quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Benedito Ruy Barbosa, autor de 'Velho Chico': 
“Nunca chorei tanto em uma novela”
Aos 85 anos, autor fala sobre sua família e conta como se sentiu ao saber da trágica morte de Domingos Montagner, o protagonista Santo, de Velho Chico. A trama foi escrita por seu neto Bruno Luperi, com sua supervisão

Por Carla Neves
Benedito Ruy Barbosa é incansável. Aos 85 anos, e depois de se despedir da supervisão de Velho Chico – que teve sinopse sua, mas foi escrita por seu neto, Bruno Luperi, de 28, com colaboração da filha do dramaturgo, Edmara Barbosa, de 55 –, o autor já se dedica a um novo projeto.
 “Estou trancado trabalhando na sinopse de O Último Beijo, título provisório de uma novela das 7 que estou escrevendo em parceria com outro neto, Marcos Barbosa”, adianta ele, explicando que não pensa em parar de escrever.
 “O que me motiva na vida é trabalhar.” Ele também adora se ver cercado pelos “quatro filhos, dez netos e cinco bisnetos”, como enumera, cheio de orgulho: “A família é a coisa mais importante da minha vida”.
Viúvo há dois anos – ele foi casado com Marilene durante 54 –, Benedito se divide entre seus quatro endereços em São Paulo. 
Foi em um deles que soube do desaparecimento de Domingos Montagner, o Santo de Velho Chico, que se afogou no Rio São Francisco, em Sergipe, no dia 15 de setembro, em um momento de folga depois das gravações.
 “Quando soube da morte, não posso nem te falar o que aconteceu comigo, viu? Chorei tanto!”, recorda.
“Acho que esse ator maravilhoso (Domingos Montagner) deve estar engrandecendo o céu.Família é a coisa mais importante na minha vida.Fui dado como morto três vezes. E não morri. estou aqui escrevendo, lendo pra burro...
 O senhor pensa em se aposentar?
 Não! O que me motiva na vida é trabalhar. Trabalho desde os 13 anos. Com 14, já era chefe de família, porque meu pai morreu com 29. Sustentava minha família inteira. Hoje não sustento mais porque meus filhos têm suas vidas e valem por si só. Mas estou aqui se eles precisarem de mim. Vivo para quem ajudei a pôr no mundo: meus quatro filhos, dez netos e cinco bisnetos. E meus amigos também.

Qual é seu próximo projeto?
 Já estou trancado no meu canto trabalhando na sinopse de O Último Beijo, uma novela das 7 que estou escrevendo em parceria com meu neto Marcos Barbosa. Nunca escrevi para esse horário. Mas é uma história de amor. E ainda não está aprovada, dependo da resposta da Globo. Apesar de ser um horário que aborda temas mais leves e cômicos, também pretendo colocar assuntos sérios em discussão.

Com quem o senhor mora?
 Moro sozinho desde que fiquei viúvo da Marilene, há dois anos. Fui casado com ela durante 54 anos. E tenho várias casas: em São Paulo, uma no bairro da Aclimação e um apartamento em Moema; tenho também um sítio em Sorocaba – onde gosto muito de ficar porque é mato, fruta, pasto, tudo que quero – e uma casa na praia de Baraqueçaba, em São Sebastião. Mas não vou muito lá. Ia mais antigamente, gosto muito de mar.

O que o senhor gosta de fazer quando não está escrevendo?
 Pescar. Sou pescador de mão cheia. Pesco em rio, em mar, em qualquer lugar que tenha peixe. Vou com amigos, familiares e às vezes sozinho.

O senhor vive cercado por sua família....
A família é a coisa mais importante da minha vida. Não só da minha, mas do Brasil inteiro. Enquanto a gente tiver a  família, com a importância que ela merece, o país tem salvação.

Como é sua relação com seus netos e bisnetos?
A cada dia me enriqueço mais de ouvir meus netos falarem. As escolas que eles frequentam hoje não são mais como as do meu tempo. E eles gostam de conversar comigo porque de repente começo a declamar versos que eles jamais ouviram. Estou com essa idade e até hoje toco berrante, corneta e todos os instrumentos de uma fanfarra. Isso mostra para eles que tipo de vida levei. É bom porque tudo é ensinamento. A gente vive para aprender. Por isso acho que não sei nada.

