quarta-feira, 16 de novembro de 2016

 Reynaldo Gianecchini afirma que nunca se entregou às lágrimas 
 Reynaldo Gianecchini tem dificuldade para chorar e não gosta de mocinhos que vivem aos prantos. 

 Na arte de sorrir, Reynaldo Gianecchini é especialista. 
Avesso às lágrimas, o ator busca força para afastar o pranto sempre que o mar não está para peixe. 
O dom de fugir do drama e seguir em frente sem pensar na dor, o intérprete do velejador Pedro, de “A lei do amor”, emprestou ao herói romântico da novela das nove. 
Se Giane enfrentou de frente o diagnóstico de um câncer em 2011, o seu personagem não tem por que buscar a vitimização, ainda que o grande amor da sua vida, Helô (Cláudia Abreu), tenha escondido que os dois tiveram uma filha, Letícia (Isabella Santoni), e esteja casada com outro homem, Tião (José Mayer). 
O conflito do personagem ainda passa pela rejeição de parte da sua família, que o vê como inimigo devido a sua luta contra a corrupção na fictícia São Dimas.
 — Homens choram, claro, mas é chato sofrimento ser sinônimo de lágrimas.
 É mais bonito mostrar sofrimento sem precisar apelar para as lágrimas. Eu choro muito pouco. 
Nos momentos mais dramáticos da minha vida, eu não chorei.
 E, como público, acho insuportável ver mocinho aos prantos o tempo todo. 
Não tive essa castração da família de que chorar não é para meninos.
 Lá em casa, todo mundo se abraça, se beija... 
Com tios, primos, a gente não tem o menor pudor de demonstrar afeto. 
Mas eu tenho uma tendência, graças a Deus, a nunca levar os acontecimentos para o lado trágico — comemora o ator, que completou 44 anos ontem. 
 Ser um homem de silêncios, outra característica de Gianecchini, também é algo em comum entre o artista e Pedro, que foi um viajante solitário por muitos anos. 
 — Adoro solidão. Sou um cara meio solitário no sentido de que fico bem sozinho.
 Gosto dos meus tempos comigo mesmo. 
Não tenho medo da solidão, eu a assumo e tiro proveito dela.
 Algumas pessoas necessitam estar o tempo todo rodeadas de gente, engatando vários relacionamentos.
 Faz muito tempo que eu não tenho um relacionamento. 
Não que eu não goste, acho uma delícia ter alguém, mas não preciso ficar toda hora acompanhado.
 Tem que ser alguma coisa especial. 
Senão, não faz sentido — afirma.
  Nesse ponto, Giane caminha em sentido contrário ao protagonista de “A lei do amor”. 
Enquanto Pedro adoraria estar casado com Helô, seu intérprete não tem pressa para encontrar um par romântico.
 Nem o inevitável assédio o faz mudar de ideia. — Não é bem assim... 
Não tenho todas as pessoas aos meus pés. 
São muito raros os encontros especiais, aquelas pessoas com quem vale a pena dividir a vida, se aprofundar. 
O que existe por aí é gente querendo uma companhia para passar o tempo, se divertir.
 Isso eu até posso fazer, mas, como relacionamento, eu espero um encontro mais poderoso — compara. 
 O caminho para a paternidade, portanto, não é descartado, mas incerto:  — Definitivamente, tem que aparecer a parceira ideal. 
Se não rolar, está tudo certo também.
 É ótimo que o homem não tenha um prazo certo para ser pai. 
O fato é que, por enquanto, não bateu essa urgência. 
Eu espero a vida me mostrar o caminho, se vou ter ou não um filho.
 Não tenho o menor conceito sobre isso, deixo acontecer. 
 Na ficção, a paternidade vira realidade para Giane no próximo sábado, quando está prevista para ir ao ar a cena em que Pedro descobre ser pai.
 — É muito louco isso de ter uma filha de 20 anos. 
Eu, diferentemente do Pedro, que sempre quis ser pai, não consigo me imaginar tendo um filho aos 20 e poucos anos. 
Com essa idade, eu estava cuidando de outras coisas, tentando me entender.
 Acho uma doideira passar por isso cedo. 
Agora, maduro, é que eu iria curtir ter um bebê. 
Mas a verdade é que Letícia poderia ser minha filha, sim — reconhece, referindo-se à personagem interpretada por Isabella Santoni, de 21 anos.
 Reynaldo Gianecchini gosta de silêncio e solidão 
Sem tornar público namoro algum desde que se separou de Marília Gabriela, em 2006, Giane acredita que é possível viver várias histórias especiais ao longo da vida. 
 — A gente pode ter diversos amores.
 Nunca entro num relacionamento achando que precisa ser para a vida toda. 
Precisa ter o tempo que for muito legal e pronto, o período que durar.
 Mas acho bonito quem tem um único amor a vida toda — observa. 
 Com certeza, esse é o caso de Pedro e Helô.
 Só que os dois já não são mais os mesmos, 20 anos depois.
 — Existem muitas histórias parecidas na vida real, de homens e mulheres que ainda têm seu primeiro amor guardado. 
A única questão é saber se é possível viver esse romance depois de acontecer tanta coisa na vida de cada um.
 As pessoas mudam, a vida vai oferecendo outras coisas. 
Será que esse sentimento pode sobreviver a novos fatos, como, no caso da novela, a Helô ter filhos e um marido? — questiona. 
 A paixão de longa data, de fato, não impede que Pedro rompa com a namorada da adolescência. 
Ele nem dá chance a argumentos, assim que fica sabendo que é pai de Letícia e que a amada manteve essa história em segredo por duas décadas. 
A maneira como o velejador lida com separações também o aproxima de seu intérprete: — Sou bem racional. 
Quando entendo que uma relação já deu, que os caminhos já estão meio fora de sintonia, sou prático em terminar. 
Não fico nessa de vai e volta. Quanto tomo a decisão, é aquilo e pronto. Sou do perdão e de transformar o afeto. 
Geralmente, fico amigo da pessoa. Tento sempre fazer isso na minha vida.
 Meus ex-relacionamentos viraram ótimas amizades. Com a jornalista Marília Gabriela não foi diferente.
 — A gente se fala bastante. É claro que a vida é louca para todo mundo, falta tempo para fazer tudo o que a gente quer, mas Marília é uma pessoa que eu mantenho bem próxima a mim, por quem alimento um carinho enorme — afirma. 
 Um dos aprendizados que a maturidade trouxe foi a sabedoria para usar seu tempo só com o que interessa. 
— A natureza é muito sábia, naturalmente vai te freando, fazendo você não ter mais energia para certas coisas. 
Quando era bem jovem, lamentava que com 40, 50 anos não ia mais ter pique para ir à balada. 
Hoje, eu falo: “Graças a Deus que não quero ir para a balada”. 
Chega de perder tempo. Depois dos 40, sinto que, naturalmente, a gente entra em outro trilho.
 A vida realmente começa aos 40. 
Parece que tudo antes foi um ensaio e que agora estou vivendo de verdade quem eu sou. 
Talvez eu não tivesse esse autoconhecimento se não houvesse passado pela doença. Mas não é só o câncer. 
Tem a ver com tudo que foi vindo a partir daí — analisa. Entende-se por “tudo que foi vindo a partir daí” uma conexão maior com o plano espiritual. 
— Não tenho uma religião específica, mas busco muito a minha religiosidade, a minha espiritualidade. É para o bem do autoconhecimento.
 Descobri que o caminho é um só e que está tudo dentro da gente. 
No fundo, tudo resvala para o amor, é esse sentimento que vai te levar para a consciência, que vai abrir o seu coração, que vai fazer você entender as coisas e dar os próximos passos. 
Minha religião é o amor. Em última análise, Deus está dentro de você e é você — acredita.
 Giane e Cláudia Abreu são, respectivamente, o casal Pedro e Helô na novela “A lei do amor” 

