sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sebastião Salgado:
 "Nunca fiz uma selfie, tenho vergonha"
A fotografia, para ele, é uma maneira inesgotável de se relacionar com a vida

Por Filipe Insensee
Seu par de olhos azuis testemunhou belezas surpreendentes e misérias terríveis. Muito do que ele viu está registrado em imagens em preto e branco que posicionaram o mineiro de Aimorés entre os mais celebrados fotógrafos do mundo. 
Sebastião Salgado chega para esta entrevista com muleta, necessária desde que machucou a perna numa jornada de luzes e sombras pela Amazônia, parte de seu novo projeto. Sua energia, no entanto, é a mesma. Aos 72 anos, descarta aposentadoria.

Diante de tudo o que você presenciou, acredita em Deus?
Não. Acredito que exista uma ordem geral das coisas que fez com que houvesse uma interação entre as espécies, numa sabedoria profunda. Mas por que existiria um Deus apenas para os humanos? Esse Deus é o mesmo dos dinossauros? Por que apareceu apenas para uma espécie?

Como você pensa o futuro do ser humano?
O  homem é um predador profundo. Quem mora no Rio não mora no Brasil. Não conhece as selvas, os rios, as montanhas. Nós somos um animal, até pouco tempo vivíamos na selva. O planeta não tem condição de suportar a depredação que estamos causando. Somos uma espécie com o risco muito grande de desaparecer, mas tenho uma grande esperança de que a Terra sobreviverá.

Seu trabalho sempre consome muito do seu tempo. Como fica sua vida familiar nesses períodos?
As coisas que quis e quero fotografar nunca aconteceram na porta da minha casa. Sou ligado profundamente à minha família, mas meus filhos, Juliano e Rodrigo, foram criados 80% pela Lélia (mulher dele há mais de 50 anos). Não fui um pai presente, mas essa é minha sina. O Juliano, que é cineasta, está passando pela mesma coisa: ele mora em São Paulo e o filho estuda na Califórnia. Nunca senti culpa, mas gerou um conflito quando ele estava crescendo e sentiu minha falta. Foi bom ele ter viajado comigo para fazer o filme (O Sal da Terra, indicado ao Oscar), ele viu o que era a minha vida e o amor que sinto por ele. 

Rodrigo, seu caçula, tem síndrome de Down e é artista plástico. Você o influenciou nessa escolha?
Foi meu filho quem me ajudou a ver as pessoas de forma mais humana. Rodrigo não sabe ler nem escrever, mas  é um artista nato, tem forte relação com cores, pinta muito bem e faz esculturas fantásticas. É um ser adorável. Ele ama futebol e, aqui no Brasil, o Flamengo. Quando estamos aqui, ele vai ver um jogo na casa do vizinho, eu sei que o time levou uma surra, mas, quando pergunto, ele diz: “O Flamengo ganhou”. Sempre ganha (risos)! Ele me deu a oportunidade de ir a outro mundo. Foi difícil quando soubemos, mas foi um processo riquíssimo também.
“Nunca fiz autorretrato, tenho vergonha. Portanto, nunca fiz uma selfie.

Como lida com a fotografia no cotidiano?
Já estou velho, venho de uma outra geração. Nunca fiz autorretrato, tenho vergonha, e, portanto, nunca fiz uma selfie. Não critico quem faz, mas não tenho qualquer interesse. Possuo um iPhone, faço uma coisa ou outra, mas fotografias mesmo só com minha câmera, ando sempre com ela. No celular, jamais conseguiria explorar as possibilidades da imagem da maneira que eu gostaria.

E sobre as imagens que você nunca conseguiu fotografar, mas estão preservadas na memória?
Descobri a fotografia muito tarde, com 26, 27 anos, quando minha esposa comprou uma câmera. Mas sempre penso nas imagens da minha infância, e elas têm força e poder até hoje. Lembro de ver com meu pai o período do começo de chuva no interior de Minas: nuvens fabulosas, céus carregados e raios de luz passando. Isso só está preservado na minha cabeça. Nunca perdi essas imagens.

