domingo, 16 de outubro de 2016

Letícia Colin escreve sobre a infância em São Carlos:
‘Era piscina todo o tempo, pé de jambolão, manga verde com sal’
 Atriz está no ar no ar como a Julia de “Nada será como antes”, na TV Globo 
 Entre 1990 e 2001, em todas as férias — e com sorte nos feriados — nossa família de quatro integrantes fazia as malas, entrava no carro carregado (até a tampa) e partia de Santo André, no ABC paulista, rumo a São Carlos, interior de São Paulo. 
Trezentos quilômetros e muitos pedágios depois, longe do cinza da cidade, já com os casacos no chão, adentrávamos aquela terra, bem quente, com relevo de morros e o céu mais azul que já vi. E na chegada a família ia se agigantando… 
Primeiro passávamos na tia Carminha (some mais três), depois na Tia Stela (mais cinco), na Vó Audina (conte ainda mais dois com o Vô Zé Colin), mais os primos dos primos flanando pela cidade, os amigos de infância dos meus pais que também eram “tios”, padrinhos, e antes de chegar à chácara eu já me sentia a pequena mais cheia de amor e de gente para cumprimentar do planeta. Sou a caçula dos primos.
 Na época, brincava de fazer comerciais de TV e ensaios fotográficos. Ensaiava ser atriz.
 Meu pai carregava debaixo do braço panfletos de máquinas de lavar, planos de saúde, pizzaria... Tudo que tivesse uma foto da sua garota-propaganda. 
E mostrava pra todo mundo, assim que tinha oportunidade. Às vezes nem tinha oportunidade e mostrava mesmo assim. 
 Eu sentia que pertencia a dois mundos. Que eu vinha de uma cidade mais dura, de vidros e portas trancados, de muitos carros na rua, dos meus pais mais cansados. 
E sentia que meus primos eram mais relaxados (e bronzeados!). Eles sempre tinham um milhão de brincadeiras novas. 
Eram os meus heróis. Lá meus pais se tornavam apenas uma voz distante, chamando para comer milho cozido ou então para tomar banho. Porque meus ídolos tinham nome: Deco, Nina, Xexa, Fer, Rique e Carol.
 Era piscina todo o tempo, pé de jambolão, manga verde com sal, corrida pinicando pelo milharal, polícia-e-ladrão, gato-mia, buraco, rouba-monte, tapão, truco, rede girando forte.
Um dia instalou-se uma tirolesa, depois apareceu a mobilete e nossas voltas no quarteirão com revezamento de garupa; surgiu um tal jogo de RPG que os meninos comandavam, aumentaram as histórias que me deixavam sem dormir sobre extraterrestres, e dá-lhe mexerica, amora, acerola, pitanga, lima, jabuticaba, abacate, laranja. 
 Com o passar do tempo, fui maneirando nas brincadeiras, porque não podia cortar o joelho, ralar a cara... 
A gente também já não queria correr tanto, ia gostando mais de conversar, de alugar filme, cozinhar... 
E eu voltava sempre antes para “trabalhar”, porque tinha temporada da peça de teatro no fim de semana. Vim parar no Rio. 
E André, Mariana, Marina, Fernanda, Luís Henrique e Ana Carolina também ganharam suas novas cidades-casa. 
Hoje eles também pertencem a dois ou vários lugares. Desbravaram Campinas, Ribeirão Preto, Barretos, Fortaleza, Manaus. 
Lugares que entraram no meu mapa por causa deles. Ainda voltamos para São Carlos. Muito para se ver, e de quando em vez, por conta de um susto da saúde dos nossos pais. 
Nossos avós partiram, alguns pés de jambolão foram cortados, mas aguardamos quem dos primos terá o primeiro filho, o segundo, acrescente mais três...
 E como será vê-los correr pisando naquela terra vermelha que ainda não virou asfalto? E sob o céu mais azul...

FONTE/OGLOBO

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