quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

" A liberdade de ser Maju Coutinho "
Ao lançar livro sobre sua profissão, apresentadora do tempo do Jornal Nacional repercute o amor e a cólera que despertou nas pessoas desde que caiu nas graças do público 

 Por Fabricio Pellegrino
Ao se tornar referência como a primeira jornalista do tempo negra da Rede Globo, Maria Júlia Coutinho, a Maju do Jornal Nacional, tem provado, há pouco mais de três anos, a dor e a delícia de estar no olho do furacão. 
A moça que inovou ao apresentar as notícias meteorológicas com o que os críticos chamam de informalidade – e ela de adequação à época em que vivemos – tem colhido respeito profissional dos colegas e admiração do público, além de ter sido alçada ao posto de musa inspiradora.
 Em sua homenagem, Xico Sá, publicou uma crônica na obra O Livro das Mulheres Extraordinárias e o músico Jarbas Bittencourt escreveu a canção Tempo Firme. 
Mas nem só de dias ensolarados tem sido a rotina da mulher do publicitário Agostinho Paulo Moura. 
No ano passado, ela foi vítima de ataques racistas na internet e, mais recentemente, apontada como pivô da separação dos colegas de emissora William Bonner e Fátima Bernardes. 
A moça enfrentou as tempestades com o resultado de dez anos de análise e aulas de ioga. 
Hábitos que fizeram companhia à sua nova função: autora de livro.
 Após um ano de dedicação intensa, Maju acaba de lançar Entrando no Clima. 
Na obra, ela traduz conceitos meteorológicos como atmosfera, geada... 
A seguir, em entrevista exclusiva à CONTIGO!, a jornalista fala sobre a nova faceta, além de todos os temas, de maternidade a preconceito, que sempre repercutem em torno de si. 
 Como surgiu a ideia do livro? 
 No meu primeiro almoço com a jornalista Zileide Silva, ela levou um amigo, o jornalista Alberto Villas. No dia seguinte, ele me escreveu dizendo que tinha uma amiga que queria me convidar para escrever um livro. Ela me contou que a Planeta, uma editora espanhola, lançou na Espanha uma obra com o apresentador do tempo mais famoso de lá, explicando o clima para as pessoas, e que queriam replicar isso no Brasil comigo. 

 E fez tudo sozinha? 
 Contei com a ajuda do coautor, o meteorologista Mauro Neutzling Lehn, e de outros especialistas. O meu marido era o primeiro leitor, mas para ele estava tudo lindo (risos). Então, passava para familiares e amigos leigos no assunto lerem. Quando alguém não entendia algo, escrevia de novo. Na revisão, período em que tive até pesadelo com parágrafo errado, tive ajuda dos meus pais. 

 Vai repetir a experiência? 
 Pensamos em um livro sobre o tempo para crianças, pois fora do Brasil já existem obras assim voltadas ao universo infantil. 

 Você e o Augusto planejam filhos?
 A gente fala pouco sobre isso. Aliás, as pessoas pensam mais nisso por mim do que eu (risos). Acho a maternidade linda, mas não está nos meus planos agora. Eu estou feliz!

 Como é ser referência após se tornar a primeira jornalista do tempo negra?
 Essa dimensão toda é surpreendente e agradeço muito. Sinto isso com o carinho e a admiração com os quais as pessoas falam comigo. Quando você se vê como referência, a sua responsabilidade é maior. Mas levo numa boa, porque sou a mesma pessoa na TV e fora dela. Sempre procuro ser honesta e autêntica. 

 Aliás, por que escolheu Jornalismo?
 Minha mãe sugeriu que eu fizesse um teste vocacional, mesmo eu já tendo me inscrito no vestibular de Pedagogia da USP. Não sei o motivo, mas achei que me daria bem como jornalista. O Jornalismo sempre foi muito presente na minha infância e adolescência. Eu sempre brincava de jornalista.

 Mas fez Pedagogia também?
 Estudei Jornalismo de manhã e Pedagogia à noite. Como fiz Magistério, dava aula para crianças no período da tarde. No meio dessa correria de um lugar para outro, bati o carro. Então, desacelerei e fiquei só com o Jornalismo. 

 Como era a professora Maju? 
Eu não dominava a classe (risos). Eles tinham 10 anos e eu, 22, era um horror. Por ser muito nova, era praticamente mais uma criança no meio delas. Hoje, talvez, eu fosse uma professora melhor.

 Qual a sua válvula de escape? 
A ioga. A minha mãe conta que, quando ficou grávida de mim, alguém pediu para ela fazer uma posição de ioga e a bolsa dela quase estourou (risos). Não sei se isso criou alguma ligação minha com a prática. A jornalista acaba de lançar o livro Entrando no Clima Após ter sofrido ataques racistas na internet, em toda entrevista, você é questionada sobre preconceito. 

Isso cansa? 
Um pouco. Apesar de ser consciente da existência do racismo e vir de uma família que trabalhou muito bem essa questão comigo, acho que já deu o que falar sobre isso. A maior bandeira que posso levantar é o meu trabalho. Um livro sobre meteorologia, lançado por mim, fala muito mais do que um tratado racial. Além disso, me comprometi comigo a me abastecer de leitura sobre a questão racial para eu não falar sempre as mesmas coisas, pois assim as discussões não avançam. Sei que é um tema importante, delicado e que deve, sim, ser abordado, mas quero estar mais preparada para falar sobre ele. 

 Como soube que era a musa inspiradora da música Tempo Firme?
 A jornalista Flavia Oliveira (47) disse que o músico Jarbas Bittencourt tinha feito uma música para mim. Fiquei emocionada e liguei para ele para agradecer. O Xico Sá também a homenageou em um crônica... O Xico havia metido o pau nas garotas do tempo. Ele disse que nós falávamos que chuva era sinal de tempo ruim, mas o pai dele queria que chovesse. Isso me deu raiva e escrevi para ele, explicando que na Globo não falamos “tempo bom ou ruim”, pois aprendemos que isso é relativo. Ele respondeu dizendo que estava escrevendo uma crônica sobre mim. O meu marido achou que fosse xaveco. Quatro meses depois, o Xico lançou um livro e estava lá a minha crônica. Com o sucesso, passou a ser vítima de fofocas.

 Como lida com isso? 
Acho um saco, mas faz parte do jogo. Não dou trela para não replicar, não bato boca. Como faço terapia e tenho amigos que cuidam de mim, tenho base. Quem não possui isso pode ficar doido, pois é difícil ver seu nome em mentiras.  

Como quando foi apontada como pivô da separação do Willian Bonner e da Fátima Bernardes, por exemplo?
 Sites sem credibilidade inventaram isso. Achei desrespeitoso com o momento pelo qual passavam e com o meu marido também. Procuro não perder a calma. Mas, claro, não gostei, fiquei chateada.

 O que aprendeu com a terapia? 
A manter a calma, a me respeitar e a falar “não”. Foi libertador. Antes, quando algum amigo me chamava para sair, por exemplo, eu ia mesmo sem vontade, não conseguia negar. A minha terapeuta tirou de mim a mulher que eu sempre quis ser e eu não sabia.

FONTE/QUEM

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