quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

 Claudia Leitte:
 "Cobrança virou rotina, não quero mais isso" 
 Que ela é linda e sabe o que quer, ninguém tem dúvida. 
Mas Claudia Leitte já passou por momentos de insegurança.
 Em “entrevista-terapia”, como ela mesma define, a cantora mostra sua face mais humana – e igualmente bela – à QUEM 

Por Guilherma Samora 
 Ela tem uma legião de fãs – só seu perfil no Instagram contabiliza mais de 11 milhões de seguidores. 
Seus shows estão sempre lotados. Sua nova música, “Taquitá”, já entrou nas paradas de sucesso. 
Mas Claudia Leitte, a técnica mais querida do The Voice, da Globo, já teve seus momentos de dúvida.
 Em um papo franco, a cantora de 36 anos se mostra de coração aberto. 
“Essa entrevista já virou terapia”, brinca ela, que conta ainda como é morar entre os Estados Unidos e o Brasil e da vida ao lado do marido, Marcio Pedreira, e dos filhos, Davi, de 7 anos, e Rafael, de 4. 
Você parece sempre muito segura. Já teve dúvidas? 
Óbvio! Todo mundo tem dúvidas. Mas a gente tem duas escolhas: ou vai ou não vai. E eu escolhi ir.

 Quais os momentos de maior dúvida?
 Para ser bem sincera, tive três momentos mais fortes e bem parecidos... A primeira foi no início do Babado Novo. Fazia de 30 a 40 shows por mês. Uma vez, passei 40 dias no Maranhão, hospedada em um motel. Meu quarto tinha com um buraco na parede, forrado com um plástico. E as coisas que aconteciam eram terríveis... Hoje em dia é hilário, mas imagina você, um cortejo fúnebre passando na minha frente, no meio do show. O morto e as beatinhas todas cantando: “A nós descei, divina luz...”. Durante outro show, um cara ficou pelado na minha frente. E eu, uma adolescente vestida de rosa, pura e casta, morrendo de medo de tudo. E como se não bastasse, em um outro dia, um político odiado pelo público apareceu no meu trio. Revoltados, começaram a atirar frutas, cebolas, pedras, pau... Nesse dia, cheguei na frente do espelho daquele motel, me ajoelhei na penteadeira e disse: “Deus, o que eu estou fazendo? Não quero mais”. Mas Deus me acalmou, tive forças para continuar.

 E quais foram os outros momentos? 
A segunda foi no início da carreira solo. Eu saí do Babado Novo e ia fazer o show na praia de Copacabana. Meus empresários na época disseram que não acreditavam em mim e que ninguém iria. Deu um medo... A dúvida veio de novo à minha cabeça. Eu estava no hotel, olhei de lá de cima e vi meus fãs fazendo uma corrente de oração na frente do palco. Eu chorei e pensei: “Deus, se tiver 5 mil pessoas aí, está bom pra mim!”. Na hora, tinha 1,5 milhão! Ninguém esperava aquilo! E senti isso de novo no ano passado, quando apareceu a oportunidade de trabalhar nos EUA... 
 Mas qual o motivo da dúvida, nesse caso?
 Aqui (no Brasil) eu tenho suporte de fãs e da família. Pensava: “Vou sair daqui por qual motivo? Já tenho minha vida e está tudo muito bem”. Mas, de novo, decidi passar por cima da minha dúvida e fui. Me joguei. Rapaz! É incrível o processo de aprendizado pelo qual passo por lá. Demora mesmo para entender tudo. E, hoje, percebo muito mais claramente que nosso país é incrível e apaixonado. Pena que não nos valorizamos como a gente deveria. Lá fora existe uma estrutura absurda! O que a gente faz aqui é mágica: atleta, músico, ator, atriz... A gente se vira nos 30 pra trabalhar. Generalizando, acho que temos dúvida de nosso valor pois não temos pilar, base. A gente não tem incentivo e educação. Então, a gente se sente inferior. Mas não somos! Estarei sempre em meu país, fazendo meus shows, com meus fãs. Só estou tentanto levar minha música para outros lugares também.

 A carreira lá fora, então, é do zero? 
Teve um dia em que eu estava sentada no escritório da Roc Nation Brown (de Jay Z, que empresaria Claudia na carreira internacional), me pediram para esperar um pouco. Olhei para as minhas pernas cruzadas na sala de espera e me vi igualzinha à época do Babado Novo. Aquela menina do começo, sabe? Aí que vem a história da coragem: está bom no Brasil, né? Vai querer começar de novo e se hospedar 40 dias em um motel? Pois a gente não sabe como vai ser. Não sou nada lá fora. Mas eu estou mergulhada nessa! Como sempre faço. E está cada vez melhor.

