quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

 Rick Bonadio solta o verbo: 
“Lucas Lucco tem que fazer novela”
 Em entrevista honesta, o produtor conhecido como o rei das bandas de rádio, aponta que a crise econômica vai acabar com a ‘fábrica do mainstream’, diz que a música já não faz mais dinheiro como antes e relembra morte dos Mamonas Assassinas, grupo que o alçou ao sucesso:
 ‘minha saída pra superar essa tragédia foi trabalhar’ 

Por Danilo Saraiva 
Destaque da edição de QUEM que está nas bancas, o produtor e empresário Rick Bonadio recebeu o editor Danilo Saraiva em seu apartamento de 500 metros quadrados em Santana, bairro tradicional de São Paulo, ao lado da mulher Paula Peixoto, com quem é casado há 3. 
Aos 47 anos e mais de 28 de carreira, o produtor e empresário de bandas de sucesso como Charlie Brown Jr., Mamonas Assassinas e NX Zero vive uma rotina pacata, se dividindo entre a vida em família e o estúdio Midas, também no bairro, onde produz anualmente cerca de 10 artistas entre novos e conhecidos. 
 Durante entrevista, Bonadio analisou o cenário musical, elogiou as plataformas de streaming como Deezer e Spotify e disse que a fábrica de sertanejos com mais de 100 milhões de visualizações no YouTube deve acabar com a crise econômica que o país atravessa: 
"Quando a economia vai muito bem, a tendência é que o povo ouça mais coisas ruins", cita. 
 Um de seus últimos projetos na TV foi o reality show X-Factor, da Band, em que lançou o ganhador, Christopher Clark, com quem produz um disco para a gravadora Sony. 
Sem papas na língua e honesto em relação à indústria fonográfica, Bonadio disse que a "maldição dos realities" que não conseguem alçar músicos ao sucesso não existe e agradece aos Mamonas pelo pontapé inicial em sua carreira.
 "Graças a eles estou aqui." 
Rick Bonadio com a mulher, Paula Peixoto, e o cãozinho Apollo 

Você nasceu no bairro de Santana e resolveu continuar por aqui? Rola uma relação afetiva com o bairro? 
Eu nasci aqui, na rua Pedro Doll, que cresceu muito. Quando pequeno, eu jogava bola na rua, não passava nem ônibus. A minha mãe veio do interior do Rio de Janeiro. Conheceu meu pai no Pari e viemos morar pra esse lado. Até os 12 anos eu morei em Santana e depois me mudei pra um bairro próximo da Cantareira. O meu primeiro estúdio, inclusive, foi ali naquela região, quando eu gravei o Utopia, que depois virou os Mamonas Assassinas. A maioria das vezes que eu me mudei deste bairro foi por conta do trabalho. Cheguei a morar um ano no Rio de Janeiro, em São Conrado. Por um tempo morei em Perdizes, perto do estádio do Palmeiras. Aí voltei. 

 Você é conhecido como um criador de sucessos da música do rádio. Várias bandas, discos e hits de diversas épocas nasceram debaixo do seu nariz. Seu primeiro grande sucesso veio empresariando e produzindo os Mamonas Assassinas. Como foi a criação da banda? 
Eu já tinha gravado um disco de rap com o DJ Nando. Na época, ninguém escutava rap no Brasil e, claro, não deu em nada. Mas foi por meio deste álbum que conheci o Arnaldo Saccomani (produtor, radialista e compositor) e peguei gosto pela produção musical. Resolvi montar um estúdio bem pequenininho. Minha mãe me deu um dinheiro guardado, três mil dólares, lembro até hoje. E eu aluguei uma casa no fundo de um quintal na rua Pedro Doll, em Santana, que era uma edícula praticamente, um estúdio muito pequeno. Eu colocava anúncios no jornal e gravava os caras que se interessavam. Pelo anúncio, apareceu uma banda chamada Utopia, que foi gravada e produzida. Lançamos o primeiro disco, com algumas canções originais de rock e, mais tarde, no estúdio, eles me mostraram umas músicas engraçadas, na vibe Reginaldo Rossi. Era Pelados em Santos e Robocop Gay. Eu falei: ‘po***, se vocês misturarem isso com rock dá pra fazer um disco legal e eu consigo uma gravadora pra vocês. Fizemos os arranjos e o disco juntos. Aí mandei pro Arnaldo. Ele apresentou os meninos lá na EMI (extinta gravadora) e aí rolou o estouro que você conhece. Mudamos o nome para Mamonas Assassinas. Virei o empresário deles e a partir daí fiquei conhecido. Mas logo eles morreram... Esse trabalho foi curto, durou nove meses. Durante o sucesso, conheci as pessoas de rádio, da TV, o Gugu, o Faustão, os grandes diretores, os caras importantes de São Paulo, da Rede Globo. Quando aconteceu o acidente, eu pensava: ‘não posso ser um homem de um só sucesso’. Eu estava devastado com tudo aquilo e minha saída pra superar essa tragédia foi trabalhar. Aí recebia algumas demos, uma aqui, outra lá. Veio a do Charlie Brown Jr. e comecei a produzi-los. Fui acertando outros artistas... Com o dinheiro dos Mamonas, comprei o meu estúdio. Graças a eles estou aqui. 
 Mamonas Assassinas, primeira criação de sucesso estrondoso de Rick Bonadio 

