quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Zibia Gasparetto: 
“O  mundo espiritual é melhor que aqui”
Aos 90 anos, a escritora, que já vendeu mais de 17 milhões de livros ao longo de sua carreira, conta que a idade não lhe trouxe limitações físicas, que continua sua produção a todo vapor e que não teme a morte

Por Bruno Segadilha
No final da década de 40, Zibia Gasparetto passou por uma experiência que mudou sua vida. 
A escritora, então uma jovem mãe de família de 24 anos, levantou numa madrugada sentindo o corpo dormente. 
Perambulou pela casa balbuciando palavras em alemão, idioma que ela garante nunca ter falado. 
Assustado, o marido apelou para uma vizinha, que sentenciou: “Isso é coisa de espírito”. 
Começaram a rezar e Zibia voltou ao normal, mas nunca mais foi a mesma. Foi estudar a doutrina espírita e começou a dar vazão ao que os espíritos tinham a dizer. 
Uma vez por semana, psicografava textos do espírito Lucius, um dos primeiros a fazer contato com ela.
Hoje, 67 anos depois, Zibia já publicou 36 romances e vendeu mais de 17 milhões de exemplares. 
Seus livros já se transformaram em peças como Esmeralda, em cartaz na capital paulistana, e devem ganhar as telas no ano que vem. 
Dona de uma energia impressionante aos 90 anos, ela ergueu, em São Paulo, a editora Vida & Consciência, que toca com a ajuda dos filhos, de seu casamento com Aldo Luiz Gasparetto, morto em 1989: 
Luiz, de 67 anos, Irineu, de 64, e Silvana, de 59, todos médiuns como a mãe. 
Pedro, o filho mais velho, morreu em abril deste ano, aos 69 anos, vítima de um acidente de carro.  “Entendo, mas sofro”, explica, sem perder o sorriso.
O ano de 2016 está sendo marcado por uma forte crise. A senhora, que já vendeu mais de 17 milhões de exemplares em sua carreira, sentiu algum baque?
Sim. Vendemos menos, ainda que os distribuidores digam que somos os que mais vendem no país. A gente vai se virando, tenta se adaptar ao mercado. Nós acreditamos no Brasil e estamos fazendo como tantas empresas: estamos racionalizando o trabalho, enxugando. Hoje temos menos gente para fazer a mesma coisa. Tínhamos uma gráfica, paramos com ela, mandamos 300 funcionários embora. Foi um processo de mais de um ano. Ainda estamos pagando alguns acordos.

Como é sua rotina?
 Três vezes por semana, às segundas, terças e quartas, eu escrevo. Às 14h eu vou na minha sala, me concentro e fico lá. Escrevo o que os espíritos me ditam e paro quando eles decidem. Às vezes, é o Lucius que vem; às vezes, é o espírito do Silveira Sampaio (escritor morto em 1964, aos 70 anos)... Antes, eu escrevia à mão, mas, depois do computador, ficou mais fácil. E eu também estudei datilografia aos 14 anos, porque queria trabalhar, ter meu dinheiro, então foi fácil me adaptar.

Como trabalha com eles?
Eu os ouço. Antes, eles tomavam meu braço e escreviam o que queriam. Agora, eles me ditam o que querem que eu escreva. Dá para saber se é homem ou mulher. Como você falando comigo.

Nunca teve medo?
Não, porque acho que os espíritos me prepararam. Além disso, quando estou com eles, eu me sinto tão bem, é uma energia tão boa... Durante o processo, sinto que minha mente se abre para um monte de coisas!

Muita gente critica a senhora por vender muito e ganhar dinheiro. Como lida com isso?
 Dinheiro é prosperidade, é um valor bom, todo mundo quer. Gosto de dinheiro. Mas vou esclarecer. Eu vivo do salário que ganho aqui na editora que eu tenho. E é um dinheiro vindo do trabalho. Os direitos autorais dos livros e das peças que são encenadas são doados a instituições de caridade. O dinheiro de vendas sempre foi investido na editora. Vivo hoje na casa que meu marido deixou de herança, então, não levo uma vida de luxo.