 Dividindo a vida entre Los Angeles e o Brasil, lá você sai na rua normalmente? Vai ao supermercado?
 Sim! Não gosto muito de supermercado, mas faço. Tento me divertir, tiro fotos com uns pepinos (risos). Mas sou bem objetiva: pego a lista e acho tudo o que precisa para ir embora logo. Eu gosto mais de cozinhar. E se tiver que limpar e lavar uma louça, estamos aí. Tempo é importante. E quero ter o máximo dele para meus filhos. 

 Consegue ser mãe e amiga? 
Eu sempre me coloco no lugar das pessoas. É uma forma de respeitar e de tentar julgar menos. Com os meus filhos, faço o mesmo. E lembro que, quando eu era pequena, o que eu mais gostava era quando meus pais brincavam comigo. Então, por mais cansada que eu esteja, eu vou brincar com eles. Fui com eles naquela Legoland (um parque temático baseado nos brinquedos Lego, na Califórnia), eu parecia uma criança maluca: correndo com eles, com os cabelos em pé. Mas existem momentos em que sou a mãe, pois eles precisam de limites. Tem que ter a disciplina do dever de casa, tem hora certa para jogos eletrônicos... 

 O que te emociona nos seus filhos? 
Tanta coisa... Mas vou citar uma: eles são muito conectados. Uma das coisas mais marcantes foi quando Rafael ia fazer 3 anos, estava na escolinha e fez sujeira nas calças. Ele não queria que ninguém o limpasse, estava envergonhado. Então, chamaram Davi, que foi lá e o limpou. Quando Davi me contou isso, eu chorei tanto! Aquele cocô virou uma coisa tão linda.

 E quando você tem que vir trabalhar e eles ficam lá? 
Eles não estão nem aí (risos), é a mãe que sofre! É facetime (conversa com vídeo pelo celular) todo dia. Sou eu chorando e pedindo: “Fale comigo, menino!”. E eles respondem: “Oh, mãe, é que agora eu estou aqui assistindo ao Jurassic Park”. É, hoje eu entendo minha mãe... 

 Em que sentido?
 Eu viajei muito desde a adolescência por causa da minha carreira. E ela ficava apavorada. Eu tinha brigas homéricas: “Mãe, é minha carreira, eu quero!”. Era um medo dela natural, de proteção. E hoje eu entendo. Você quer proteger seu filho, não importa o que aconteça. Hoje em dia, penso que minha mãe me colocou um monte de limite e estava certa. E hoje, que estou aqui fazendo shows e no The Voice, minha mãe está lá, com Marcio e os meninos. Preciso do suporte da família. Nunca vou deixar meu filhos com alguém em quem eu não confie. 

 E qual a importância do Marcio nisso?
 Marcio sempre esteve do meu lado. Espontaneamente, eu digo a ele: “Rapaz, eu não só te amo e te admiro. Mas eu preciso de você e tenho certeza disso”. E isso não é uma música nem uma carta de amor. É uma certeza, do fundo do meu coração. Sei que posso contar com ele para ficar com as crianças quando eu trabalho e ele sabe que pode contar comigo quando ele trabalha. Eu sempre me coloco no lugar das pessoas. É uma forma de respeitar e de julgar menos" 
Qual seu maior pecado?
 A gula é uma coisa louca! Tem esses doces aqui para você, pois sei que você gosta (diz, apontando para bolos e sobremesas). E estamos comendo antes do almoço. Às vezes, acabo de jantar no aeroporto, mas entro no avião e servem aquela comida, eu penso: “Não vou perder essa oportunidade de comer”. 

Você se preocupa muito com o corpo? 
Acho que já me cobrei muito em tudo. E a cobrança virou rotina. Hoje, não quero mais isso. Se der tempo para passar um creme, ok. Se não der, ok também. Se der pra malhar, legal. Se não der, legal também. Preciso ter disciplina e uma alimentação legal, pois preciso de saúde. Mas eu preciso e vou ser feliz: vou comer esse bolo de brigadeiro com você. Assim que desligar esse gravador, vamos continuar rindo e falando da vida. Autoflagelo não dá mais!

 Em sua nova música, você fala de uma mulher independente, que festeja sem se preocupar com o que os outros pensam...
 Sim! Acredito que mulher já é sinônimo de poder. A gente rala. Por exemplo: a gente é mãe, acorda de madrugada, dá o peito, bota pra arrotar, troca fralda, o menino chora e tem horas que parece que você vai pirar de cansaço... E depois vai trabalhar e vem a culpa. Mas você não vai deixar de ser as outras coisas quando é mãe. Então, ser mulher é conciliar tudo isso! Eu dou tudo de mim e com sensibilidade. E todas as mulheres têm isso, de um jeito ou de outro, querendo ser mãe ou não, seja com filho ou em uma profissão que escolher. Por isso acho que temos que nos unir mais: uma mulher precisa dizer para outra o que sente. Através do exemplo que você tem você se fortalece e vê que não está sozinha. A gente pode não ter uma consciência clara disso ainda, mas nós, mulheres, somos um tipo de exército de amor e revolucionárias.

FONTE/QUEM

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