O dinheiro que você ganhou deu pra segurar os gastos da criação de um estúdio?
 Peguei dinheiro emprestado para comprar os equipamentos. Esse apartamento que estou agora veio bem depois, já com todo o trabalho e sucesso que tive. Comprei, fiz uma reforma de 6, 8 meses, e vim morar aqui. 

 Como é que você transita entre tantos gêneros musicais?
 No seu “cardápio” temos duplas sertanejas, bandas jovens, cantores adultos e até álbuns infantis. Eu tenho todos os estilos: infantil, rock, sertanejo, de tudo. Eu comecei muito pequeno. Naquele meu pequeno estúdio alegado, aparecia todo tipo de artista. Do forró ao sertanejo. Eu como produtor e técnico, tive que transitar. Se chegava uma dupla sertaneja só com viola, eu fazia os arranjos, tocava os intrumentos. O meu nome começou a circular entre os artistas novos, os independentes. Eu sempre trabalhei como o cara que precisava sobreviver com vários estilos. Isso me ajudou a fazer o disco dos Mamonas. Tinha sempre o rock, mas também o sertanejo, o pagode, o brega... Várias referências que vieram dessa minha experiência. Eu acho que o produtor não precisa ser fiel a um estilo. 

 São muitos sucessos nesses 28 anos de carreira. Quando você percebe que aquela banda, aquela disco, aquela música, tem potencial? 
Meu gosto pessoal é determinante. Se eu gosto muito, resolvo investir. Mas é claro que, com todos esses anos de trabalho, também tenho a carga da experiência de mercado. Hoje tem coisas que eu gosto, mas sei que não vão funcionar no mainstream. Ainda assim eu produzo. Não tenho mais essa necessidade de criar sucessos. Antigamente eu ia gastar amanhã o sucesso que eu fizesse hoje. Agora estou numa situação mais confortável. 

 Hoje temos vários cantores e bandas independentes que têm seu público cativo em algum lugar, mas não necessariamente são estouros da música popular e nem sempre tocam nas grandes rádios. Tem o Silva, a Céu, a Mahmundi, dezenas de talentos... Numa entrevista recente que fiz com Silva (edição 850 de QUEM, na seção 10 Perguntas dos Leitores Para...), perguntei a ele se dava pra ganhar dinheiro sem ser uma Anitta, uma Marília Mendonça, que reúne 50 mil pessoas num show. Ele disse que não (risos). 
 Eu acho que o que mais dá certo hoje na música, principalmente do ponto de vista de qualidade musical, é você estar em um nicho que não necessariamente está exposto na grande mídia ou para as grandes massas. Dessa forma, você consegue fazer música boa e sobreviver. Se o cara é muito bom em um nicho, acredito que em algum momento ele vai fazer uma música, um disco, que vai alcançar popularidade nacional. Se a Marisa Monte curtiu o Silva, já há uma chance de muita gente ir atrás dele só com esse disco (Bonadio se refere ao álbum Silva Canta Marisa, com participação da cantora, lançado ano passado pela Som Livre) . Eu conheço muita gente que chegou engatinhando. O rádio já está acabando, mas ele ainda é quem determina o sucesso. Mas hoje não existe mais aquela coisa de pegar o cara do zero pra tocar no rádio. A gente fazia muito isso, fizemos com os próprios Mamonas. Quem é músico nos tempos atuais tem que correr muito atrás. 

 Muito artista reclama das plataformas de streaming. Que o dinheiro que elas trazem não é o suficiente pra sobreviver – pelo menos se eles não viverem só de shows. Mas todo mundo chega facilmente nelas, os artistas e o público. Qual seria a saída? 
O cenário está ruim. O Brasil sempre teve vários estilos musicais predominando. Tinha o axé, o rock, o pagode, a MPB e o sertanejo. Esses gêneros eram mais ou menos equilibrados. De vez em quando apareciam músicas muito popularescas que também faziam sucesso. Hoje, o sertanejo e o funk têm tampado os espaços de quem faz música boa. A MPB tá mais pra baixo, o rock, o pop de origem... Essas coisas muito ruins estão pegando a função do pop. Mas isso é cíclico. Quando a economia vai muito bem, a tendência é que o povo ouça mais coisas ruins. A gente esteve num período bom da economia, estavam consumindo qualquer coisa. Ninguém prestava atenção na música. Qualquer merda faz sucesso. Agora que está faltando dinheiro, as pessoas vão voltar pra música boa. E elas não vão consumir este monte de porcaria por muito tempo mais. O cara tá sem dinheiro para comprar o celular, o carro, ir pra balada. Se você não está numa festa, num clima de balada, esses hits de hoje não fazem sentido. É nessa hora que você busca uma música melhor. Nos próximos cinco anos, creio que essa tendência deve crescer. Já as plataformas de streaming são ótimas. Elas não funcionam de forma muito diferente do rádio, com exceção de que têm muito mais opções e a pessoa pode ouvir o que quiser, na hora que quiser. Tais plataformas são veículos do momento digital. Hoje os streamings pagam direito, quem não paga é o YouTube, tanto que os músicos já estão boicotando ele um pouco. O Spotify deve lançar um serviço de vídeo em breve. Quando o YouTube parar de ser a grande plataforma de música, acabou para esses artistas ruins. O veículo, no entanto, não difere. Se o artista é bom, vai receber dinheiro em algum momento. 

