tinham inventado uma notícia falsa a meu respeito. 
Da noite para o dia, isso começou a acontecer — conta ela, lembrando do momento em que chegou para a mãe e perguntou se ela ficaria chateada se a filha jogasse tudo para o alto e desfrutasse o anonimato.
 A palavra “mídia”, essa força nebulosa que existe na cabeça de alguns artistas, aparece com frequência nas ponderações da jovem. 
Uma das maiores reclamações é sobre a glamourização de sua vida. Uma notícia, por exemplo, de que ela ganha cerca de R$ 50 mil a cada post publicitário que faz em sua conta no Instagram deixou-a revoltada.
Mesmo com a capacidade de reunir 16,6 milhões de seguidores interessados em seus passos, ela nega que seja capaz de negociar cifras tão altas: 
 — É um valor falso. Acho um horror, aliás, ficarem falando de quanto a gente ganha. Vende para meninas da minha idade que sonham ser atrizes que isso é uma realidade.
E não é. Quando fiz a minha primeira novela, minha mãe se queixava de pessoas falando que eu tinha virado milionária.
 Na época, muitos achavam um absurdo continuarmos em Caxias. Rica ou não, Bruna sabe do seu potencial em chamar atenção das pessoas e, por isso, tem usado sua imagem em ações mais nobres, como, por exemplo, a discussão das condições dos refugiados.
 — Apoio algumas organizações, tenho me envolvido cada vez mais em trazer diálogo para esse assunto. A única solução para o preconceito é a informação.

FONTE/OGLOBO

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