Você é eventualmente criticado por estetizar a miséria. Isso fez você repensar o trabalho?
Não posso fazer isso, porque só tenho essa maneira de trabalhar. Só sei fotografar assim. Não acho que estetizei miséria nenhuma. As luzes são tão bonitas ao fotografar uma pessoa rica na praia de Ipanema ou alguém na favela do Vidigal. Por que eu tenho que fotografar bonito um e o outro não? O ser humano é o mesmo, o planeta é o mesmo. Só posso fotografar assim. Se algumas pessoas se incomodam, só posso pedir desculpas.

O que pode contar sobre seu novo projeto?
É sobre os índios na Amazônia e estou trabalhando nele há quatro anos. Passei agosto numa tribo e vou voltar mais vezes. Não tenho um prazo, mas talvez acabe daqui a três ou quatro anos. É tão impressionante sair de uma sociedade agressiva como a nossa e ir para uma comunidade indígena. Você compreende de onde viemos e onde tudo começou. Temos no Brasil o início de tudo e estamos empenhados em destruí-lo. E essas comunidades conhecem tudo, têm uma riqueza sem fim.

Não pensa mais em se aposentar?
Quando eu fiz o projeto Gênesis (no qual ele registrou lugares intocados do planeta), eu disse que seria meu último, me imaginei aos 70 anos e pensei que seria a hora de parar.  Mas a realidade é que o fotógrafo não para. Outro dia, eu estava lembrando com a Lélia de uma viagem que fizemos ao México em 2002, para encontrar o fotógrafo Manuel Alvarez Bravo. Ele tinha 100 anos e continuava fotografando. Era incrível.

Imagina-se assim também?
Fotografia não é trabalho ou profissão, é uma forma de vida. É o que penso, minhas heranças, minha ética, ideologia e estética, que se transformam numa imagem que é minha maneira de me relacionar. E isso em mim nunca vai terminar. Acabei de me aposentar lá na França, mas isso só significa que contribuí a minha vida toda e agora peguei minha aposentadoria. Mas vou continuar trabalhando.

Você sonha com fotografia?
Sonho. Fotografia é uma coisa que  faço 24 horas por dia. Quando vou à floresta acompanhar os indígenas, vivo pensando nelas. Acordo cedo, integrado a esse movimento. Há muitas imagens que não fiz, mas eu sonho com muitas delas.

O que você diria aos jovens fotógrafos?
Sempre aconselho a pessoa a entrar numa universidade e ter contato com matérias como filosofia, antropologia, geopolítica e economia (Sebastião é economista de formação). É necessário para que saiba se situar dentro da sociedade. Vi fotógrafos excelentes, mas chegava uma hora em que faltava uma base de análise. Só faziam o que alguém mandava, não tinham
iniciativa que pudesse ligar o trabalho deles à sociedade.
Lélia Wanick Salgado - Sebastião chama Lélia ao palco para receberem juntos o Prêmio Personalidade, concedido ao fotógrafo pela Câmara de Comércio França-Brasil
“Éramos jovens e podíamos tudo

Mulher de Sebastião Salgado conta como tudo começou
“Me lembro do dia em que alugamos um barco e saímos remando pelo Hyde Park, em Londres. Eu estudava arquitetura em Paris e Sebastião tinha um bom emprego na Inglaterra, como economista. Mas a fotografia já era uma paixão sem volta para ele. Durante o passeio, decidimos que aquele era o momento. Éramos jovens e podíamos tudo. Escolhemos Paris como base porque eu já estudava lá e tínhamos muitos amigos jornalistas que poderiam ajudá-lo no início. A minha entrada de verdade na vida profissional dele aconteceu há 37 anos, quando meu filho Rodrigo, que tem síndrome de Down, nasceu. Passei um ano em casa e resolvi organizar os negativos do Sebastião. Nunca mais parei.”

FONTE/QUEM

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