 Ganha-se menos hoje? 
Muito, muito menos. Há 10, 20 anos você fazia fortunas com uma música. Mas outros mercados também passaram por isso. Pensa no jornalismo, o que aconteceu com tantos veículos e formas de difundir o conteúdo. Tanto faz hoje pro leitor se as matérias saem na revista, na TV ou na internet. Quem gosta do seu trabalho vai te prestigiar da mesma forma. É isso que eu falo quando digo que o veículo indifere. 

 O sertanejo hoje é o grande gênero da música brasileira. Creio que funciona como uma fábrica. Uma dupla que a gente nunca ouviu falar tem 100 milhões de visualizações no YouTube. Essa tendência do mainstream continua com a crise que você citou? 
O sertanejo bom tem letra e melodia. Existem muitos bons hoje, como a Maiara & Maraísa, a Marília Mendonça, que é ótima. Elas têm conteúdo, cantam muito! Esses caras que falam de balada, carro, besteira e pegação vão sumir. Se você quer saber, já estão sumindo. O Lucas Lucco é muito ruim. Tem que fazer novela. Ele é bonito, faz outra coisa... Essas duplas e cantores muito oportunistas já deram. O consumo dessa fábrica já vem caindo. Os que têm qualidade musical ficarão. O vazio, fútil, vem e vai muito rápido. 

 Por que você resolveu produzir o Christopher Clark, que ganhou o X-Factor Brasil?
Não existe a tal maldição dos vencedores de reality show, que nunca vão pra algum lugar? 
O cara quando sai de um reality vira um artista como outro qualquer. O que acontece é que ele foi mais exposto e conseguiu contrato com uma gravadora. O fato dele conseguir esse contrato é uma grande oportunidade. O sucesso depende do repertório autoral que ele vai ter, o trabalho da gravadora e até do carisma. O problema é que ele não tem mais o reality no ar pro povo se lembrar dele. Se o programa continuasse, como aconteceu com o Popstar (do SBT, que lançou Rouge e Br’oz numa tacada), o cenário muda de figura. 
Mas me fala, quantos realities musicais tivemos no Brasil? 
Foram uns 20, 30, contando temporadas. São 15 anos de programas de TV. Mas pensa quantos artistas fora deste meio passaram por gravadoras nesses 15 anos e também não fizeram sucesso? Você precisa fazer 15 realities pra acertar um cantor. O reality show tem uma característica muito específica porque o artista que está nele acaba sendo comparado com outros, até pelas músicas que cantam no ar. Numa final, por exemplo, é uma pessoa contra duas. Na vida, é ele contra 100 mil artistas e estilos. As pessoas não analisam mais profundamente a situação. 

 Mas você acredita no Christopher? Acha que ele vai conseguir? 
É um desafio enorme. Eu tinha dito no X-Factor que eu não queria produzir o ganhador. Ia sobrar pra mim a responsabilidade de transformá-lo num sucesso. Mas eu não consigo deixar de me envolver. A gente ficou amigo, estou torcendo sim, porque pra mim ele representa uma injustiça que acontece na música. São 300 que entram e um que é selecionado. A falta de oportunidade acontece com quem talento. O Christopher com 43 anos canta pra cara***. Por que ele não fez sucesso nesse tempo todo que está batalhando? Eu não sei. A gente tem muitos artistas que passam a vida inteira tentando e não conseguem. Isso me emocionou bastante porque acho que ele representa essa situação.

 Quantas demos você recebe por mês?
 Hoje eu recebo tudo pelo Facebook. Contrato e respondo as pessoas pelas mídias sociais. Eu faço às vezes umas transmissões ao vivo que têm 30, 40 mil pessoas assistindo. Mistura curiosos, fãs, com gente que quer cantar. No mês eu e minha equipe ouvimos umas 300. Dessas 300, uma é realmente boa. Eu produzo mais ou menos 10 artistas novos por ano. É mais ou menos essa a média. 
 Christopher Clark, vencedor do X-Factor Brasil, que terá disco produzido por Rick 

FONTE/QUEM

Nenhum comentário:

Postar um comentário