 Ser sinônimo de beleza, sucesso e, ao mesmo tempo, ter lutado contra um câncer, pode levantar o questionamento se Giane veio ao mundo para dar um recado à plateia que o acompanha desde a sua estreia na TV, em “Laços de família”(2000): 
 — Seria muita pretensão pensar que minha história de vida é uma missão para passar uma mensagem a quem me acompanha. 
Mas a posição que o artista ocupa, esse canal de comunicação, deve ser usado para tocar a alma das pessoas.
 Se eu puder usar esse canal para extrapolar a arte e falar de coisas importantes para o coletivo, chamar atenção para questões sociais, aí, sim, é uma missão. 
Mas sem arrogância. Eu não quero mudar o mundo, não quero que ninguém compre as minhas ideias.
 O mais legal é mostrar através do exemplo, a sua postura, o seu caráter, a sua briga pelo bem-estar geral. Isso, sim, inspira as pessoas.
 Nada inspirador é o cenário político que se apresenta na novela das nove, mais precisamente na fictícia São Dimas, a exemplo do que acontece no Brasil. 
Em meio a um mar de denúncias de corrupção, o intérprete do honesto velejador assiste assustado ao movimento das ondas pouco confiáveis.
— Respeito todo mundo que se posiciona politicamente, mas confesso que acho uma loucura essa divisão do país. 
Eu tenho dificuldade de colocar minha mão no fogo por alguém, não dá para brigar por “Lulas”, “Dilmas” e “Cunhas”. 
Toda essa turma vem de um ranço. 
Estou esperando chegar uma galera nova, com outro fôlego. 
Sérgio Moro (juiz federal que está à frente da operação Lava-Jato) me inspira demais. 
É muito nítido que ele é um cara diferente desse grupo de parlamentares que compõem a Câmara e o Senado. 
Me parece que ele tem outro DNA. Estou esperando que venha uma geração de políticos nessa linha, que mude a cara do Brasil — torce. 
 Falando em mudança, Giane voltou às novelas em “A lei do amor” completamente repaginado. 
Ter ficado louro permitiu, inclusive, que ele andasse pelas ruas anônimo até pouco tempo antes de a trama de Maria Adelaide Amaral e Vicent Villari estrear. 
O novo look agradou ao galã, mas dividiu o público. 
 — Esse visual tem muito a ver comigo, se encaixa com o meu jeito despojado, de não ser todo arrumadinho.
 Mas percebo que tem gente que não gosta da barba. 
Muitas pessoas ficam presas ao conceito da minha cara certinha, de menininho bonitinho, sem pelos.
 Tem gente que se recusa a olhar para o novo. 
É porque se você olhar para o novo com o olho do velho tem um choque. 
Mas, nas redes sociais, 90% dos internautas aprovaram — garante. 
 A transformação foi bem-vinda, ainda que exija uma boa dose de paciência por parte de Gianecchini:
 — Esse processo de ir para o salão semanalmente para pintar a barba é desgastante.
 Não é tão fácil. O cabelo, só preciso retocar a cada 40 dias. 
Mas a tinta pega de uma forma diferente na barba. 
A minha está com quatro colorações. 
Para chegar a essa cor, tem toda uma alquimia. 
Às vezes, fico três horas no salão porque só posso sair de lá com o tom exato. 
Geralmente, o ambiente de salão me dá uma aflição com todo mundo falando ao mesmo tempo. 
Mas eu vou em um que é bem reservado, tranquilinho. 
Aí, aproveito esse tempo para ler e fico em paz. 
Sempre ele, o silêncio.

FONTE/EXTRAONLINE

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