“Dinheiro é prosperidade, é um valor bom"

Como mantém a vitalidade aos 90 anos?
Sou uma pessoa alegre, gosto de cantar. A idade não me trouxe limitações físicas. Como de tudo, não uso óculos... Já operei a vista porque tive catarata, mas, graças a Deus, fiquei bem.

Pensa na morte?
Às vezes, quando estou cansada, penso nisso. Porque o mundo espiritual é muito melhor do que aqui. Mas gosto daqui também. A espiritualidade nunca me deu uma previsão sobre isso. Por enquanto, está tudo bem aqui. Só não esperava que meu filho Pedro fosse antes de mim... Ele morreu em abril deste ano.

Para a senhora, espiritualista, é mais fácil aceitar?
Dói. Ele sofreu um acidente de carro, fraturou a coluna. Entendo, mas sofro, não gosto de ver ninguém sofrer. Deve ter sido algo muito bom para ele, a vida não faz nada errado. Deve ter sido algo que trouxe para ele uma compreensão maior das coisas. Desde então, sinto a presença dele, sei que ele está bem, mas ele não vem. Está protegido.

Como descobriu sua mediunidade?
 Eu não pensava em outra coisa na minha vida a não ser casar com a pessoa por quem eu estava apaixonada, ter filhos, fazer a minha vida. Nunca imaginei que fosse acontecer nada comigo. Estava casada, mãe de quatro crianças, quando, numa noite, acordei com meu corpo completamente amortecido, dormente. De repente, sem que eu pudesse controlar, comecei a andar pelo quarto falando alemão, sendo que nunca tinha falado esse idioma antes. Não sabia o que estava falando apesar de estar consciente.

E o que aconteceu?
Meu marido, que não conhecia nada da espiritualidade, chamou uma vizinha. Ela veio e disse: “Isso é coisa de espírito”. Brasileiro entende do assunto, mesmo não tendo estudado. Ela falou que eles deviam começar a rezar, fizeram isso e passou. Meu marido foi a uma livraria e comprou uma coleção de livros escritos por Allan Kardec (1804-1869). Embora ele não conhecesse nada sobre o assunto, teve tanta fé que nunca duvidou de coisa alguma. Sempre me apoiou, sempre foi firme.

A senhora tem religião?
Não. Religião, para mim, é uma mistura. É estudar a Bíblia, cada um do seu jeito. Tem coisas em que uma pessoa acredita e outra não, são escolhas pessoais. Melhor é ficar na verdade da vida, porque ela é sábia. Sou uma espiritualista.

O Brasil é um país majoritariamente católico, mas sofre uma forte influência do espiritismo. Por que a religião exerce tanto fascínio no brasileiro?
Essa coisa de o país ser majoritariamente católico é besteira. Os evangélicos, por exemplo, ganham cada vez mais espaço e estão fazendo um trabalho muito bonito, têm uma fé grande. A gente pensa diferente, mas reconhece o trabalho deles. A questão é que o Brasil passa por um momento de dor e sofrimento e, por isso, precisamos trabalhar pelo bem. Precisamos de menos maldade.

Como explica o sucesso estrondoso de seus livros?
 Tenho certeza de que os espíritos têm um jeito de escrever que toca as pessoas. E há uma equipe de espíritos evoluídos que ajuda as pessoas quando elas estão lendo, orientam e fazem com que elas lembrem de coisas importantes, alguma passagem que aconteceu com elas ou com a família delas e isso as toca de alguma maneira.

A senhora fala bastante de política nas suas conversas. Sempre gostou do assunto?
Muito. Gosto de acompanhar a vida política do país. Estamos num momento de limpeza, de faxina. Vimos que aquela ideologia que o PT defendia não era verdade. O povo está sofrendo com a falta de dinheiro, desemprego. Outro dia fiquei impressionada quando vi uma mulher com o braço quebrado esperando por atendimento. Acho que estava na hora de mudar o país.

FONTE/QUEM

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