segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

 Ana Carolina:
 "Não tive pai. Então, é como se eu quisesse ser ele"
 Em Ruído Branco, livro em que reúne poemas, pinturas e textos em prosa, a cantora mineira estreia como escritora e coloca para fora alguns fantasmas pessoais, como o fato de ser fruto de uma relação extraconjugal. 
“Era uma espécie de terror”, lembra ela nesta entrevista reveladora 

Por Bruno Segadilha 
 Ana Carolina, de 42 anos, já vendeu mais de 5 milhões de discos e conquistou o público. 
Nos últimos anos, no entanto, a mineira de Juiz de Fora resolveu ir além. Começou a investir na pintura e decidiu que era hora de deixar seu lado escritora aflorar. 
Reuniu poesias e textos que vinha produzindo de forma despretensiosa e começou a trabalhar em uma obra literária. 
O resultado está no livro Ruído Branco, que lança esta semana e no qual reúne mais de 50 poesias, textos em prosa e letras inéditas. 
Além de alguns quadros e fotos íntimas, em casa, que ilustram esta reportagem.
 “Tem determinadas coisas que eu consegui dizer no livro que nunca disse em terapia”, explica. 
Entre os assuntos estão sua bissexualidade, a vontade de ter filhos e a dificuldade em lidar com o fato de ser fruto de uma relação extraconjugal. 
“Quando me perguntavam sobre o meu pai, cada hora eu respondia uma coisa: que ele tinha morrido ou que tinha se separado da minha mãe”, lembra.
 Um dos quadros pintados por Ana e que estará nas páginas de Ruído Branco 
 Ana Carolina em sua casa, com seu cachorro, Chicó

 Como nasceu o livro? 
Vários textos que estão no livro já existiam, porque sou uma pessoa que guarda caderno, anota as coisas no celular... Comecei esse projeto e abandonei a música por um tempo, fazia apenas os shows da agenda. Falo sobre coisas que aconteceram comigo. Meu terapeuta vai adorar ler tudo isso (risos)! Tem determinadas coisas que eu consegui dizer no livro que nunca disse na terapia. 

 O que, por exemplo? 
 O texto “O Silêncio” foi escrito para o meu pai, que morreu quando eu tinha só 2 meses de vida. Ele era casado com outra mulher, teve um caso com a minha mãe. Minha mãe se apaixonou perdidamente por esse homem, teve oportunidade de contar tudo, mas, por amor, ficou quieta. Ali, eu conto um pouco da dificuldade de uma garota de 8 anos que não tinha o que responder quando perguntavam sobre o pai. 

 Isso trouxe traumas? 
Muitos. A maneira como minha mãe abordou a questão, quando eu ainda era criança, me fez perceber que era algo muito sério e vi que meu silêncio era muito importante. Eu não tinha recursos emocionais para lidar com aquilo. Então, eu me escondia, mentia, era uma espécie de terror. Quando me perguntavam sobre o meu pai, cada hora eu respondia uma coisa: que ele tinha morrido ou que tinha se separado da minha mãe. Porque a gente, quando criança, não quer decepcionar pai e mãe. Então, minha infância e adolescência foram em silêncio. 

 Como assim? 
Eu era quase uma autista. Muitas coisas eu não podia dizer e comecei a me comunicar tocando violão, cantando. Era a maneira de interagir com as pessoas, de me comunicar. Então, o meu silêncio me levou para a música. A música foi uma forma de me defender.

 Você conheceu a família do seu pai? 
Encontrei minha irmã, a Selma, com 24 anos de idade. Ela é maravilhosa. Ela soube da minha existência e me procurou. Tenho também um irmão, o Fernando. Eu sabia deles, mas achava que era uma história da minha mãe, não queria me meter. A mulher do meu pai também foi uma pessoa muito maravilhosa. Fui na casa dela, e todos me trataram muito bem, o passado ficou lá atrás. 

 No começo do livro, você diz que o homem que existe em você se apaixonou perdidamente pela mulher que você é. Quem é esse homem? 
O homem que há dentro de mim aparece mais do que a mulher. Não tive pai, não o conheci. Então, é como se eu quisesse ser meu pai. Sempre fui muito curiosa sobre o que contavam dele. Tenho um homem que se aproxima desse fantasma da minha infância que se chama Antônio Melgaço. Essa parte masculina que eu tenho é muito importante, é meu lado mais calmo, mais racional. Tenho uma maneira de pensar e uma praticidade masculinas que me acarretam inclusive problemas dentro de relacionamentos com mulheres. Não sei explicar direito. É complicado. Em contraponto, eu tenho uma mulher histérica dentro de mim que é exatamente como eu sou no palco.  

E o lado feminino? Existe fora do palco?
 Sim! Eu vou para o espelho, coloco cílios postiços, passo um creminho. E gostaria de avisar que tenho mais de 200 blazers pretos, não uso sempre a mesma roupa no palco (risos)! Vou ao dermatologista, adoro meu cabelo, amo me maquiar, experimento uma série de produtos, vou ao podólgo... Eu gosto de me sentir cuidada. Só não gosto de saia, vestido, blusinha, não conseguiria, tenho uma coisa masculina em mim na maneira de me portar. 
 A cantora brinca com Chicó
 Com a mãe, Maria Aparecida: carinho 

CARINHO
 Você, aliás, nunca teve problemas em falar publicamente sobre sua sexualidade...
 Quando falo que sou bissexual, que já transei com homens, isso não é uma questão para mim. Tive mais relacionamento com mulheres. Gosto do pensamento feminino. Minha vida faz mais sentido ao lado de uma mulher. 

 Em muitas passagens do livro, você fala de uma criança que não veio na sua vida. Tem vontade de ter filhos?
 Morro de medo de ter e morro de medo de não ter. Na mesma medida. Eu já guardei meus óvulos, mas ainda não fiz o embrião. Continuo guardando porque, aos 42 anos, a mulher não tem mais tantos óvulos. Exerço a maternidade com muita gente à minha volta, como com a minha mãe, cuido dela como se fosse uma criança. Com os amigos também faço isso.

 Qual seu medo, então? 
Se eu tiver um filho, tenho medo de ir para uma fazenda e me isolar só para criar essa criança, abandonar tudo para sempre. A coisa de se jogar num negócio.
Teve alguma parte mais dolorosa de se colocar no livro? 
Sim. Eu desabafo nele determinadas coisas, como meu problema em envelhecer. Estou com 42 anos e bate crise em tudo. Uma ressaca hoje não é como aos 20 anos. Não posso agora subir essa rua correndo porque estou atrasada, não dá... Acho que envelhecer tem essa coisa da diminuição do tempo de vida. Eu me pergunto se estou aproveitando de fato. E sempre briguei pela vida pelo fato de ser diabética, preciso me monitorar 24 horas por dia e nunca vou deixar de fazer isso. Isso é angustiante, o fato de não poder perder o controle.

FONTE/QUEM

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