quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Jeniffer Nascimento:
"As pessoas usam a internet como uma arma"
A atriz do musical Divas discute o racismo nas redes e o sucesso nos palcos

Por Daniel Lopes 
Quando ela aparece com o body cravejado de pedras, a meia calça arrastão, o cabelo preso com uma tiara brilhante, a maquiagem colorida e a sandália de salto alto, é hora de Jeniffer Nascimento, 23 anos, dar lugar a Cecília, uma das protagonistas do musical Divas, em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo.
Na peça, Jeniffer usa e abusa de diferentes figurinos e perucas, além de soltar sua Beyoncé interior. 
“Ela e a Whitney Houston, que eu ouvia quando pequena, são as divas que me inspiram”, revela a atriz, que conversou com a CONTIGO! sobre o retorno aos palcos paulistanos e seu estouro na TV, em 2014 na Malhação. 
Em Divas, Cecília vê seu sonho de se tornar uma cantora de sucesso ir por água abaixo quando Sofia, interpretada por Luiza Possi, 32, desiste de gravar o disco ao lado de suas amigas e desaparece no mundo. 
“Geralmente, minhas personagens são muito cômicas. A Cecília é a mais boazinha, aparta as brigas. 
Para mim, foi um desafio fazer uma coisa tão próxima do que eu sou e ao mesmo tempo tão distante”, conta Jeniffer, que guarda ainda mais coisas em comum com sua personagem. 
Assim como Cecília, que busca o retorno ao estrelato participando de um reality show, Jeniffer fez parte da Fábrica de Estrelas, competição de talento do Multishow que, em 2013, formou o grupo Girls.
 “Todas as memórias voltaram como um filme. Participar de um reality é complicado, porque gera frustração se você não ganha e também se você ganha, mas cai no esquecimento. 
Não é só uma questão de talento, tem muita sorte envolvida. Aqui no musical, eu vivo só a parte boa”, festeja. 
A banda Girls durou apenas oito meses até a rescisão do contrato de Jeniffer e suas outras quatro colegas.
ESTREIA NA TV
Logo após o fim de Girls, na verdade, no exato dia em que o contrato do grupo teve fim, Jeniffer recebeu uma ligação da Globo comunicando que ela tinha sido aprovada para o elenco de Malhação – Sonhos. 
“Eu sempre morei com meus pais, fui muito família e aí me mudei para o Rio, uma cidade que eu não conhecia, totalmente sozinha.
 Foi um amadurecimento pessoal e profissional. Meu sotaque era muito paulista e a Sol era do subúrbio do Rio. Tive que fazer fono, ouvia a galera e falava igual. 
O público se identificou muito, eu saía na rua e me tratavam como se eu fosse a vizinha do bairro, ela era muito popular”, relembra Jeniffer, que foi uma das protagonistas da trama, dois anos atrás.
O trabalho, então, não parou mais. Depois de Malhação, veio a participação em Êta Mundo Bom!, novela das 6 de Walcyr Carrasco, 64, que terminou em agosto. 
“Tive uma escola e tanto, o personagem era pequeno, mas acabou tomando uma proporção muito maior, casou, engravidou, caiu no gosto de todo mundo. 
Meu núcleo só tinha fera: Ary Fontoura (83), Elizabeth Savalla (61)... Foi como ter aulas de atuação enquanto trabalhava”, recorda Jeniffer, que deu vida a Dita. 
RETORNO AOS MUSICAIS
A novela ainda não tinha terminado quando a atriz recebeu o convite para participar do espetáculo. “Estava morrendo de saudades do palco, há quatro anos não fazia musicais. 
Eu me mudei de volta para São Paulo e já comecei a trabalhar”, conta. Sua carreira sempre foi marcada pela mistura do canto e da atuação.
 “Meus amigos na escola brincavam que não sabiam o que iam fazer na faculdade e diziam: ‘Queria ser a Jeniffer que sempre soube o que ia ser’.
 Com 5 anos, eu falei para meus pais que eu queria ser artista. Nunca foi algo imposto, minha família não tem histórico de artista, nem nada”, explica. 
Aos 8 anos, começou a participar de comerciais e, aos 13, já fazia aulas de dança, canto e teatro. Participou dos musicais Peter Pan, Hairspray, Mamma Mia e Hair. 
“Durante Hairspray, o Edson Celulari, 58, me deu uma bolsa de estudos para ter aulas de teatro em Nova York nas férias. Foi uma oportunidade incrível”, lembra. 
O primeiro balde de água fria só veio com o musical Rei Leão, para o qual Jeniffer fez dez testes diferentes e não passou. 
“Me disseram que eu não tinha cara de leoa. Fiquei desiludida, acabei indo parar no reality show e o resto da história todos já sabem”, ri. 
PRECONCEITO RACIAL
Relembrando os anos de testes para peças e musicais, Jeniffer guardou os muitos “nãos” que recebeu. 
Na maioria dos casos, diziam que ela não tinha o perfil das personagens. Alguns anúncios, inclusive, deixavam claro que procuravam por atrizes brancas, loiras ou ruivas.
 “Acho que existe preconceito com atrizes negras, sim. Quando o papel tem que ser nosso, ele sempre acaba vindo para as nossas mãos de um jeito ou de outro, mas eu sinto que falta mais espaço para as negras”, lamenta ela. 
“Felizmente, eu não cresci carregando dor pela cor da minha pele, mas sempre há situações desagradáveis. 
Uma vez, esbarrei em uma mulher na rua e vi ela checando a bolsa para ver se faltava algo. 
Fiquei arrasada”, confessa Jeniffer. “Estamos progredindo de um lado, e por outro, regredindo. 
As pessoas usam a internet como uma arma, acham que podem falar o que bem entendem. Uma vez comentaram em uma foto minha: ‘Jeniffer, quer banana?’, e eu retruquei:
 ‘Quero, sim, me passa seu endereço que eu vou com o meu advogado pegar’. Depois fui checar o Instagram da menina que me ofendeu e ela parecia ter apenas 10 anos.
 Eu acho uma pena porque a nossa geração devia estar mais unida e os pais mais presentes passando boas informações. 
Meu namorado (Jean Amorim), que também é ator, recebe mensagens no Instagram com imagens de meninas de 12 anos nuas e isso é muito ruim. Os pais têm de ficar de olho”, alerta.

FONTE/CONTIGO

Nenhum comentário:

Postar um comentário