Velho Chico foi elogiada pela fotografia e pelo desfecho poético com uso da câmera subjetiva para substituir Domingos Montagner. Como o senhor soube do desaparecimento do Domingos?
 Soube por etapas. Fiquei na torcida, desesperado, porque gostava demais dele. E quando soube da morte, não posso nem te falar o que aconteceu comigo, viu? Chorei tanto! Nunca chorei tanto em uma novela quanto chorei nessa. Chorei na sequência da história sem ele e com a solução que o Luiz Fernando [Carvalho, diretor artístico da novela] e o Bruno deram para a ausência dele. Aquela câmera subjetiva me matou. O coração ficou pequeno. O Domingos foi uma pessoa que me abraçou na festa de lançamento da novela, no Rio, e me disse: “Queria tanto fazer uma novela sua! Estou tão feliz. Vou dar o que tenho e o que não tenho para fazer o melhor papel”. E ele estava fazendo. Em nenhum momento tive nada para criticar dele. Só para agradecer. Deus faz as coisas como Ele quer. Acho que esse ator maravilhoso, e, mais do que isso, esse homem maravilhoso deve estar engrandecendo o céu que não conhecemos. 

Foi a novela mais difícil de escrever?
Sem dúvida. Já tínhamos um final lindo para o Santo (Domingos Montagner) e para a Tereza (Camila Pitanga). Estava tudo pronto. E tivemos que mudar tudo. Foi uma tragédia. Só queria que ele estivesse vivo.

Em 2006 o senhor teve um AVC e quase morreu...
 Fiquei 23 dias em coma. E acordei sem resquícios. Os próprios médicos se assombraram. Deus me deu uma chance, talvez pelas orações que recebi. Dentro da própria Globo rezaram, fizeram até missa campal... Fui dado como morto três vezes. E não morri. Estou aqui escrevendo, lendo pra burro... Não sei por quanto tempo, mas estou aqui.

Quando começou a escrever com suas filhas e netos?
 Eles sempre acompanharam o que fazia. Liam todas as minhas histórias... Alguns liam capítulos de novelas antes de eu mandar para a Globo. E davam palpites (risos). Acho ótimo. São participantes. Mas passei a escrever com minha família depois do AVC. Graças a Deus, me recuperei totalmente e estou com a memória maravilhosa. Mas no computador fiquei muito lento. Mais lento do que já era. E comecei a apelar para meus netos, que digitam melhor do que eu. É o caso do Bruno, que fez Velho Chico, e do Marcos, que está fazendo O Último Beijo, e também fez comigo Meu Pedacinho de Chão. Ainda posso escrever. Tenho as histórias na minha cabeça. O Velho Chico, por exemplo, é uma história que conto para eles há mais de 30 anos. Eles sabem de cor e salteado de tanto me ouvir.  

O senhor vê novelas?
Hoje vejo as minhas porque é minha obrigação, para ver onde está o erro e onde está o acerto. Mas, no geral, vejo muito pouco novela. De vez em quando acompanho alguma, mas é raro. Antigamente estava aprendendo. Hoje sou um pouco mais crítico. Acho que o povo merece um grande respeito de quem faz novela. Não quero ficar cobrando de ninguém, porque também devem cobrar de mim. Mas quando tem uma novela boa assisto.

E o que é uma novela boa para o senhor?
 É aquela que desperta a minha atenção para as coisas que estão acontecendo. Não vou atrás de bobagem.

O que o senhor consome na TV?
Telejornais. Assisto a todos que posso. Até de madrugada. Comecei como jornalista e nunca vou deixar de ser. A minha novela é jornalismo também.

O senhor assiste a séries americanas?
Não. Dou graças a Deus que as novelas das 11 derrubaram os seriados americanos que enchiam o saco na televisão no fim da noite.

FONTE/QUEM

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